segunda-feira, 4 de novembro de 2013

E aquele pingado?

Era seu dia de folga e José andava pela Cásper Líbero em direção á Ipiranga. Por um momento pensou como é engraçada essa familiaridade que se tem com as ruas do centro de São Paulo a ponto de chamá-las somente pelo nome, dispensando a formalidade de rua, avenida, travessa. Era como se tivessem virado gente. Estava passando pela Luz, que um dia fora somente uma estação, e se dirigia á Santa Efigênia, que além de rua intercedia por nós.
Lá trabalhava no balcão da padaria mais antiga da rua há cinco anos. Ou seria quatro? Talvez seis? Não importava. Aquele cheiro azedo de urina na rua não ajudava nos cálculos matemáticos. Lembrou-se do pingado que fez para o candidato a prefeito que nas últimas eleições foi conversar com os comerciantes do bairro. Do balcão da padaria, preparando suco de laranja e cappuccino para as madames, José ouvia de tudo. Mas ouvia e não respondia. Não perguntava. Na verdade, fingia que não ouvia.
Ás vezes lá se reuniam grupos de estudantes que diziam estar fazendo trabalho de campo. Foi com um destes grupos que ouviu uma vez que o centro, no início do século, era chique. Quando foi isso? Mil novecentos e bolinha? É verdade que achava a Luz e a Estação Júlio Prestes muito bonitas e lhe dava uma sensação de estar em outro tempo, mas chique? Achou que aqueles jovens estavam imaginando demais. Estudar muito deixa as pessoas louquinhas mesmo, seus avós já diziam. O centro é de gente pobre e suja. Que dorme e mija na rua. E pensava isso quando chegava à esquina da Rua Aurora, conhecida pela prostituição. É, o centro é de gente abandonada. Sem lugar para morar ou trabalhar. Chique? De onde eles tiraram isso?
Vira e mexe também passavam por lá turistas. Quando vinham de outros estados, estavam com sacolas enormes de bugigangas compradas na 25 de março e arredores; quando vinham de outros países, pareciam peixes fora d’água. Não entendia o que tinha ali para turista ver. De dia fica menos feio, tudo bem. Mas o cheiro azedo não vai embora e, no sol de outono do meio dia, fica ainda pior.
Andando pela calçada, desviando do concreto quebrado e torto, na sua frente andavam dois meninos e um deles estava descalço. O mais velho abraçava o mais novo e não deviam ter mais que quatro e seis anos. Passou por um mendigo, deitado na porta de ferro de uma loja fechada e coberto até o rosto pelo cobertor. Fedia. E isso lhe chamou atenção. Lembrou-se do pingado e do candidato à eleição, de terno e gravata, e os homens que o acompanhava. Isso foi ano passado.
A cada dois anos, mais ou menos, aparece candidato lá na Padaria. José não gosta de atendê-los. Se fazem de simpáticos, mas falam difícil. Eles há muito tempo vêm com propostas de melhoria do bairro, dizendo que vão cuidar do lixo, tomar medidas para tirar de lá os crackeiros, melhorar as calçadas, trazer mais segurança e uma conversinha sem fim. Agora, na esquina do Bar do Léo, para não passar ao lado daquelas pessoas com chopp na mão comendo coxinha, atravessou a rua, onde tinha gente mendigando sentada em papelão no chão, suja e mal vestida.
Aquele candidato e seu pingado, pensa José, é aquele que venceu as eleições, num é? Mas que diferença faz? Tudo continua igual há tanto tempo... Ele dizia aos comerciantes da região que ali sentaram para conversar, que o comércio não ia ser prejudicado e o Projeto Nova Luz seria mais bem avaliado. Era esse o nome mesmo? As demolições, dizia o candidato, não iriam mais acontecer e que tinha gente importante e inteligente cuidando disso, mas que, principalmente, se ele fosse eleito, o direito dos comerciantes de continuar a trabalhar estaria garantido. O dono da Padaria apareceu, ofereceu um lanche de cortesia da casa, mas ele recusou, disse que estava ali para conversar também com representantes dos moradores do bairro para lhes dizer, que assim como o direito dos comerciantes estava garantido, suas moradias também lhes eram de direito.
José queria perguntar, mas não podia. Algo lhe preocupava muito. Era da Cidade Tiradentes e vivia de bicos. Até que um dia, conseguiu esse emprego para trabalhar no balcão da padaria, que ficava no centro. Mas o trabalho começava ás cinco da matina, para colocar os pãezinhos no forno e não havia trem nem ônibus que o fizesse chegar a tempo. Conseguiu um quartinho num prédio ocupado na Rua Mauá. Seu Nelson havia sido muito bom com ele. De lá, podia sair as 4h45 para chegar ao trabalho na hora, e passava por uma gente que parecia estar semi-morta, encostada nos muros e postes, deitada no meio-fio. Pagava muito pouco de condomínio e lá vivia bem. Se de lá saísse, não sabia para onde ir. Não teria condições de pagar um aluguel por ali e, se fosse mais longe, não conseguiria continuar trabalhando na padaria.
José queria perguntar, o que seria dessa gente que mora na Mauá? O que seria dele? Poderia continuar? Teria que sair? E agora? Se falasse, seria repreendido pelo patrão. Pergunta ou não? E agora? E agora, José? 
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Narrativa desenvolvida para avaliação da disciplina de Ensino e História: Teoria e Prática, em Julho de 2013

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