terça-feira, 3 de julho de 2012

Voltaire e a Imaginação Histórica


Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet, foi um importante filósofo do século XVIII que fez parte e marcou profundamente o pensamento Iluminista. Sua escrita é ácida, cheia de ironias, mas também é sua ferramenta de ataque à muitas instituições de sua época. Em “A Filosofia da História”, Voltaire transparece muito de seu pensamento a partir do que ele concebe como História. Apesar de ser comumente chamado de filósofo, isso acontece apenas por convenção, pois também possui obras de outros gêneros, como narrativa e textos de cunho histórico, como serão analisados com mais detalhes aqui. 

Um dos principais alvos da crítica Iluminista era a Igreja. Os pensadores iluministas defendiam a emancipação do individuo, que precisava se libertar das tutelas não só da Igreja, como também do Estado, e pensar por si próprio, livrando-se de fábulas, crendices, combatendo assim o preconceito e a superstição. Voltaire, como faz parte dessa época, não pensava diferente. Para ele, a História está permeada de fábulas que foram sendo criadas para explicar o passado, mas que estão muito distante da realidade, ao mesmo tempo em que seu compromisso é com a verdade. Em nenhum momento ele desvincula a História da escrita, a primeira depende da criação e do aprimoramento da segunda para existir, pois, segundo Voltaire, até a existência de homens que tivessem tempo e meios para registrar os acontecimentos, estes eram passados oralmente de geração em geração, perdendo assim o compromisso com a verdade e sendo permeada de fábulas e fatos inverossímeis. Por isso, dentro de seus vários exemplos, as referências à História Antiga são usadas muito mais como crítica aos autores contemporâneos – que ás vezes fazem uso da mitologia como relato verdadeiro da História - do que como método histórico, pois, quanto mais distante do tempo presente, menos compromisso a História tem com a verdade. 

Voltaire leva muito em conta o tempo que leva o progresso de uma civilização. Desta maneira, muito longo foi o tempo em que um determinado grupo de pessoas foi capaz de desenvolver a agricultura, a pecuária, a construção de casas e outros, para depois ser possível o desenvolvimento das artes e da escrita. As origens dos povos, portanto, constituem mitos, pois nas suas origens, esses grupos de homens estavam muito mais preocupados em aprender outras coisas das quais dependia sua sobrevivência do que a perpetuação da memória. 

A História, para Voltaire, tem este forte compromisso com a verdade, pois ela constitui um instrumento de educação moral. A ideia de História é bastante pragmática para nosso autor: o que deve ser registrado são os fatos extraordinários, tanto para o bem quanto para o mal, para que eles sirvam como exemplo do que deve ou não ser feito. Se ela tem um intuito moral, Voltaire reconhece que a História se aproxima da fábula, cujo objetivo também é a instrução moral, mas, a força retórica da primeira se sobressai, pois ela carrega em si a veracidade e se aproxima das capacidades do ser humano. Se somente o extraordinário merece ser registrado, o que não for moralmente útil torna-se fofoca e compõe o que Voltaire chama de História Satírica. Mais uma vez transparece o seu compromisso com a verdade, pois esta última categoria de História também não tem o cuidado de transparecer o verdadeiro, comprometendo-se com adulações ou sátiras, geralmente feitas por partidários políticos. Por isso a necessidade de se libertar não só das amarras religiosas, mas também políticas.

Outra obra que transparece muito do seu pensamento é “Cândido”, no qual, em forma de narrativa, Voltaire tece suas principais críticas à sociedade de sua época. O protagonista Cândido é educado por Pangloss, uma caricatura do filósofo do século XVII Leibniz, que acredita que vivemos no melhor dos mundos possíveis, pois foi criado por Deus, que é bom, poderoso e perfeito. Se existe o mal, é porque ele faz parte deste mundo perfeito e se há coisas que concebemos como imperfeitas, é porque nossa capacidade humana é incapaz de compreender a criação divina. Cândido, desta maneira, está sempre preso a essa educação moral que entra em constante choque com a realidade vivida pelo protagonista ao longo da narrativa, dado os inúmeros incidentes em que ele sempre se encontra. Essa educação que tende a formar pessoas cultas e instruídas, mas incapazes de pensar por si próprias e adquirirem um pensamento crítico diante da realidade é a principal crítica do livro.

Outra crítica bastante ácida que Voltaire faz ao longo da narrativa de Cândido é contra a instituição católica. Ele critica a dominação jesuítica na América denunciando o clero como corrupto e mundano. Além da relação que um Inquisidor-mor mantém com Cunegunda, a amada de Cândido, seu irmão também tem uma relação com um jesuíta que parece ser homossexual. A Igreja também é mostrada como supersticiosa e responsável pela condenação de gente inocente, como quando responsabiliza algumas pessoas, inclusive Cândido e seu mestre Pangloss, pelo terremoto de Lisboa e as condena à fogueira. 

A passagem de Cândido por Eldorado também é bastante emblemática. Lá, a moeda oficial é a libra esterlina: “Ficou pronta em quinze dias e não custou mais do que vinte milhões de libras esterlinas, moeda do país” (pag. 86). O Eldorado seria, então, uma referência à Inglaterra, que Voltaire admirava, pois, segundo ele, existiam lá mais de uma religião e elas viviam em tolerância umas com as outras e também fazia assim uma crítica mordaz ao absolutismo francês. Voltaire carrega em sua obra uma valorização do ideal burguês, ou seja, o enriquecimento através do trabalho, indo de encontro, portanto, ao ideal da nobreza. A última frase do livro: “- Está bem dito, responde Cândido, mas é preciso cultivar nosso jardim” (pag. 157) se refere a esse ideal burguês de valorização do trabalho, ao mesmo tempo em que o “jardim” pode ser interpretado como a existência e os acontecimentos futuros da vida de cada um. Não mais é o mais perfeito dos mundos onde impera a passividade, pois se é o melhor dos mundos, não há o que ser feito para melhorar o que se julga errado, mas o mundo em que é preciso cuidado com a realidade vivida. 

Vale mencionar ainda que para Voltaire o progresso está nas ciências e nas artes, portanto, bárbaros não são apenas os búlgaros que espancam Cândido e invadem e saqueiam o castelo de seu tio matando sua família, mas também os considerados “civilizados”. Em “Introdução ao Ensaio sobre os costumes” no capítulo VII “Dos selvagens”, Voltaire também chama de selvagem todos aqueles que se reúnem semanalmente numa igreja para ouvir as palavras do sacerdote de quem não entendem nada e que se alistam em exército para matar pessoas em guerra e ganhar um quarto do que poderiam ganhar trabalhando em casa. Ele completa dizendo que os selvagens da América são ainda superiores aos selvagens europeus, pois têm embaixadores e representantes que se comunicam com os europeus que lá chegam, além de outras características que Voltaire atribui como qualidades civilizadas. Voltaire critica, assim, como selvagens aqueles ainda ligados ás amarras e ás tutelas do Estado e da Igreja, incapazes de pensar criticamente por si próprios, mas capazes de contribuir com dízimos uma instituição cujos dizeres não compreendem e matar e morrer por um Estado Absolutista e uma nobreza com a qual não se identificam.

O pensamento de Voltaire é abrangente e complexo, muito ainda poderia se dizer sobre sua obra, mas em geral, Voltaire reflete o pensamento de sua época e mostra que havia uma percepção de História pragmática, como instrumento de instrução moral num contexto em que a educação emancipacionista era vista como forma de mudar e melhorar a realidade. 
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Trabalho que desenvolvi para a disciplina de Teoria da História I.

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