segunda-feira, 23 de julho de 2012

Tipo ruim de pessoa

Acho que se tem um tipo ruim de pessoa é aquela que consegue fazer o mal, desestabilizar pessoas, famílias e ambientes de trabalho e ainda sair por cima como vítima de tudo isso.

Nesta minha última experiência (que já passou, graças a deus!), convivi com uma pessoa assim. É capaz de escolher alguém que se encontre só e ir apontando defeitos e, até mesmo, inventando outros. Até que desestabiliza a paz, traz discórdia, pensamentos e sentimentos ruins que poluem a energia do lugar atrapalhando, assim, até mesmo a convivência entre as outras pessoas. 

Mas essa pessoa também sabe muito falar de Deus! Aprendeu passagens da Bíblia (ou diz que sabe, mas na verdade não sabe) e adora jogar na cara das pessoas como elas não estão seguindo o Evangelho.

Minha dúvida, o que me incomoda lá no fundo, é saber quão intencional estas atitudes são. Será que faz tudo isso sabendo e esperando uma reação negativa da pessoa que está atacando, para ocasionar uma discussão, ou até uma briga? Faz isso pensando e querendo desestabilizar famílias e ambiente de trabalho? Tem consciência de que está inventando argumentos bíblicos para algo que a Bíblia diz o contrário? Quer mesmo afastar as pessoas? Tem a intenção de magoar?

Além de outras coisas, no entanto, é possível aprender uma coisa valiosa com essas pessoas. Muito mais do que você fala,o mais importante é como você fala. Falar um monte de invenção e mentira, mas com segurança e serenidade convence. Transparece sabedoria. Uma sabedoria vazia, é verdade, mas a primeira vista parece verdadeira. 

Ainda bem que para mim nunca pareceu verdadeiro que sou desestabilizada e mal resolvida. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Gordinha feliz

Uma coisa muito difícil de admitirmos é que nem em todos os aspectos somos como queríamos ser e, se esforçar para mudar, nem sempre é o melhor caminho. 

Reconhecer que eu não sou gorda, mas que minhas gordurinhas que tanto me incomodam são, na verdade, parte do meu biotipo, foi difícil. Dizer que isso foi uma superação é, em parte, mentira. Eu ainda me acho gorda, enorme, feia. 

Mas acontece que antes de querer não me sentir gorda, eu queria não gostar de comida. Eu amo comida. Principalmente doces. Segunda feira fiz um bolo de yogurt delicioso para tomar com um belo de um café passado na hora. Na terça, mais bolo. Na quarta, um pão de mel. E na quinta... Bom, agora eu acabei de fazer um doce de banana tão gostoso, mas tão gostoso, que queimei a minha língua comendo ele ainda quente.

Mas se tem alguma coisa que eu não gosto (e ainda bem que meu cérebro não é tão ruim comigo e controla um pouco as minhas vontades) são os embutidos. Mortadela, bacon, calabresa, linguiça, salsicha... De tudo isso eu quero distância. Mas de açúcar... Ah, se pudesse eu casava com o Allan e manteria um affair com ele! 


Acontece que para eu emagrecer e ser do jeito que eu queria ser - uma atriz da Malhação -, eu teria que me privar de muita coisa. Parar de fazer meus bolos, deixar de comprar um chocolate lá e outro aqui, não curtir um gostoso pedaço de pão com manteiga aviação, passar longe das cafeterias e seus cappuccinos e, até mesmo bloquear todos os sites de culinária no meu computador. 


Como disse no post anterior, estou treinando corrida. Correr dias alternados me faz sentir menos culpada por gostar tanto de coisas gordinhas. Acontece que tenho um gosto gordinho por comida. Fazer o que se Deus me fez assim? Mas também não posso dizer que as corridas têm sido um sacrifício. Pelo contrário, a cada treino ela se torna mais prazerosa. 

A parte mais difícil disso tudo é aprender a ser feliz não sendo uma atriz da Malhação e que eu tenho que me amar como eu sou, porque sou muito amada com meus 59kg e 1m55, e isso é o mais importante de tudo. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Férias paradoxal

Férias é um paradoxo. Estou cansada.

Tenho uma lista de coisas que quero fazer. Entre elas estudar para o meu relatório de estágio (que envolve teoria arquivística e metodologia histórica), estudar inglês, espanhol (coisa que nem comecei), voltar a praticar corrida e ler O Cemitério de Praga de Humberto Eco. De tudo isso, a única coisa que fiz foi voltar a correr.

Uma vez li na internet que o corpo "responde rápido aos bons tratos". Aos maus também. Mas voltar a correr tem sido um prazer.

Do resto... Nada. Isso porque queria incluir nas minhas férias uma viagem de uma semana, ida ao dentista e... Descanso!

Incrível! Quanto mais tempo se tem, menos consigo fazer!

Lembro do post que escrevi sobre ter menos horas no dia, para que os afazeres diários não nos sobrecarregassem. Oras, nas férias (mas somente nas férias), poderia ter um pouco mais de horas os dias, pois, assim, dedicaríamos mais tempo para nós mesmo e não para o trabalho e/ou faculdade (como tenho feito agora). Ops! Estou caindo nas armadilhas da contradição.

No fim, acho que se trata de um enigma. Um puzzle que tenho que resolver na minha vida e transformar as férias em algo produtivo, mesmo que falte tempo. Antes que ela acabe.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Voltaire e a Imaginação Histórica


Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet, foi um importante filósofo do século XVIII que fez parte e marcou profundamente o pensamento Iluminista. Sua escrita é ácida, cheia de ironias, mas também é sua ferramenta de ataque à muitas instituições de sua época. Em “A Filosofia da História”, Voltaire transparece muito de seu pensamento a partir do que ele concebe como História. Apesar de ser comumente chamado de filósofo, isso acontece apenas por convenção, pois também possui obras de outros gêneros, como narrativa e textos de cunho histórico, como serão analisados com mais detalhes aqui. 

Um dos principais alvos da crítica Iluminista era a Igreja. Os pensadores iluministas defendiam a emancipação do individuo, que precisava se libertar das tutelas não só da Igreja, como também do Estado, e pensar por si próprio, livrando-se de fábulas, crendices, combatendo assim o preconceito e a superstição. Voltaire, como faz parte dessa época, não pensava diferente. Para ele, a História está permeada de fábulas que foram sendo criadas para explicar o passado, mas que estão muito distante da realidade, ao mesmo tempo em que seu compromisso é com a verdade. Em nenhum momento ele desvincula a História da escrita, a primeira depende da criação e do aprimoramento da segunda para existir, pois, segundo Voltaire, até a existência de homens que tivessem tempo e meios para registrar os acontecimentos, estes eram passados oralmente de geração em geração, perdendo assim o compromisso com a verdade e sendo permeada de fábulas e fatos inverossímeis. Por isso, dentro de seus vários exemplos, as referências à História Antiga são usadas muito mais como crítica aos autores contemporâneos – que ás vezes fazem uso da mitologia como relato verdadeiro da História - do que como método histórico, pois, quanto mais distante do tempo presente, menos compromisso a História tem com a verdade. 

Voltaire leva muito em conta o tempo que leva o progresso de uma civilização. Desta maneira, muito longo foi o tempo em que um determinado grupo de pessoas foi capaz de desenvolver a agricultura, a pecuária, a construção de casas e outros, para depois ser possível o desenvolvimento das artes e da escrita. As origens dos povos, portanto, constituem mitos, pois nas suas origens, esses grupos de homens estavam muito mais preocupados em aprender outras coisas das quais dependia sua sobrevivência do que a perpetuação da memória. 

A História, para Voltaire, tem este forte compromisso com a verdade, pois ela constitui um instrumento de educação moral. A ideia de História é bastante pragmática para nosso autor: o que deve ser registrado são os fatos extraordinários, tanto para o bem quanto para o mal, para que eles sirvam como exemplo do que deve ou não ser feito. Se ela tem um intuito moral, Voltaire reconhece que a História se aproxima da fábula, cujo objetivo também é a instrução moral, mas, a força retórica da primeira se sobressai, pois ela carrega em si a veracidade e se aproxima das capacidades do ser humano. Se somente o extraordinário merece ser registrado, o que não for moralmente útil torna-se fofoca e compõe o que Voltaire chama de História Satírica. Mais uma vez transparece o seu compromisso com a verdade, pois esta última categoria de História também não tem o cuidado de transparecer o verdadeiro, comprometendo-se com adulações ou sátiras, geralmente feitas por partidários políticos. Por isso a necessidade de se libertar não só das amarras religiosas, mas também políticas.

Outra obra que transparece muito do seu pensamento é “Cândido”, no qual, em forma de narrativa, Voltaire tece suas principais críticas à sociedade de sua época. O protagonista Cândido é educado por Pangloss, uma caricatura do filósofo do século XVII Leibniz, que acredita que vivemos no melhor dos mundos possíveis, pois foi criado por Deus, que é bom, poderoso e perfeito. Se existe o mal, é porque ele faz parte deste mundo perfeito e se há coisas que concebemos como imperfeitas, é porque nossa capacidade humana é incapaz de compreender a criação divina. Cândido, desta maneira, está sempre preso a essa educação moral que entra em constante choque com a realidade vivida pelo protagonista ao longo da narrativa, dado os inúmeros incidentes em que ele sempre se encontra. Essa educação que tende a formar pessoas cultas e instruídas, mas incapazes de pensar por si próprias e adquirirem um pensamento crítico diante da realidade é a principal crítica do livro.

Outra crítica bastante ácida que Voltaire faz ao longo da narrativa de Cândido é contra a instituição católica. Ele critica a dominação jesuítica na América denunciando o clero como corrupto e mundano. Além da relação que um Inquisidor-mor mantém com Cunegunda, a amada de Cândido, seu irmão também tem uma relação com um jesuíta que parece ser homossexual. A Igreja também é mostrada como supersticiosa e responsável pela condenação de gente inocente, como quando responsabiliza algumas pessoas, inclusive Cândido e seu mestre Pangloss, pelo terremoto de Lisboa e as condena à fogueira. 

A passagem de Cândido por Eldorado também é bastante emblemática. Lá, a moeda oficial é a libra esterlina: “Ficou pronta em quinze dias e não custou mais do que vinte milhões de libras esterlinas, moeda do país” (pag. 86). O Eldorado seria, então, uma referência à Inglaterra, que Voltaire admirava, pois, segundo ele, existiam lá mais de uma religião e elas viviam em tolerância umas com as outras e também fazia assim uma crítica mordaz ao absolutismo francês. Voltaire carrega em sua obra uma valorização do ideal burguês, ou seja, o enriquecimento através do trabalho, indo de encontro, portanto, ao ideal da nobreza. A última frase do livro: “- Está bem dito, responde Cândido, mas é preciso cultivar nosso jardim” (pag. 157) se refere a esse ideal burguês de valorização do trabalho, ao mesmo tempo em que o “jardim” pode ser interpretado como a existência e os acontecimentos futuros da vida de cada um. Não mais é o mais perfeito dos mundos onde impera a passividade, pois se é o melhor dos mundos, não há o que ser feito para melhorar o que se julga errado, mas o mundo em que é preciso cuidado com a realidade vivida. 

Vale mencionar ainda que para Voltaire o progresso está nas ciências e nas artes, portanto, bárbaros não são apenas os búlgaros que espancam Cândido e invadem e saqueiam o castelo de seu tio matando sua família, mas também os considerados “civilizados”. Em “Introdução ao Ensaio sobre os costumes” no capítulo VII “Dos selvagens”, Voltaire também chama de selvagem todos aqueles que se reúnem semanalmente numa igreja para ouvir as palavras do sacerdote de quem não entendem nada e que se alistam em exército para matar pessoas em guerra e ganhar um quarto do que poderiam ganhar trabalhando em casa. Ele completa dizendo que os selvagens da América são ainda superiores aos selvagens europeus, pois têm embaixadores e representantes que se comunicam com os europeus que lá chegam, além de outras características que Voltaire atribui como qualidades civilizadas. Voltaire critica, assim, como selvagens aqueles ainda ligados ás amarras e ás tutelas do Estado e da Igreja, incapazes de pensar criticamente por si próprios, mas capazes de contribuir com dízimos uma instituição cujos dizeres não compreendem e matar e morrer por um Estado Absolutista e uma nobreza com a qual não se identificam.

O pensamento de Voltaire é abrangente e complexo, muito ainda poderia se dizer sobre sua obra, mas em geral, Voltaire reflete o pensamento de sua época e mostra que havia uma percepção de História pragmática, como instrumento de instrução moral num contexto em que a educação emancipacionista era vista como forma de mudar e melhorar a realidade. 
____________________________________________

Trabalho que desenvolvi para a disciplina de Teoria da História I.