segunda-feira, 4 de junho de 2012

The homeless and the ignorant


Andar de trem pode ser perigoso. Não por causa dos momentos em que ele está lotado, não pelo perigo que corremos em ser assaltados, muito menos pela chance de ele sofrer uma pane e chegarmos atrasados aos nossos destinos. Ele pode ser perigoso pelas conversas que ouvimos dessa classe média que se acha rica e abomina pobre, mas está fazendo uso de um transporte público capenga por falta de política pública que, por sua vez, é resultado de voto inconsciente e falta de senso de cidadania. 

Ontem estava saindo da região metropolitana de São Paulo, Santo André, em direção ao centro de São Paulo,  na estação do Brás. Essa linha de trem foi construída no início do século XX e era parte da ferrovia que ligava Jundiaí ao porto de Santos para carregar o café para a importação. Incrível, mas essa mesma linha foi modificada, ajeitada e agora ela transporta pessoas. A estação do Brás, inclusive, fica pertinho da antiga Hospedaria do Imigrante, que era para onde eu ia na frustrada tentativa de entrar na festa do imigrante se não fosse a fila quilométrica.

Enfim, andar de trem pode ser perigoso porque são uns 40 minutos que, se você não está ouvindo música, lendo um livro ou se distraindo com outra coisa, as conversas das outras pessoas se tornam um atrativo, mesmo que ruim. Foi assim que eu ouvi uma senhora, bem senhora, falando para outra senhorinha, que é um desperdício enorme deixar tanto vagão de trem abandonado ao longo do trilho apodrecendo. Eles deveriam servir, segundo ela, de abrigo para mendigo. Acho que para ela mendigo fica poluindo a cidade, né? Então, a solução seria colocar todos dentro destes vagões e fazer eles assinarem um termo para evitar confusão. E o banheiro? Bom, ela pensou nisso também. Ela sugeriu que a cada dois dias a prefeitura trocasse um banheiro químico que ficasse à disposição deles. 

Olha, eu não tenho uma sugestão perfeita sobre o que fazer com a população que mora na rua a curto prazo, mas trancafiá-los num lugar que fica no meio do nada sem condições básicas nenhuma, também não é a solução. 

Minha crítica não é diretamente a essas velhinhas que não entendem nada de política pública, mas o que elas falaram reflete, infelizmente, um modo de pensar de toda uma classe social que influencia diretamente na decisão dessa classe em frente às urnas. Oras, políticos com propostas à políticas públicas direcionadas às classes mais baixas sempre são mal vistas pela classe média e alta que desejam políticas de melhorias para sua própria classe social. O que fazer com mendigos, retirantes, etc? Oras, fácil, colocá-los em vagões de trem abandonados. 

2 comentários:

Don Allan disse...

Classe pra cá, classe pra lá...minha namorada comuna =)




Realmente, politicas de curto prazo são sempre complicadas pois os incentivos por trás delas passam, muitas vezes, por incentivos politicos. Pra que ajudar mendingo se mendingo nao vota ? É melhor ajudar a classe C, que vota e consome. E vota.

Gabi disse...

Conversas alheias em trens/metrôs/ônibus/fila da padaria e derivados me assustam um bocado.

Outro eu estava esmagada no metrô lotado voltando para casa. Entrou uma mulher com sua mãe, já meio idosa, e sua filha, que devia ter uns sete anos.
Alguém levantou para que elas se sentassem. Sentou a avó com a neta no colo.
A criança, lógico, logo ficou entendiada. E começou a brincar com um cordão da blusa da vó, que pediu que ela parasse com isso.
A criança não parou.
A mãe, vendo a cena, começou a brigar - gritar - com a filha:
- Para com isso, Fulana! Você nunca me obedece!
Revirou os olhos e começou a olhar para os lados, como se falasse para as pessoas que estavam no vagão:
- É por isso que eu prefiro os animais! Você fala para eles pararem e eles te obedecem! Não são que nem você, Fulana!

A carinha que menina fez na hora...nossa, que dó.

Deu vontade de virar para a mulher e falar: Então por que você não adotou um cachorrinho ao invés de colocar uma criança no mundo???

Aff...