quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quando o ultra-moderno se une ao antigo

Nestes últimos três dias participei de um Workshop promovido pelo IEB, MAC e IPEN sob o patrocínio da CBE Embrarad e a IAEA. O título desta oficina era "Preservação de papéis e bens culturais: o uso da radiação ionizante". Vocês já conseguem me imaginar como uma super especialista e interessada em radiação gama e os efeitos químicos e físicos em tudo isso, não é? Mas eu fui lá muito mais com um ar de arquivista e historiadora, que sempre tem em mente a preocupação da conservação da memória.

O que eu vi foi uma coisa interessantíssima. Quando a radiação gama foi criada, a preservação de bens culturais era um objetivo quase inimaginável para os cientístas que trabalhavam com esta questão, mas como o mundo é muito contraditório, hoje ela é um importante, eficiente e econômico instrumento de preservação de papéis, bens culturais e, inclusive, artefatos arqueológicos. Foram dois dias de várias palestras e estudos de caso e, no terceiro dia, uma visita ao irradiador do IPEN, o Instituto de Pesquisas Nucleares. As palestras mais técnicas sobre a aplicação e o funcionamento da radiação gama me foram pouco úteis. No entanto, sua eficiência como instrumento de preservação de documentos de arquivos foi fenomenal. 

O workshop começou com uma das melhores palestras possíveis: a desmistificação do uso de radiação. Ao contrário do que pensamos, os estudos e a aplicação radioativa acontecem sempre com muito cuidado e o manuseio de algo irradiado não nos tornará verdes, tão menos mutantes. Muito do que comemos ou temos acesso foi irradiado em algum ponto de seu processo antes de chegar até nós: temperos, condimentos, flores e frutas destinadas à exportação, instrumentos médicos e até mesmo bolsas com sangue doados que serão usados para transfusão. A conclusão primária foi: não fazemos ideia de onde vem e pelo que passa as coisas que comemos, compramos ou somos submetidos, pois, praticamente, tudo é irradiado.

Mas porque irradiados? Bom, porque a irradiação gama tem a capacidade de, em pouco tempo, desinfectar e desinfestar quaisquer objetos que são inseridos nos irradiadores. O que vimos nos estudos de caso foram documentos e objetos de arte consumidos por fungos, cupins, larvas e brocas que, quando submetidos aos irradiadores, foram "limpos" destes seres biológicos e livres de sua degradação, prontos para serem submetidos ao restauro e limpeza sem que os especialistas corressem algum risco de doença por estar em contato com estes seres. 

Um dos estudos de caso mais interessante foi o da Fernanda Mokdessi Auada. Ela e sua equipe foram responsáveis pelo restauro de toda a documentação dos orgãos públicos da cidade de São Luiz do Paraitinga, localizada no Vale do Paraíba, depois da enchente desastrosa que sofreu no início de 2010. Foi um caso muito noticiado, acredito que muita gente se lembra da Igreja do centro da cidade que desmoronou por causa da água. Enfim, as fotos dos documentos fungados que chegaram a ela foram chocantes. Não acredito na possibilidade de alguém trabalhar com aquele material sem adquirir, no mínimo, uma forte reação alérgica. Os documentos estavam preto, rosa, laranja e de quaisquer outras cores que colônias de fungo podem ter. Imediatamente estes documentos foram irradiados, tiveram seus "inimigos biológicos" detidos e, finalmente, foram restaurados e puderam ser manuseados novamente.

Apesar de incrível e maravilhoso, a gente sempre tem que ficar com um pé atrás, não é mesmo? Por isso que me pareceu que este workshop foi muito mais uma propaganda da possibilidade de irradiação e das poucas empresas que prestam este tipo de serviço aqui no Brasil, do que uma discussão sobre o uso de radiação gama nos papéis e bens-culturais. Não houve um palestrante que mostrasse os contra-pontos desta técnica, somente o endeusamento dela. Eles nos passaram muita segurança em relação o seu uso, é verdade, mas faltou os argumentos adversários. 

Hoje, durante a visita do irradiador, fiquei sabendo da informação mais chocante destes últimos três dias de workshop: a quantidade de radiação para matar um ser humano é de 10 grays, enquanto que a quantidade mínima para desinfestar um objeto infestado de cupins ou outros insetos, é de 10 kgrays. Não me lembro a quantidade exata, mas lembro-me perfeitamente de que o valor estava na casa dos kgray. Somos mais frágeis que insetos. 

Enfim, foi uma experiência muito legal, que me possibilitou a reflexão de como técnicas ultra-modernas podem se aliar à artefatos antigos para a sua preservação e perpetuação da memória.  

Nenhum comentário: