sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O neocolonialismo e o nazismo

História da África foi uma disciplina que eu comecei odiando, hoje eu estou amando. Eu percebi, por volta da quarta ou quinta aula que a história do continente africano é, na verdade, parte da história mundial. Impossível estudá-la sem estudar a Europa e as grande navegações, ou ainda, mais tardiamente, o século das luzes, a revolução industrial e uma mentalidade moderna que perdura até os dias contemporâneos. A África não é só África. Ela tem suas especificidades sim, mas faz parte de um conjunto da história mundial. Em uma aula vimos isto sob o nome de "histórias entrelaçadas", pois a partir da segunda metade do século XVIII, mas com mais força no XIX, as várias histórias internas ao continente junta-se não só umas as outras, mas também as histórias externas.

Foi muito interessante estas últimas semanas, pois que eu estava vendo em história das mentalidades no século das Luzes, na disciplina de História Moderna, tinha íntima conexão com o que eu estava estudando não só em História da África, mas também em História dos Estados Unidos. Sobre este último ainda pretendo escrever alguma coisa por aqui.

Para a próxima aula estou lendo alguns textos sobre a resistência africana em relação ao neo-colonialismo. Não tratarei sobre isto aqui, mas há um trecho que quero transcrever de uma destas leituras muito bom para reflexão. Confesso que tenho achado a história da África um assunto bastante triste de se estudar.

Depois de falar sobre as especificidades dos exércitos do Império Francês, Alemão e Inglês em suas colônias na África, Elikia M'Bokolo, em África Negra - História e Civilizações Do Século XIX aos Nossos Dias, vai falar sobre a presença belga no Estado Independente do Congo e como nele se formavam os exércitos que eram compostos, majoritariamente pelos próprios nativos. Desta maneira, os chefes, obrigados a fornecer homens, ofereciam aqueles renegados pela sociedade, mais fracos, ou que ameaçavam de alguma maneira a tribo e tinham poucas oportunidades de promoção. M'Bokolo diz que, além das causas referentes as características da primeira idade colonial, este fenômeno explica a violência que marca o período colonial e cujas cicatrizes, se fechadas ou não, permanecem ainda muito visíveis. Ele registra no seu texto um testemunho:

"Quando era jovem, vi o soldado Molili, que guardava na altura a aldeia de Bayeka, pegar numa grande nassa, meter nela indígenas detidos, prender-lhe umas pedras muito grandes e atirá-la para o meio do rio. [...] A produção de borracha deu origem a bastantes infelicidades, é por isso que não queremos mais ouvir dessa palavra. Os soldados obrigavam os filhos adultos a matar ou violar as próprias mães e irmãs"

E ele continua o seu texto:

"Esta violência permanente, deixada a si própria, sem controle e sem outra sanção se não a submissão dos povos a colonizar e a eficácia econômica das tropas, teve terríveis efeitos tanto em África como na Europa. Aimé Césaire foi o primeiro a sugerir que, nela, havia o 'veneno instilado nas veias da Europa e o avanço, lento mas seguro, da barbarização do continente', que conduziu ao nazismo, e acrescentava o poeta:

'Aquilo que [o muito cristão burguês do século XX] não perdoa a Hitler, não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, é a humilhação do homem branco, é o de se ter aplicado à Europa processos colonialistas que até então eram reservados aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos pretos de África.' (Discours sur le colonialisme, Paris, Présence Africaine, 1955, pp. 10-11)."

Bibliografia: M'Bokolo, Elikia. África Negra História e Civilizações Do Século XIX aos Nossos Dias . Edições Colibri, p. 330.

2 comentários:

Don Allan disse...

Muito legal estudar a histórica africana e verificar qual a relação entre esta e as potencias europeias..e se possivel ainda fazer um paralelo com o processo de colonização brasileiro.

Rodrigo Bonciani disse...

Estava procurando essa citação do Césaire e encontrei aqui, obrigado. A História é apaixonante mesmo, apesar de nos colocar frente a frente com o homem em sua crueza, Cronos devorando seus filhos.