quinta-feira, 7 de julho de 2011

O passado é sempre melhor que o presente?

Dando continuidade a minha vida cultural eu fui ao Shopping Eldorado para passear. Se eu tivesse dinheiro, também teria dado continuidade ao meu lado burguês e consumista. O shopping é bastante bonito e também é novidade para mim. Fui a passeio de namorado e ele me levou ao cinema. Assistimos "Meia-noite em Paris" e foi mais ou menos uma surpresinha porque não sabíamos absolutamente nada sobre ele, só uma indicação de uma amiga minha. Enfim, o filme é surpreendente. Ele conta a história de um escritor, protagonizado por Owen Wilson, que pensa que se vivesse nos anos 20 em Paris seria mais feliz. Ele poderia levar aquela vida boêmia ao lado de grandes intelectuais como Ernest Hemingway, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Scott Fitzgerald, etc. Até que, sem querer, ele viaja no tempo e vai parar onde ele tanto queria e acaba conhecendo todas estas figuras e tantas outras. Para sua surpresa, no entanto, ele conhece neste tempo paralelo uma garota belíssima que diz que os anos 20 são chatos, deprimentes e que adoraria ter vivido na Belle Èpoque. Uma noite, caminhando com ela por Paris, os dois viajam para Paris de 1890 e conhecem outros intelectuais da época, que também reclamam do tempo em que vivem e dizem que a verdadeira Golden Age foi a Renascença!

Durante este semestre um dos cursos que eu acompanhei foi História Moderna I. Por mais que tivéssemos percorridos temas diferentes referentes ao período, houve um que nos seguiu o curso inteiro e toda a documentação com a qual trabalhamos. Os homens do Renascimento buscavam a inspiração nos clássicos, o período medieval havia sido um tempo de obscurantismo que deformou os antigos e seus ensinamentos. Nunca houve uma cópia da Idade Antiga, mas este pulo de quase mil anos ao passado lhes dava uma concepção de tempo particular a eles, ao contrário da crença medieval de que o tempo era imutável. Eles se viam como agentes capazes de transformação. Buscava-se nos clássicos ensinamentos que lhes ajudassem a transformar a realidade presente em que viviam em algo melhor. Suas maiores referências são Xenofonte, Cícero, Platão e outros filósofos da Antiguidade.

Na nossa realidade, é comum vermos os desenhos e as brincadeiras das crianças de hoje e pensarmos que a nossa infância foi muito melhor. Por sua vez, nossos pais e avós nos dizem a mesma coisa! Outro erro comum é a ilusão de que "antigamente" não havia violência. Para o senso comum a violência é algo atual, como se nos anos 60 e 70 não houvesse uma violência escondida por quatro paredes; como se nos anos 40 também não houvesse violência dentro dos campos de concentração; como se na passagem do século XIX para o XX o cangaço não resolvia seus conflitos políticos por meio da força; ou então, voltando um pouco mais para trás, as famílias reais do Antigo Regime não se matavam por questão de poder. Definitivamente, matar pai, mãe e irmão não é um fenômeno atual. Poderia-se voltar muito mais atrás quando não existia direitos humanos ou mídia para divulgar a violência como nos faz o Datena; a violência no Coliseu era apreciada e os gladiadores aplaudidos. Ainda na Roma Antiga, quando os maridos chegavam depois de muito tempo em guerra e não reconheciam seus filhos, a criança era deixada dentro de um vaso no telhado da casa até morrer e, se a criança já era maiorzinha e o choro fosse incomodar, ela era deixada no meio da floresta. Por isso que não tem sentido nenhum dizer que antes as pessoas eram mais felizes porque a realidade não era tão violenta como é agora! O mundo sempre foi cruel, mas a violência se apresenta de maneiras diferentes de acordo com o tempo.

O passado, no entanto, para os homens de todas as épocas parece ser melhor. Está no nosso imaginário idealizado de que nossa realidade é ruim e que seríamos mais felizes se voltássemos no tempo ou que éramos mais felizes quando crianças. Talvez porque queremos lembrar só das coisas boas e esquecemos dos aspectos negativos que percorreram estas épocas. Estuda-se e admira-se épocas passadas porque a história é, entre outras coisas, uma fonte de curiosidades, por isso ela parece ser tão interessante. Os homens discutindo política nas Ágoras, os gladiadores lutando contra tigres, os francesas fazendo a revolução... Tudo parece ser muito belo enquanto se limita em imagens e palavras em livros.
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Eu mandei um email comentando sobre a minha ida ao cinema e observações que eu fiz sobre o filme para a minha professora de História Moderna. Achei tão linda a resposta dela que resolvi publicá-la aqui para eu não perdê-la na minha caixa de email!

Fico feliz por compartilhares essas especulações. Realmente, foi sendo
construída, ao longo dos séculos, principalmente após o homem ter
descoberto que costumes e hábitos são produtos históricos, uma certa
nostalgia em relação ao passado. O ontem aparece como modelo positivo
e melhor se comparado com o presente vivido. A questão central está no
fato de o "presente" ser percebido negativamente porque se está a
viver, a sentir na pela a pressão do estar vivo e na tensão das
decisões momentâneas. Se foi na antiguidade o início de tais
especulações, será na Época Moderna que elas terão aprofundamento
filosófico e, por sua vez, antropológicos e sociológicos. Vês como a
Época Moderna é fundamental? Nela se encontram todos os elementos da
argamassa que solidificou o edifício da História Contemporânea.

2 comentários:

Rafael Lobo disse...

ótima postagem, realmente as vezes eu penso que "nasci na época errada", mas daqui a algumas décadas eu vou estar falando para meus netos que "nos anos 10 sim o mundo era ótimo".

Não tem como a gente se esquecer do passado, mas a gente não pode deixá-lo no primeiro plano, e devemos aproveitar o presente e sempre olhar pra frente.

Fernando Maringo disse...

Concordo em 50% com teu texto, bem escrito, mas bastante otimista.

Tenho 43 anos, gosto da minha vida, com minha esposa e filha. Mas "não acho", sim, "tenho certeza" de que o passado - não estou me referindo apenas ao meu passado, mas ao passado da humanidade, foi muito melhor. Acho que desde que a humanidade existe, existe também a violência, as doenças, a falsidade, etc.

Mas todos os pontos que vc citou em seu texto sobre violência, por exemplo, são casos isolados que não refletiam o cenário todo.

Temos que viver o presente, pois é nosso melhor tempo, mas não consigo admitir que hj, não podemos sequer parar em um semáforo sem a preocupação de uma marginal nos dar um tiro, que comemos altas taxas de cancerígenos, sem percebermos, daí a alta nos casos de tumores em crianças, jovens e idosos.
Que todas estas classes ditas "minorias", vivem mto mais em desarmonia com outras classes do que outrora, mas acham que por ter mais espaço na mídia, nas avenidas, estão sendo tratadas com amor.

As brincadeiras de hj, para as crianças de hj, são bem vindas. O problema é o mundo em que estas brincadeiras ocorrem.Jogar bola até meia noite em um terreno baldio como eu fazia com amigos no inicio dos anos 80, no bairro do Bixiga em SP, sem o perigo de assaltos ou morte iminente, me parece mto melhor do que jogar playstation isolado dentro de um condomínio cheio de grades, a questão não é vídeo game ou a bola.

Acho que teu texto se preocupa mto com a peça, porém nosso problema são os palcos de hj em dia.

Abração,

Fernando Maringo