quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Retornando

Eu não esqueci o blog e nem o abandonei. Fui obrigada a deixá-lo um pouco de lado por causa da falta de tempo. Em uma das últimas aulas que tive, o professor de História Medieval estava falando sobre a matematização do tempo. Há duas concepções do tempo: uma simbólica, clerical, salvacionista, marcada por um início, um meio e um fim previsto(a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, o advento de Cristo e o fim, marcado pelo Apocalipse) e a quantitativa, que marca nossa visão de tempo ocidental.

Não era preciso marcar o tempo por minutos, horas, ou até mesmo dias. A contagem do tempo se dava pelas estações, pelo nascer e pôr do sol. Pelas estações, sabia-se quando era preciso plantar e colher; pelo sol sabia-se quando era a hora de se alimentar, dormir e acordar. O controle maior do tempo era controlado pela Igreja e, portanto, era ela quem dizia quando era as datas comemorativas ou os dias de descanso.

A movimentação monetária na Idade Média, após um tempo adormecida, além de facilitar as trocas, permitia uma circulação maior de bens e pessoas. Isso incentivou uma contagem mais precisa do tempo. Atualmente, na minha opinião, chegamos ao ponto máximo de contagem do tempo. Não é possível contar mais do que já contamos. Podemos perder o ônibus por 1 minuto. Podemos fazer uma viagem em 1 hora se saírmos de casa as 6h00 ou fazermos a mesma viagem em 2 horas se saírmos de casa as 6h15 - porque pegaremos trânsito (não vou entrar hoje na problemática do trânsito que São Paulo sofre vergonhosamente). Essas coisas eu sei, infelizmente, por experiência própria.

E nas competições? O vencedor é definido por questões de centésimos, milésimos de segundo. É uma contagem impossível para qualquer ser humano, que só pode ser feita através de equipamentos eletrônicos. A matematização do tempo é tanto, que é impossível contá-lo a "olhos nus".

Já foi-se o tempo em que o tempo era domínio da elite intelectual e era feita através dos astros. Com certeza era uma época mais saudável. Nós agora vivemos em função dos minutos que o ônibus sai, a espera de feriados, a contagem de dias que sai o pagamento, a horas que dedicamos ao trabalho, às leituras, ao lazer. É tudo contado, cronometrado. Fazemos planos para o ano a vir, para o dia seguinte. Não conseguimos pensar no presente, muito menos no futuro, sem contar o tempo. Não pensamos em nada a longo prazo. Prazo. Tudo é medido por prazos. 48 meses pagando o carro, 10 anos pagando uma casa própria, 60 dias de determinado software grátis, remédio a cada 6 horas, acordar as 6h, sair as 6h40, pegar o ônibus as 7h, chegar as 9h, comer a cada 3 horas...

A contagem do tempo tornou-se tão importante quanto a visão, a audição, a fala... É quase parte dos nossos sentidos. É tentador acreditar que quando contávamos menos o tempo, vivíamos mais.

Mas enfim, depois desse pequeno desabafo, acho que ficou claro porque abandonei o blog momentaneamente. Acho que a falta de tempo é tanta, que estou sem tempo até para pensar! Nem ideias tenho mais para o blog.

Comecei a estagiar no Arquivo do IEB e por isso estou sem tempo nenhum. Não é ele que consome a maior parte dos meus dias, mas sim o trânsito. Demoro mais para ir e voltar do que o tempo que dedico ao estágio. É incrível como São Paulo é uma merda em relação a locomoção de pessoas. Uma cidade tão grande e tão parada. A Berrini é uma avenida tão chique, com prédios luxuosos, carros importados, executivos de terno e gravata... Tudo isso para ser admirado, por que em horário de pico, fica-se 2 horas para atravessar uma avenida que, sem trânsito, seria atravessada em 20 minutos. Estou perdendo de 5 a 6 horas por dia (e em dias bons!!) para ir e voltar, sendo que o estágio é de 4 horas.

Mas para mudar de assunto e falar de alguma coisa boa, vou apresentar o IEB para os que não o conhecem. O Instituto de Estudos Brasileiros foi criado pelo Sérgio Buarque de Holanda a fim de reunir uma série de estudos interdisciplinares sobre o Brasil. Nele encontra-se o Arquivo do Instituto. Trata-se de um arquivo de fundos pessoais e nele estão guardados documentos de personagens importantes da intelectualidade brasileira, como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Mario de Andrade, Caio Prado Jr., entre outros.

Eu estou lá catalogando os diários políticos do Caio Prado, para depois o público pesquisador ter acesso à eles. Está sendo um trabalho muito legal, mas, confesso, por causa disso estou muito a par das eleições de 1946, do golpe de Getúlio Vargas e de todo o movimento político dos anos 30 e 40, do que as eleições atuais que estão prestes a acontecer.

Apesar do meu problema atual de tempo - ficar mais tempo no trânsito do que em casa dormindo-, o estágio está valendo muito a pena. Está sendo uma experiência maravilhosa.

Para os que se interessarem em saber mais sobre o acervo do arquivo do IEB, está aqui o site.

7 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Meus amigos estão cansados de escutar essa história, mas pra ti eu nunca contei... hehehehe

Certo dia, eu estava indo para o trabalho, atrasado, quando vi, perto da parada de ônibus, um cachorro, deitado na sombra, só se preocupando em respirar. Pensei em qual vida era melhor, a minha ou a dele. E me questionei se valeu a pena trocarmos boa parte de nossos instintos pelo "elogiadíssimo" raciocínio humano!

Muito interessante esse seu estágio! Graciliano, Rosa, Mário... riquíssimo, hein? [não conheço muito de Caio Prado Jr., mas como sei que você irá falar dele por aqui em breve... hehehehehe]

beijos

CA Ribeiro Neto disse...

Gi, temos uma nova participante do Blogs de Quinta:

Thayanne Freitas - http://sentimentoletrado.blogspot.com/

Adcione-a, por favor. Caso queira ver a lista atualizada, você pode encontrá-la na comunidade do Blogs de Quinta.

beijos

Thiago César disse...

nova integrante do Blogs de Quinta!

Thayanne Freitas
http://sentimentoletrado.blogspot.com

Thiago César disse...

bela reflexão!
o transito de fortaleza tah caminhando (perdoando o trocadilho) pra ficar q nem o transito de SP, infelizmente...
quanto ao tempo, eh incrivel como nos tornamos tao presos a uma coisa q nós mesmos inventamos...
=(

Paulo Henrique Passos disse...

"É tentador acreditar que quando contávamos menos o tempo, vivíamos mais." Muito interessante essa frase.

E quanto às concepções de tempo, havia ainda, se não me engano, a pagã, que via o tempo como um ciclo, mas isso foi antes da clericalização da cultura.

Alcir Martins disse...

Muito bom q vc tenha tempo de voltar ao blog, guria!
heheh

Alcir Martins disse...

Muito bom q vc tenha tempo de voltar ao blog, guria!
heheh