segunda-feira, 5 de julho de 2010

Migrantes e Literatura de Cordel

Dizem que todo trabalho
É digno e não é verdade
Cortar cana, quebrar pedra,
É uma barbaridade,
Trabalho que o homem faz
Por pura necessidade.

São milhões de brasileiros
Que tem vida sub-humana,
Os catadores de lixo
A pobre mulher mundana,
Os limpadores de fossas,
E os cortadores de cana.

Pessoas simples e honestas
Que vêem a vida passar
Por conseqüência da sorte
Não conseguiram estudar
Aceitam certos trabalhos
Para não se molestar.

Fazem cento e dezenove
Anos da abolição
Branco pobre, preto feio,
Que não tiveram instrução,
Terra, direito e escola,
Só pra filho de barão.

Nossa civilização
Ainda é escravocrata
Só vale neste Brasil
Quem tem grana, ouro ou prata,
Os ricos ladrões seqüestram
Os pobres o sistema mata

Com a globalização
O mundo rápido avançou
Trocam o homem por máquina
O emprego se acabou
A escravidão no Brasil
Apenas modernizou.

O Brasil do fome zero
Zero mesmo é a consciência
Os poderes corrompidos
Patrocinam a violência
Muitos brasileiros ainda
Não tem sua independência.

Existem patrões que acham
Que emprego é um favor
O emprego é um objeto
Que não tem nem um valor
Dentro do eito da cana
Substitui o trator.

Os homens sem instruções
São vistos como inconstantes
A necessidade obriga
Se tornarem imigrantes
Pra onde forem viram vítimas
Dos poderes dominantes.

Milhares de nordestinos
Deixam seus berços natais
Migram pra outros estados
Em busca de ideais
Muitos perdem a liberdade
Dentro dos canaviais.

Esta história é verdadeira
Inspirada em depoimentos
Dos cortadores de cana
Vivem em péssimos momentos
Obrigados pela fome
Viverem estes sofrimentos.

A fome muda o destino
De qualquer pessoa séria
A dor da fome é tão grande
Provoca angústia e miséria
Tem gente no desespero
Que vende a própria matéria.

O trabalhador do campo
Que cultiva agricultura
O chamado bóia-fria,
Vive uma escravatura
Sem expectativa de vida
Por falta de estrutura

Os usineiros da cana
Ostentam esta visão
Política do lucro fácil
Cultura da exploração
Um pensamento arcaico
Do tempo da escravidão.

Dentro do eito da cana
Usineiro explorador
Requisita homens simples
E assim o trabalhador
Na cutilada que dá
A fome supera a dor.

O desespero é quem gera
Esses dados negativos
Homens que deixam famílias
Pra viverem como cativos
Hoje são muitas viúvas
Com os seus maridos vivos.

Milhares de nordestinos
Vivem estes empecilhos
Num trabalho sub-escravo.
Seus olhos perderam os brilhos
Acorda, Brasil, acorda!
Para cuidar dos teus filhos.

Muitos deixam suas terras
Pensando em vida melhor
Mas na podada da cana
Derrama muito suor
Ficar na cana é ruim
Voltar pra terra é pior.

Quantos deixaram as famílias
Na esperança de vencer
Trabalhar, ganhar dinheiro,
Nada vêem acontecer
Dentro dos canaviais
Vêem seus sonhos morrer.
Na hora da despedida

Todos começam a chorar
Um chora porque não vai
E outro por não ficar
Adeus, adeus até quando!
O feitor da cana deixar.

Piauí e Maranhão
São os grandes exportadores
De cortadores de cana
Esses pobres sonhadores
Os governos fecham os olhos
Pra esses trabalhadores

O trabalhador no campo
É mais do que explorado
Dez toneladas por dia
Para manter registrado
Quem não atingir este teto
Já está desempregado.

Muitos nordestinos vivem
A triste realidade
Dentro do corte da cana
Muitos perdem a liberdade
E guardam dentro do peito
Tristeza, dor e saudade.

Dentro do eito da cana
Muitos são molestados
Contraem algumas doenças
Que lhes deixam mutilados
Terminam morrendo a míngua
Pelos patrões desprezados.

Quantos deixam suas terras
Com o sonho de vencer
Cada podada que dão
Vêem seu suor descer
Uma mistura de trabalho
Com exploração e sofrer.

O trabalho é sustentáculo
Em qualquer sociedade
O povo não quer esmola
Muito menos caridade
O trabalhador precisa
Só de oportunidade.

Os brasileiros são vítimas
Desses grupos estrangeiros
Dos patrões exploradores,
Industriais, usineiros,
Fazendeiros e Políticos.
Como sofrem os brasileiros.

Pedro Costa
[Repentista piauiense e membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel]
Fonte: http://www.pastoraldomigrante.org.br/

2 comentários:

Gabi disse...

Gi!
Mais uma vez um post muito bom!!
Achei bem legal como o repentista denuncia algo tão gritante através do cordel, da cultura popular. Esse tipo de manifestação é louvável, acho incrível!
"A escravidão no Brasil
Apenas modernizou."
Muito boa essa parte, tem tudo a ver com alguns autores que li nas aulas de Geografia do Manoel.
Apesar de eu não comentar muito, sempre passo aqui no seu blog para ver suas atualizações. Adoro seus textos!
Boas férias!!
Beijos da Gabi

Hermes disse...

O tema é bom, o cordel é mais ou menos. Acho que ele foi muito prolixo e exagerou em algumas coisas, como se tivesse apenas reproduzindo dados antigos, que já não são assim. Mas se o cara é da Academia né, alguma coisa ele tem, então acho que esse não é o melhor poema dele, mas o tema sempre é bom de se estudar. Valeu Gi.