sábado, 31 de julho de 2010

Breve histórico do trabalho no Brasil

Final de férias, tenho que voltar ao ritmo de antes. Para retomar esse ritmo "culto", publicarei hoje a última prova que realizei no semestre passado. O curso, que abordava sobre a história do trabalho no Brasil, pedia para a gente fazer um resumo do que vimos no curso inteiro, pendendo para o lado que tivéssemos dominado mais ao longo do semestre. Como já explicitei antes, o trabalho sobre os trabalhadores bóias-frias, me ajudou a pender para o lado do trabalho no campo e por isso o texto tem um cunho de denúncia sobre a distribuição de terras no Brasil. Sei que fui muito bem na prova, então não é qualquer coisa que estão lendo. No entanto, trata-se de um breve resumo, sem nada muito profundo.
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O trabalho no Brasil sofreu significativas mudanças, ao lado das transformações políticas, econômicas e sociais que o país sofreu ao longo de sua história. Foram três as fases que foram marcadas por características específicas das relações de trabalho: a escravidão no período colonial, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre e, finalmente, a nacionalização da força de trabalho na industrialização. Em nenhum momento, porém, uma fase negou completamente a outra; certas características das relações de trabalho na colônia se transformaram em feridas cujas cicatrizes são possíveis de serem vistas até hoje, principalmente no campo.

Caio Prado Jr., quando trata sobre o Brasil Colônia, vai dizer que a colonização aconteceu em torno de um sentido que, simplificadamente, era o de gerar riquezas e excedentes à metrópole. Neste contexto, o trabalho e o tráfico de escravos agiam como fatores determinantes para esse sentido ser possível. O trabalho escravo se tornou então, predominante no Brasil Colônia. O escravo negro foi uma conseqüência da lucratividade do tráfico e, por causa disso, a proteção jesuítica dos índios e a demanda pelo trabalho escravo indígena oscilava entre a oferta e a falta de mão de obra vinda da África.

O fato de o trabalho ser exercido quase que exclusivamente por negros, fazia o trabalho ser visto como algo degradante e, por isso, não havia gente que se disponibilizasse a trabalhar. Sérgio Buarque vai dizer ainda que o português que aqui chegava, vinha com o “espírito de aventura” e a busca de riqueza fácil e ascensão social, ou seja, “o que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas a riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho.”

Ainda neste contexto, vemos uma categoria social que se encontrava à margem e nada contribuía para o sentido da colonização: os desclassificados sociais. São aqueles homens livres que não trabalhavam porque o trabalho era degradante e também não eram donos de terras e, por isso, eram vadios que viviam a sombra de algum coronel, reafirmando o patriarcalismo da sociedade colonial.

No século XIX, o sistema escravista começa a entrar em crise por causa de uma série de fatores externos, entre eles a pressão vinda por parte da Inglaterra para o fim da escravidão e o fim do tráfico negreiro. Isso levou à falta de oferta de escravos e, consequentemente, o aumento do preço. O escravo estava muito caro e a lavoura cafeeira estava sendo obrigada a comprar escravos do Nordeste que, em decadência e sem um carro chefe para a economia regional, estava cada vez mais empobrecida em relação ao Vale do Paraíba e ao Oeste Paulista. Assim, contraditoriamente, a região mais pobre do país estava fazendo uso do trabalho livre por falta de escravos e, por causa disso, , sugerindo que acontecesse a Abolição; enquanto que a região mais pobre, estava fazendo uso de todos os meios para conversar o trabalho escravo.

No entanto, isso não possível. Com a Lei de Terras e a vinda dos imigrantes, a elite cafeeira conseguiu manter mão de obra disponível através de um sistema que não era nem servil e nem assalariado. O colonato, que foi a forma encontrada pelos cafeeiros de garantir mão de obra, era uma relação não capitalista em que o colono trabalhava nos cafezais e numa cultura de subsistência numa pequena parte da propriedade que lhe era cedida. O “salário” ao final da produção, portanto, não era o essencial e nem o fundamental para o colono.

Nesta fase a transição o que ocorreu foi a adaptação do trabalho livre ao regime servil. Por mais que houvesse uma remuneração simbólica ao final da produção, o colono era cativo da terra em que trabalhava, era visto como inferior em posição semelhante ao do negro escravo.

Enfim, a partir de 1930, com a industrialização, o Brasil passou a fazer uso da mão de obra nacional e categorias assalariadas como médicos, engenheiro e arquitetos passou a existir. No entanto, as cicatrizes ficaram. Ao trabalhador urbano foi feito a CLT e, através dos sindicatos estes trabalhadores sempre tiveram meios de reivindicar seus direitos. Por outro lado, a industrialização do Brasil aconteceu sem a companhia da reforma agrária. Assim, a partir de 1950, essa mão de obra expropriada do campo começou a enfrentar dificuldades para ser absorvida e isso tem gerado miséria tanto no campo quanto nas cidades.

O patriarcalismo, a elite fundiária atuando no cenário político, trabalhadores se submetendo à trabalhos análogos ao da escravidão, a existência de grandes latifúndios, o difícil acesso à terra, são ainda fatores que permeiam a realidade brasileira no século XXI.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Dois livros e um filme

Até terça-feira estava fazendo muito, mas muito frio aqui em São Paulo capital e região metropolitana. Então não havia muito o que fazer se não ficar embaixo das cobertas lendo. O problema é que o frio estava tanto que as mãos que ficavam fora do cobertor segurando o livro ficavam frias. Mas tudo bem, ainda bem que o tempo esquentou um pouco. Mas nesse interím, li dois livros e vi um filme que merecem um destaque nesse humilde blog de poucos leitores.

O primeiro dos livros foi A Metamorfose de Franz Kafka. Era um livro e um autor totalmente desconhecidos por mim, mas a leitura, rápida e intensa, fez eu me interessar por outras obras deste autor. Em A Metamorfose, o protagonista acorda na forma de um inseto. Porém, sua mudança foi apenas física, pois mentalmente ele continua com as mesmas preocupações em relação ao trabalho e sua família e totalmente consciente de sua condição, que apesar de dificultar seus movimentos, não se limita em continuar na cama. Tenta se levantar, se trocar e ter um dia normal. A mudança significativa, porém, vem da parte de sua família que, em sua nova forma, não o vêem mais como filho e irmão. A família o vê, simplesmente, como um animal asqueroso. Impossibilitado de se comunicar, o protagonista é mantido todo o tempo em seu quarto, longe dos olhos de todos e, progressivamente, esquecido e deixado de lado.

Não se trata de uma história complexa, com vários personagens, eventos, drama e mistério. Mas é uma narrativa que ao final ficamos perplexo, pensativos, como se tivéssemos sido golpeados no estômago. Se no começo, nós, leitores, assim como a família, sentimos nojo da sua aparência asquerosa e de suas patinhas que se mexiam compulsoriamente; do meio para o final, o que sentimos é pena. Dó. Muita dó.

O segundo livro foi Memórias Póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis. Era um livro que há muito tempo eu carregava o compromisso de ler. Depois de Dom Casmurro, Machado de Assis me encantou e meu namorado fazia uma super propaganda de Memórias Póstumas dizendo que era tão bom que achou melhor que Dom Casmurro. Enfim, não me decepcionei. MA-RA-VI-LHO-SO.

Tudo o que eu tinha ouvido falar antes sobre Memórias foi sobre o romance entre Brás Cubas e Marcela, então achava que todo o livro se resumia a isso. Mas não, o que Brás Cubas vive com Virgília é muitíssimo mais intenso. Além do mais, na primeira vez que fui ler o livro, as inúmeras referências a obras clássicas e suas metáforas, me desanimaram a continuar a leitura. No entanto, desta vez li tudo; compreendi muito bem a história, mas o livro inteiro não. Diria que uns 80% compreendi bem. As interrupções na narrativa também são muito bacanas, originais que não se encontram em nenhum outro lugar. Ás vezes, é verdade, parece que Machado está gozando da nossa cara, mas tudo bem, a leitura não se torna menos divertida por causa disso, pelo contrário, faz a gente se interessar ainda mais.

Já o filme eu assisti com meu namorado depois de ele ter insistido muito e até ameaçado a vê-lo sozinho. O filme é muitíssimo bom. Scarface foi feito nos anos 80 tendo Al Pacino como protagonista. Só um detalhe: depois de ter assistido O Poderoso Chefão II, Al Pacino se tornou um dos meus atores favoritos.O cenário é muito bacana! As roupas, as discotecas, tudo faz lembrar GTA Vice City. O que não é a toa, já que o jogo foi inspirado no filme; as semelhanças são tantas que chega até aos nomes dos personagens. Logo no começo Tony Montana, um "refugiado político" cubano em Miami sem visto, é cativante quando diz que mata um comunista por diversão e por um greencard o faz em pedaços. Depois disso, gradativamente, Tony Montana vai se envolvendo com o tráfico de drogas e tendo contatos com os poderosos do narcotráfico. Seu passado, mesmo em Cuba, já era de criminoso, mas ele usa, inapropriadamente, o termo "refugiado político". É um filme bom, ele também denuncia os políticos e policiais corruptos que se envolvem com o narcotráfico à base de propinas. Recomendo à todos - que não sejam comunistas e não sintam amizade por Fidel.

"Say hello to my little friend!"

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Alguns livros que marcaram

Os Blogs de Quinta me propuseram escolher de 3 a 7 livros que marcaram minha vida, listá-los e escrever um pequeno parágrafo sobre eles. Mas confesso: foi difícil, muito difícil, escolher apenas sete livros - mas tive que colocar mais um no final por consideração. É verdade que eu não li tantos livros assim em minha vida, mas já tenho uma continha razoável de obras que recomendo. Quando comecei a fazer uma pequena listinha dos livros que eu poderia comentar aqui, completei seis, mas ao ir na minha estante de livros: momento nostalgia ao lembrar de livros maravilhosos que eu li há 5, 6 anos atrás, que também foram maravilhosos, mas que o tempo me fez esquecê-los. Comentarei sobre 8 livros, mas foram 8 livros que eu me lembro com muito, mas muito carinho mesmo. Houve muitas outras obras cujas leituras foram também agradáveis e gostosas, mas que não marcaram tanto assim, no entanto merecem ser lembradas: O Xangô de Baker Street, O homem que matou Getúlio Vargas - ambos do Jô Soares -, Memórias de uma Gueixa, Gomorra, Morte e Vida Severina, Meu pé de laranja lima, Sagarana, O jogo do Anjo, O falecido Mattia Pascal, A metamorfose, A Revolução dos Bichos, O Pequeno Príncipe, O diário de Anne Frank, O Cortiço, Noite na Taverna, entre outros.

As Brumas de Avalon - Marion Zimmer Bradley
Sem dúvidas, esta foi a história que mais me marcou. Quando alguém me pergunta qual livro eu recomendo ou qual eu mais gostei, este é o primeiro que me vem a mente. Composto por 4 volumes, é impossível ler o primeiro e não querer ler o outro e devorar todos. A saga de Viviane, Morgana, Arthur, Lancelot e outros, nos faz refletir sobre política, história, guerras e religião. Dentro de todos os livros que li, foi neste que a figura feminina aparece forte e fundamental para a história, e faz qualquer leitora se sentir orgulhosa por ser mulher. Quanto à religião, a imagem que a autora faz da figura divina deveria ser uma orientação para todos os fanáticos religiosos. Antes de qualquer coisa, Marion Zimmer Bradley tenta nos ensinar a respeitar a diversidade religiosa.

O caso dos 10 negrinhos - Agatha Christie
Este eu li aos meus 12 anos. Li outros livros da Agatha Christie também, mas nenhum é tão bom quanto este. Ele é pequeníssimo, é possível lê-lo em dois dias, mas a sua história é encantadora. Não vou contar nem um pouco da história do livro, pois isso seria estragar um pouco da surpresa que a leitura nos traz, no entanto, posso dizer que durante a leitura, Agatha parece desafiar nossa inteligência.

Pollyanna e Pollyanna Moça - Eleanor H. Porter
Este eu também li aos meus 12, 13 anos. Eu estava de férias, afundada no sofá em frente à TV quando minha vó me trouxe estes dois livros, um continuação do outro, velhos, com aquele cheiro horrível e as páginas amareladas. Comecei a ler meio que obrigada, mas depois foi por pura diversão. Pollyanna é uma criança que, após perder seus pais e irmãos, é obrigada a mudar de cidade e ir morar com uma tia sua que não gosta de crianças e a despreza totalmente. No entanto, antes de morrer, seu pai que era pastor de uma igreja, lhe ensinara a sempre ver o lado positivo de tudo. Não importa o que acontecesse, tudo tem seu lado positivo e Pollyanna teria que ver esse lado e valorizá-lo mais que os infortúnios. Sim, isso irrita e muito. Até hoje eu tenho um pouco de raiva da Pollyanna por causa disso. Mas, era por essa razão, que Pollyanna era uma menina muito alegre, obediente e amiga de todo o bairro. Até o coração da sua tia, antes duro como pedra, ela consegue amolecer um pouco. É uma história infantil, mas me marcou de algum modo, porque lembro com muitas saudades do livro.

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiéviski
Sobre este livro comentei aqui mesmo no blog quando o li, que foi recentemente. Apesar de não haver muita ação, é impossível não se envolver nos pensamentos do protagonista Ródia e temer por ele.

Vidas Secas - Graciliano Ramos
Vidas Secas é um dos livros da literatura brasileira de que eu mais gosto. Foi um livro que li e reli, só para rever toda a análise das apostilas de cursinho para vestibular. Nas duas vezes, chorei com o fim de Baleia e com o sofrimento daquela família de retirantes, que não é tão fantasiosa assim. Foi Vidas Secas que fez me interessar pela vida no campo brasileiro e hoje estudo este tema.

Dom Casmurro - Machado de Assis
Este foi outro livro que li duas vezes. Mas foi na segunda leitura que percebi o quanto um livro, um conjunto de palavras é capaz de ser tão mágico, de nos levar a um mundo tão surreal, nos deixar tão em dúvida e tão maravilhados ao mesmo tempo. Para mim Machado de Assis não foi só um escritor, foi um mágico, que através das palavras brinca com a nossa curiosidade, bom senso e inteligência também, por que não? Como é possível criar este mistério de "traía ou não traía", instigar milhares de leitores, especialistas, e nenhum chegar a uma conclusão? Para mim isso é mágico.

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón
Este foi outro livro que li recentemente e que também comentei aqui no blog. Aqui sim há muita ação e o mistério é tão eletrizante quanto os mistérios que li há 7 anos no clássico O caso dos 10 negrinhos.

Harry Potter - J. K. Rowling
Fui obrigada a colocar Harry Potter nesta lista. A literatura não pode ser das melhores, pode ser um livro horrível - segundo alguns, mas dos meus 11 aos meus 12 anos, foi Harry Potter que me mostrou o quanto é possível se divertir, rir e chorar nas páginas de um livro. Li os 4 primeiros de uma vez só, em menos de 15 dias, e eu nunca havia lido nada antes. Após isso, esperei com ansiedade o 5°, li, mas me decepcionei com a história. Depois disso, a demora dos lançamentos, o crescente amadurecimento das minhas leituras, fizeram os 6° e o 7° livros serem chatos e maçantes. No entanto, devo muito consideração aos livros do Harry Potter, foram por causa deles que hoje eu gosto tanto de ler.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Falecido Mattia Pascal

Como de costume, vou escrever um pouco sobre a história e minha impressão do último livro que li. Este foi mais um dos livros, assim como Crime e Castigo, que na falta do que fazer e assistir na TV, foi escolhido aleatoriamente para me distrair um pouco. Assim como a obra de Dostoiéviski, a obra de Pirandello me prendeu do início a fim. E só depois de ter lido e me fascinado, fui pesquisar a vida do autor e descobri a sua importância na literatura mundial, sendo, inclusive, um ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1934.

Engraçadíssima, a história se passa, salvo às viagens pela Europa do nosso querido protagonista Mattia Pascal, na Itália. Parte na cidade de Miragno e parte na conhecida cidade de Roma. Mattia Pascal é um homem inteligente, porém gostava da boa vida e, quando todo o dinheiro que herdara do seu pai foi roubado pelo administrador de seus bens, ele se viu como um homem pobre, sem ofício e sem perspectivas.

Uma das partes mais interessantes do livro é na qual Mattia faz das tripas coração para se casar com quem queria. Neste acontecimento, temos cinco personagens: Mattia; Romilda, a mulher com quem Mattia queria se casar; a viúva Pescatore, futura sogra de Mattia e mãe de Romilda; Malagna, o ladrão e administrador dos bens da família de Mattia e, finalmente, Oliva, amiga de infância de Mattia e esposa de Malagna. Malagna era estéril, porém seu maior sonho era ter um filho. Oliva era sua segunda esposa, e assim como a primeira, não conseguia engravidar. Assim, Romilda que já tinha um caso com Mattia engravidou e, convencida pela sua mãe, foi pedir ajuda para Malagna, que era rico, diga-se por passagem, para assumir a paternidade de seu filho. Convencido, Malagna disse para sua mulher, Oliva, que a culpa era dela pelo fato de não engravidar e que ele não era estéril, por isso, Romilda estava grávida dele e seria com ela com quem ele iria ficar. Então Mattia, inteligente como é, engravidou rapidamente Oliva, que voltou para Malagna dizendo que já estava grávida quando foi expulsa e exigia que assumisse a paternidade do seu filho agora, supostamente, verdadeiro. Resumo da história: com a sua mulher grávida, Malagna voltou para Oliva e Romilda, grávida e sem marido, casou-se com o verdadeiro pai de seu filho, Mattia.

Isso é narrado logo no começo da história, e as coisas mudam radicalmente. Mattia, como ele mesmo diz na primeira página, é um homem que morrera duas vezes. Assim, rodeado por infortúnios, sua sogra insuportável, sua mulher infeliz, pobre, ele decide fugir por uns tempos e, sem querer, acaba ficando rico na jogatina. As mortes sofridas por Mattia estão longe de serem físicas. Depois de ter enriquecido na jogatina, decide voltar para casa e jogar na cara de sua mulher e sogra todo o dinheiro que ganhara. Porém, no trem, pega um jornal para ler as notícias durante a viagem, mas acaba lendo o informe de que seu corpo fora encontrado depois de ter cometido suicídio.

Mattia então, se vê na oportunidade de não precisar mais voltar para sua mísera vida em Miragno, cheio de novas chances e, rico, ele decide assumir uma nova identidade e viver uma nova vida. A partir daí, o livro fica mais denso. A solidão do protagonista, a impossibilidade de se fixar em algum lugar ou de ter uma amizade sincera, leva-o a questionar se sua morte realmente valera a pena.

É um livro muito gostoso de ler, recomendadíssimo à quem gosta de dar risadas lendo e para quem gosta de se questionar sobre o que é identidade. Quanto Mattia morreu e assumiu uma nova identidade – um novo nome, uma nova história, seus problemas não foram resolvidos, apenas a eles se acrescentaram outros, de natureza ainda maior.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Migrantes e Literatura de Cordel

Dizem que todo trabalho
É digno e não é verdade
Cortar cana, quebrar pedra,
É uma barbaridade,
Trabalho que o homem faz
Por pura necessidade.

São milhões de brasileiros
Que tem vida sub-humana,
Os catadores de lixo
A pobre mulher mundana,
Os limpadores de fossas,
E os cortadores de cana.

Pessoas simples e honestas
Que vêem a vida passar
Por conseqüência da sorte
Não conseguiram estudar
Aceitam certos trabalhos
Para não se molestar.

Fazem cento e dezenove
Anos da abolição
Branco pobre, preto feio,
Que não tiveram instrução,
Terra, direito e escola,
Só pra filho de barão.

Nossa civilização
Ainda é escravocrata
Só vale neste Brasil
Quem tem grana, ouro ou prata,
Os ricos ladrões seqüestram
Os pobres o sistema mata

Com a globalização
O mundo rápido avançou
Trocam o homem por máquina
O emprego se acabou
A escravidão no Brasil
Apenas modernizou.

O Brasil do fome zero
Zero mesmo é a consciência
Os poderes corrompidos
Patrocinam a violência
Muitos brasileiros ainda
Não tem sua independência.

Existem patrões que acham
Que emprego é um favor
O emprego é um objeto
Que não tem nem um valor
Dentro do eito da cana
Substitui o trator.

Os homens sem instruções
São vistos como inconstantes
A necessidade obriga
Se tornarem imigrantes
Pra onde forem viram vítimas
Dos poderes dominantes.

Milhares de nordestinos
Deixam seus berços natais
Migram pra outros estados
Em busca de ideais
Muitos perdem a liberdade
Dentro dos canaviais.

Esta história é verdadeira
Inspirada em depoimentos
Dos cortadores de cana
Vivem em péssimos momentos
Obrigados pela fome
Viverem estes sofrimentos.

A fome muda o destino
De qualquer pessoa séria
A dor da fome é tão grande
Provoca angústia e miséria
Tem gente no desespero
Que vende a própria matéria.

O trabalhador do campo
Que cultiva agricultura
O chamado bóia-fria,
Vive uma escravatura
Sem expectativa de vida
Por falta de estrutura

Os usineiros da cana
Ostentam esta visão
Política do lucro fácil
Cultura da exploração
Um pensamento arcaico
Do tempo da escravidão.

Dentro do eito da cana
Usineiro explorador
Requisita homens simples
E assim o trabalhador
Na cutilada que dá
A fome supera a dor.

O desespero é quem gera
Esses dados negativos
Homens que deixam famílias
Pra viverem como cativos
Hoje são muitas viúvas
Com os seus maridos vivos.

Milhares de nordestinos
Vivem estes empecilhos
Num trabalho sub-escravo.
Seus olhos perderam os brilhos
Acorda, Brasil, acorda!
Para cuidar dos teus filhos.

Muitos deixam suas terras
Pensando em vida melhor
Mas na podada da cana
Derrama muito suor
Ficar na cana é ruim
Voltar pra terra é pior.

Quantos deixaram as famílias
Na esperança de vencer
Trabalhar, ganhar dinheiro,
Nada vêem acontecer
Dentro dos canaviais
Vêem seus sonhos morrer.
Na hora da despedida

Todos começam a chorar
Um chora porque não vai
E outro por não ficar
Adeus, adeus até quando!
O feitor da cana deixar.

Piauí e Maranhão
São os grandes exportadores
De cortadores de cana
Esses pobres sonhadores
Os governos fecham os olhos
Pra esses trabalhadores

O trabalhador no campo
É mais do que explorado
Dez toneladas por dia
Para manter registrado
Quem não atingir este teto
Já está desempregado.

Muitos nordestinos vivem
A triste realidade
Dentro do corte da cana
Muitos perdem a liberdade
E guardam dentro do peito
Tristeza, dor e saudade.

Dentro do eito da cana
Muitos são molestados
Contraem algumas doenças
Que lhes deixam mutilados
Terminam morrendo a míngua
Pelos patrões desprezados.

Quantos deixam suas terras
Com o sonho de vencer
Cada podada que dão
Vêem seu suor descer
Uma mistura de trabalho
Com exploração e sofrer.

O trabalho é sustentáculo
Em qualquer sociedade
O povo não quer esmola
Muito menos caridade
O trabalhador precisa
Só de oportunidade.

Os brasileiros são vítimas
Desses grupos estrangeiros
Dos patrões exploradores,
Industriais, usineiros,
Fazendeiros e Políticos.
Como sofrem os brasileiros.

Pedro Costa
[Repentista piauiense e membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel]
Fonte: http://www.pastoraldomigrante.org.br/