quarta-feira, 30 de junho de 2010

Aos 12 anos de idade eu já lia...

Eu tinha escrito pouca coisa sobre esse post, mas repensei e percebi que essa tirinha dispensa qualquer comentário.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O papel da arqueologia nos debates sobre a etnogênese

Hoje eu tive prova de História Medieval. Tudo bem se não fosse pelo fato da pergunta ter sido cretina. Para respondê-la não foi preciso nenhuma bibliografia do curso inteiro, nem ter presenciado todas as aulas, ou ao menos ter estudado as provas do ano passado ou a que a turma da noite fez ontem. A pergunta foi baseada numa única aula e não era possível mobilizar nenhum texto do curso inteiro. Eu me decepcionei. Estudei para uma prova milhares de vezes mais difícil. Consultei e fichei umas 500 páginas ao longo do semestre. Saberia dominar qualquer pergunta sobre o papel da arqueologia nos estudos acerca da Idade Média, no caráter identitário e os problema causados por isso acerca da Alta Idade Média, na história econômica sobre o Grande Domínio, sobre a mutação feudal... Enfim, tudo isso. Mas caiu o problema das heresias do ano 1000. Uma questão discutida em apenas uma aula sem ajuda bibliográfica. Tudo bem, valeu meu esforço... Acho que aprendi algumas coisas sobre Alta Idade Média.

Para valer pelo menos alguma coisa todo o trabalho que tive, vou publicar hoje a resposta de uma das perguntas da prova do ano passado que desenvolvi como forma de estudo. A questão pedia para discursar sobre o papel da Arqueologia nos debates acerca da etnogênese. Mais uma vez, como na outra prova sobre a Mesopotâmia que coloquei aqui, o leitor poderá entender muito bem sobre o tema, só ficará um pouco "de fora" quando eu comentar os nomes dos autores da bibliografia utilizada.
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A Alta Idade Média é uma conotação ambígua, ela serve tanto para definir uma marcação cronológica que vai do século V ao século X, quanto uma construção historiográfica usada como base do discurso identitário da Europa. Assim, o estudo acerca da Alta Idade Média se constitui num importante fator para a formação ideológica das origens das nações européias e da constituição cultural e identitária de seus respectivos povos. O fim do Baixo Império Romano, as invasões bárbaras e as transformações políticas, econômicas e culturais oriundas deste processo são vistos, sob perspectivas diversas, como a gênese dos Estados-nações europeus.

Neste contexto, surgiu o problema das identidades. Patrick Geary, em “O mito das Nações”, aponta como o nacionalismo contribuiu para os historiadores enxergarem a diferença entre romanos e bárbaros como uma oposição entre “nós e eles”, entre “civilizados e bárbaros”, contribuindo para que estes últimos fossem vistos como um bloco homogêneo, ignorando toda uma diversidade destes povos. Em “Some remarks on ethinicity in Medieval arqueology”, Florin Curta também denuncia esse caráter simplista de definição quando diz que o antropólogo Barth e seus seguidores tinham uma perspectiva de comportamento social e individual baseado na visão “eu versus eles” e que a historiografia foi marcada pelo anacronismo, pois usavam o termo étnico como uma construção moderna e não como uma categoria medieval.

O trabalho de F. Curta contribui bastante para entender o papel da arqueologia neste debate acerca da etnogênese, pois ele faz um apanhado sobre o que já foi discutido sobre o tema e sobre os problemas metodológicos possíveis sobre isso. Como ele mesmo fala, pelo fato de as fontes arqueológicas serem artefatos, eles não foram feitos para carregarem uma certa representação do passado, mas para responder questões econômicas e sociais. Assim, nós encontramos uma série de problemas que a arqueologia não consegue satisfazer sozinha, sem o complemento historiográfico que faz uso da linguagem e da escrita. Como por exemplo, o caso dos Gépidas e Lombardos, dois grupos que mantinham relações de trocas e não se distinguiam uns dos outros através da cultura material – para eles nenhum objeto possuía valor étnico. As coisas mudaram quando as guerras contribuíram para consolidar estilos específicos de vestimenta entre eles. No entanto, distintivos característicos, como acessórios e vestimentas, não distinguem somente uma etnia da outra, elas podem indicar outras formas de identidade social, como gênero, idade ou classe.

Há outros exemplos na arqueologia funerária. Alguns objetos encontrados com os cadáveres que remetem a determinados grupos étnicos, como os francos ou os romanos, não significam que os indivíduos tenham realmente pertencido essa origem. Pode se tratar de um distintivo, por exemplo, em moda na época. É aquela história de que uma camisa vermelha com o desenho de uma foice e um martelo, não faz do homem que a veste um comunista.

Sob esse contexto, o arqueólogo Brather recomenda que os arqueólogos abandonem qualquer pesquisa sobre a etnogênese, porque não há fontes escritas que decifrem os significados dos símbolos que marcam o limite uma determinada etnia. Além disso, este estudo corre o risco de ser contaminado por preocupações étnicas atuais. O mito de que há congruência entre os povos da Alta Idade Média e os contemporâneos, levaram o estudo da cultura material aos padrões sugeridos pelas línguas, mas isso não deu certo, e agora é P. Geary quem diz que “artefatos não são um parâmetro seguro para a distinção das etnias”. Com ele, também concorda E. Pöhl, que diz que as culturas arqueológicas e os grupos étnicos coincidem muito pouco e que “não se pode confundir fronteiras políticas, territórios étnicos, grupos lingüísticos e áreas de uma certa cultura material, pois não necessariamente teriam a mesma extensão.”

Apesar de todos esses problemas metodológicos, F. Curta ilumina o papel da arqueologia no estudo sobre etnogênese: a cultura material assume um papel similar ao de um “texto que deve ser lido”, pois é necessário analisar e compreender contextos maiores em que é produzida para ser possível entender os significados destes objetos.

O que parece ser ponto comum entre os autores sugeridos pelo curso, é a ineficiência da arqueologia, sozinha, responder as questões sobre a etnogênese, e que este é um assunto bastante “contaminado” pelo nacionalismo contemporâneo. Parece ser possível estudar as etnias entre os séculos V e X, através da interdisciplinaridade entre história e arqueologia, sem cometer erros anacrônicos e sem a confiança de que os limites entre os territórios étnicos, as fronteiras políticas e os grupos lingüísticos coincidem geograficamente, como alerta Pöhl.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

As férias anuais de três meses

Ano passado, no meu primeiro ano de faculdade, acompanhei a greve que aconteceu na USP aqui no meu blog. Foi um evento que me deixou muitíssimo chateada. A greve começou com os funcionários, que reivindicavam aumento salarial e a volta do funcionário Brandão que foi despedido sob a acusação, entre outras coisas, de assédio sexual. Na versão dos funcionários, o pobre Brandão era perseguido político (!?) dentro da universidade.

Do começo ao meio do semestre os alunos também estavam propensos a declarar greve e fizeram inúmeras paralisações que prejudicaram muitas aulas. Eles apoiavam a volta do Brandão, (afinal, se não ele, quem iria consertar os aparelhos de ar-condicionado?) e eram também contra a UNIVESP. Não vou expor aqui minha posição sobre o assunto porque não é o objetivo deste meu post, mas digo que desde o início sempre me coloquei contra a posição do Movimento Estudantil.

Resultado: sem biblioteca, sem Restaurante Universitário ( bandejão), sem nem ao menos a Sessão de Alunos para carimbar a frequência do ônibus para o pagamento de meia passagem. Eu cheguei a uma conclusão que esse ano só se confirmou: a USP não serve para gente pobre, só estudante rico e não é culpa da Universidade, mas sim das greves que privam os alunos mais carentes de qualquer benefício. É impossível almoçar e jantar na região do Butantã a um preço acessível ou ter acesso à livros que não tem em nenhum outro lugar.

Depois de um tempo, a reitoria chamou a PM para evitar que houvesse a invasão do prédio da reitoria. Sabe, os reivindicalistas da USP - tanto alunos como funcionários - têm um meio um tanto violento de resolver as coisas. Um jeitinho meio vandalizado, se você me entende. Mas, com isso, os alunos entraram definitivamente de greve e os professores também. Só uma ressalva: falar em "professores" e "alunos" é meio genérico, é melhor dizer: "alunos e professores da FFLCH" (por meios autoritários, é verdade, mas entraram), porque o resto da Universidade funcionou normalmente sem nenhum problema.

Esse ano, se não fosse possível ficar pior... Ficou. Os professores da USP - que recebem menos do que receberiam lá fora, e isso é fato (os melhores professores a gente perde ou para outros ofícios ou para outras universidade) - receberam um aumento no salário. Os funcionários, que já recebem muito mais que os demais funcionários lá de fora e ainda fazem uso de inúmeros benefícios da universidade juntamente com os estudantes, antes mesmo da reunião marcada para a negociação do aumento do salário deles, entraram de greve novamente.

Gente, uma breve retrospectiva de 2006 para cá.
2006 - Greve da Copa que acabou exatamente dois dias depois do fim da Copa
2007 - Greve contra as sanções do Serra - na minha opinião a única greve de motivos legítimos, apesar dos meios não tão legítimos assim
2008 - ok
2009 - Greve que eu comentei acima
2010 - Greve de novo!!
Não é a toa que dizem que os funcionários da USP têm três meses de férias por ano, sendo dois deles por greve.

Mas esse ano os atos de violência e vandalismo estão passando do limite. No início do ano tudo começou com a invasão da COSEAS. A COSEAS é um "setor" da USP responsável pelo auxílio dos estudantes: desde as bolsas moradia, os bandejões até os passe dos ônibus. Revoltados pela falta de lugar no CRUSP (Conjunto Residencial da USP) - que sofre de inúmeras irregularidades, mas isso não vem ao caso - alguns alunos invadiram o prédio do COSEAS, onde tinha guardado todos os documentos dos alunos que pediram auxílio, inclusive os meus. Mexeram nos documentos, tiveram acesso a informações sigilosas. Como eu sei disso? Ligaram aqui na minha casa! Bom, ainda estão lá, devolveram parte dos documentos jogados em sacolas - um dos motivos pelos quais ainda não saíram as bolsas de auxílio para os estudantes - e parte dos computadores e impressoras.

Depois disso os funcionários entraram em greve. Fizeram piquete no bandejão terceirizado para ele não abrir e, recentemente, invadiram o prédio da reitoria. Quebraram tudo e estão acampando lá. Mas no jogo do Brasil, improvisaram um telão para todos assistirem o jogo e, como é de praxe já, fizeram o churrasquinho deles.

Diante dessa palhaçada de greve todo ano, o reitor, diante de meios legais, não realizou o pagamento dos dias parados para cerca de 1600 funcionários. E então, para protestar, os funcionários nesta manhã fizeram piquete na entrada principal da universidade, impedindo estudantes e outros funcionários de entrar. Isso complicou mais ainda o trânsito e fez muitos alunos perderem provas e trabalhos.

A USP as vezes parece estar abandonada à própria sorte. Dizem as más línguas que hoje o Brandão trabalha para o sindicato recebendo 3000 reais por mês. Se isso é verdade ou não, eu não sei, mas lá da Universidade ele não sai e até hoje, mesmo não sendo mais funcionário, atua como líder sindical - dos funcionários.

Até hoje eu me mantive o mais longe que pude dessa falta de vergonha que acontece lá dentro para não desanimar, porque fora tudo isso, a faculdade me encanta. O SINTUSP mancha a legitimidade das greves, cospe em sindicatos sérios e faz de um dos maiores direitos trabalhistas brincadeira de gente desocupada. Antes que alguém pense que sou contra o movimento grevista e os sindicatos, digo que sou totalmente a favor. Meu pai já teve muitos benefícios graças ao sindicato. Mas o Sintusp já deixou de ser um sindicato para ser uma organização criminosa. Nas fotos da invasão da reitoria, funcionários e alunos que apoiam a causa dos funcionários tamparam o rosto para não serem identificados!! Para mim assumiram a própria criminalidade com esse gesto.