quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ex ou incluídos?

O que você pensa sobre exclusão social? José de Souza Martins, em seu livro "Exclusão social e a nova desigualdade", composto por alguns artigos e entrevistas, vai tratar muito bem sobre o tema que envolve, direta ou indiretamente, a reforma agrária. O meu maior desafio em estudar a questão agrária brasileira e se deparar com tantos relatos que as vezes dá vontade de chorar, é enfrentar o senso comum sobre o assunto. Ontem n' A Grande Família, eles fizeram uma paródia bem humorada sobre isso, quando a comunidade do nosso querido Agostinho se junta para expulsar os "sem-caráter", os sem-tetos que estavam ocupando o salão de beleza onde Bebel trabalha.

Enfim, voltando ao assunto, para José de Souza Martins não existe exclusão social. Na nossa sociedade capitalista, incrementada com alguns aspectos patriarcais do nosso passado colonial, o excluído é o morto. E mesmo embaixo da terra, sua exclusão só acontece depois de um longo período burocrático. Os excluídos estão na verdade incluídos na nossa sociedade. A diferença é que eles não encontraram uma forma "digna" de se incluir e, por isso, se excluem moralmente, mas economicamente estão tão incluídos como todos os outros.

Martins tem seus exemplos, eu tenho o meu. O bóia-fria está incluído em todo o processo capitalista da indústria açucareira. Porém, isso foi o que lhe restou. Trabalhador do campo, expropriado de sua terra, falta de oportunidade na cidade que, abarrotada de gente, não consegue absorver mais essa mão-de-obra expropriada. O que lhe resta é esse tipo de trabalho sazonal, análogo ao trabalho escravo, que não respeita leis trabalhistas e oferece sérios riscos à saúde e degrada o ser humano.

Insisto em dizer que não é opção de ninguém morrer de cãibra no meio dos canaviais ou invadir o salão de beleza para ter um teto. São pessoas que estão totalmente incluídos, consumindo e contribuindo para uma acumulação racional do capital, mas que, por falta de lugar na sociedade, se colocam à margem aceitando qualquer meio que lhe garanta a sobrevivência.

8 comentários:

Hermes disse...

Não é que falta lugar na sociedade, mas como você falou falta o lugar que vai dignificar aquela pessoa. No geral, os moradores de rua não gostam de morar na rua, e ninguém deve gostar de trabalhar várias horas por dia em um trabalho físico exaustivo que não tem nenhuma possibilidade de descanso, nem com anos de trabalho. Eu não li esse livro do José de Sousa Martins, nem o conheço, mas em sua análise ele usou apenas o capital, como você deixa parecer, ou seja, não existe excluídos capitalmente. Pois todos têm alguma renda para consumir e fazer produzir novamente. Se para esse pesquisador ser incluído na sociedade é ter uma certa quantia de dinheiro, seja ela qual for, então deve deve estar certo sim. Falando do Brasil, todo mundo tem algo para gastar. Deve ser uma boa leitura esse livro, mas nunca vista como uma análise completa da inclusão/exclusão social, tendo em vista que leva em conta o capital.E veja bem, só porque nossa sociedade é capitalista isso não é motivo para achar que o dinheiro é a única forma que inclui e exclui as pessoas.




Só destacando mais um ponto, sobre o morto. Que ele é o excluído, ehaueahe. Eu fiz um trabalho sobre Ritos Funerários em Fortaleza. E em minha pesquisa de campo vi um velório. É incrível, a esposa ou irmã,estava mais preocupada em transferir o corpo para o interior, que é de onde ele seria, do que chorar o morto. Ela estava com preocupações burocráticas, e não sentimentais em primeira mão. Em segunda mão poderia ser sentimental: tem que enterrar bem, onde ele nasceu. Só assim para descansar em paz.
Acho que falei muito. D:

CA Ribeiro Neto disse...

Gi, eu não concordo com o homi aí não. É verdade que os ditos excluídos não estão isolados da sociedade. Até um escravo faz parte, porque ele pode não comprar nada, mas certamente produzirá lixo, por exemplo. Então, até o lixo de quem não consome tem que ser recolhido.

Então, seria impossível ter uma pessoa excluída, sendo ela imersa numa sociedade. Então, onde está o meu desacordo? Essas pessoas são excluídas de um trabalho digno, de uma assistência médica de qualidade, de educação que os possibilite uma condição de vida melhor, de moradia, o que o fazem invadir até salão de cabeleireiros.

Então, não é o fato de ter alguma ligação com a sociedade que os tornam incluídos. Eles são excluídos diante de tal ótica, o que podem ser incluídos em outra.

Eu sou excluído da ótica do jazz, num sei nada, mas de samba eu sou incluído: só um exemplo de grosso modo.

beijos

Marcília Sousa disse...

As opiniões quanto as questões sociais geralmente são divergente, pois cada pessoa acaba vendo por uma esfera diferente. Quando penso em exclusão social me vem logo na cabeça os moradores de rua, os negros, os indios, até mesmo as mulheres e não muito distante esses "escravos" do capitalismo, mas até então ainda não tinha pensado pelo lado capitalista, o que torna todos esse citados a cima incluidos na sociedade.
Acredito que a inclusão vá muito além do capital porque essas pessoas precisam de alguma forma sobreviver e ganhar algum dinheiro, porém, qualquer tipo de assistência para tornar a vida desses individuos digna, lhes são negadas.
No meu ponto de vista, existe sim, uma gritante exclusão social!!

Beijos!!

Alcir Martins disse...

Não conheço a obra nem a análise do autor, mas pelo que pude ver ele trabalha com a hipótese, verdadeira para mim, de que a exclusão social e o contingente marginalizado pelo capitalismo são parte inerente do sistema. Desta forma, não há "aceitação" ou "acomodação" frente a isso; mas a denúncia da injustiça que é"natural" (ou "naturalizada") no processo de exploração e expropriação da vida, da força de trabalho...
O próprio desemprego, chavão do período eleitoral, no sistema capitalista não é um acidente, algo que eventualmente se alargue e se contraia; ele é um elemento constituinte das relações capitalistas, uma variável de ajuste inerente ao sistema.

Emily disse...

Se ele tá à margem, não tá incluído. Essa não é a definição de exclusão? Não precisa ser exclusão completa, oxi. Uma pessoa que tá querendo entrar num ônibus lotado mas não sai nem da porta, tá excluída, não tem espaço pra ela.
Ah, sou a guria nova do blogs de quinta.

Thiago César disse...

analise interessante...

Don Allan disse...

Vendo pelo lado Microeconomico, concordo com o escrito.


O boia fria , por exemplo, está na melhor condiçao possivel no ramo de opçoes existente, pois cada um deles sabe o que é melhor para si. Nao que eles queiram ser pobres, longe disso, mas antes boa-fria do que morrer de fome. A logica capitalista os excluem do consumo exacerbado ou até mesmo do consumo de subsistencia, mas como dito, eles produzem lixo, consomem o minimo, mas consomem..até o mendigo tem esta relaçao, pois a mendicância gera uma renda que é transformada em demanda. Demanda minima ? Sim, mas existente.

E é impossivel dizer que alguém está a margem da sociedade. Negar isso é negar a existencia da figura do mendigo na sociedade. Pode-se contestar a importancia dele para uma sociedade capitalista, mas nao a existencia.

Don Allan disse...

E também eles estão incluidos na lógica capitalista, pois esta diz que é impossivel viver sem vender sua fator de trabalho de alguma forma. Eles sao a prova disso...caso contrário, estariam muito bem, ganhando a subsistencia socialmente aceitavel, sem trabalhar...