sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um novo estilo de piercing

Essa semana ficou famosa a foto de um toureiro na Espanha que, durante a tourada, sofreu um sério ferimento. O chifre do touro entrou pela sua garganta e saiu pela boca. A imagem é chocante, confesso. Mas vi até brincadeiras com isso, chamando o acidente de um novo estilo de piercing. É importante dizer também, como estava o touro na foto. Todo mundo fala da vítima, mas o touro era outra vítima. Estava sangrando e também sofria com sérios ferimentos.

No dia em que eu vi a matéria, o toureiro não tinha morrido, mas estava com sérios problemas. Na minha opinião ele deveria ter morrido para a garantia de que ele nunca iria fazer mais isso. É ingenuidade achar que com a morte de um toureiro as touradas terminariam, mas pelo menos é um sádico doentio a menos no planeta.

Vi gente defender o toureiro com vários argumentos: de que é uma cultura muito antiga na Espanha ou que, como ser humano, ele deve ter mais piedade por nossa parte do que um mero touro, porque se fosse nosso pai ou algum outro parente nosso não estaríamos torcendo pelo animal irracional; ainda há gente que diz que é hipocrisia ser contra as touradas e comer carne. Pois bem, não acho que qualquer cultura, por mais antiga que seja, justifica práticas de sadismo. Há uma enorme diferença entre matar para comer e matar para se divertir depois de torturar o pobre animal. Tenho a mesma opinião não só sobre toureiros, mas qualquer outro imbecil que judia dos animais de outras maneiras, seja maltratando ou estimulando brigas entre cachorros, galos.. É ridículo. Eu já sinto vontade de matar gente que judia de cachorros, mantendo-o preso, sem alimentação, sem carinho ou batendo. Por que num touro pode?

É essa falsa noção do ser humano de se achar superior a todos. Isso só mostra o quão são inferiores. É esse egocentrismo que cria cachorros violentos, animais em extinção, milhares de filhotes de animais silvestres mortos em tráfico ilegal, e acidentes em touradas. O toureiro não é um coitado, ele foi lá para se divertir e divertir uma plateia inteiramente sádica, sabendo muito bem dos riscos que corria ao enfrentar um animal de mais de uma tonelada.

Minha revolta contra essas pessoas se canaliza numa esperança: que, se existe reencarnação, o traficante ilegal renasça num ninho de araras e morra sufocado dentro de um cano de PVC; o idiota que mantém um cachorro preso e ignorado, sofra dos mesmos males; um caçador de baleia ou tubarão, nasça como um desses animais... É ridículo? Pode até ser, mas não é mais ridículo de achar que, só porque é capaz de fazer filosofia, é superior aos outros animais.

Se um ser humano é capaz de problematizar o tempo, elaborar um calendário ou pisar na Lua, um cachorro é capaz de amar e ser muito mais fiel do que muita gente aí que se acha muito superior.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ex ou incluídos?

O que você pensa sobre exclusão social? José de Souza Martins, em seu livro "Exclusão social e a nova desigualdade", composto por alguns artigos e entrevistas, vai tratar muito bem sobre o tema que envolve, direta ou indiretamente, a reforma agrária. O meu maior desafio em estudar a questão agrária brasileira e se deparar com tantos relatos que as vezes dá vontade de chorar, é enfrentar o senso comum sobre o assunto. Ontem n' A Grande Família, eles fizeram uma paródia bem humorada sobre isso, quando a comunidade do nosso querido Agostinho se junta para expulsar os "sem-caráter", os sem-tetos que estavam ocupando o salão de beleza onde Bebel trabalha.

Enfim, voltando ao assunto, para José de Souza Martins não existe exclusão social. Na nossa sociedade capitalista, incrementada com alguns aspectos patriarcais do nosso passado colonial, o excluído é o morto. E mesmo embaixo da terra, sua exclusão só acontece depois de um longo período burocrático. Os excluídos estão na verdade incluídos na nossa sociedade. A diferença é que eles não encontraram uma forma "digna" de se incluir e, por isso, se excluem moralmente, mas economicamente estão tão incluídos como todos os outros.

Martins tem seus exemplos, eu tenho o meu. O bóia-fria está incluído em todo o processo capitalista da indústria açucareira. Porém, isso foi o que lhe restou. Trabalhador do campo, expropriado de sua terra, falta de oportunidade na cidade que, abarrotada de gente, não consegue absorver mais essa mão-de-obra expropriada. O que lhe resta é esse tipo de trabalho sazonal, análogo ao trabalho escravo, que não respeita leis trabalhistas e oferece sérios riscos à saúde e degrada o ser humano.

Insisto em dizer que não é opção de ninguém morrer de cãibra no meio dos canaviais ou invadir o salão de beleza para ter um teto. São pessoas que estão totalmente incluídos, consumindo e contribuindo para uma acumulação racional do capital, mas que, por falta de lugar na sociedade, se colocam à margem aceitando qualquer meio que lhe garanta a sobrevivência.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A figura do rei (divino) na Mesopotâmia

Este post, ao contrário dos outros que tem um teor bastante pedagógico e que eu escrevo para todo mundo, será mais particular. Esta semana fiz uma prova do curso de História Antiga cujo assunto é a Mesopotâmia. O professor esperava que no teste fizéssemos a articulação entre três elementos: as aulas expositivas, sete textos historiográficos que ele tinha separado e a documentação que trabalhávamos toda segunda parte da aula. Como eu já sabia disso, passei duas semanas me preparando e por isso meu sábado e meu dia das mães foi ler e reler meus textos e minhas anotações.

Mas, o que está me levando a transcrever meu rascunho de prova no meu blog é que foi o primeiro curso no 3° semestre de faculdade que eu vi uma evolução no meu modo de estudar e de articular o material que tinha em mãos. E isso, é claro, é "exportável" para outras matérias, já que em geral é esse o método que os professores esperam nas provas. Por isso, que o post de hoje terá este caráter mais particular que os outros, estou escrevendo mais para mim isso. Não que o leitor não vá entender o texto, mas as referências aos outros textos e aos documentos será confuso. Semana que vem, caso eu receba já o resultado da prova e minha nota seja apresentável, coloco aqui para dividir com todos.

Sobre a questão: a pergunta não era propriamente uma pergunta. Foram colocados na folha de questão três trechos historiográficos sobre determinado assunto e tínhamos que escolher e dissertar sobre um. O trecho que escolhi falava explicitamente da imagem que o rei mesopotâmico fazia de si mesmo e o que ele representava diante de seu povo.
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Os três primeiros quartos do III° milênio foi caracterizado pelo predomínio do modelo governamental da sociedade-templo, no qual o templo aparece como domínio das relações sociais e o centro de organização e distribuição de recursos. Na metade do III° milênio, porém, a etnia suméria vai perdendo espaço para os semitas e o modelo de sociedade-templo vai cedendo lugar a um novo modelo governamental: a cidade-reino, cuja transição já havia se consolidade por volta do ano de 2.300 a.C..

Neste novo modelo, o palácio assume o papel de eixo central das articulações de poder e deixa para o templo o caráter de centro religioso, como aponta Gwendolyn Leick quando identifica duas instituições que dominaram a Babilônia - o palácio e o templo. Porém, esse novo centro de poder fagocita discursos do poder anterior - o templário, e disso ocorre a divinização do poder real como meio de legitimação. Algo, no entanto, merece atenção. "Na Mesopotâmia, ao contrário do Egito, uns reis eram considerados deus e outros não", como aponta Philip Jones. Apesar de ter havido reis que tiveram seus nomes inscritos com a palavra deus, a personificação divina da realeza não finca raízes. O que há e o que pode explicar a história política na Mesopotâmia é a divinização da soberania.

Philip Jones nos explica muito bem qual era o papel real e como este se apresentava e se legitimava. Esta legitimação, como já foi indicado antes, se dava através de uma aproximação da realeza ao mundo divino em forma de descendência divina, favores divinos, casamento com uma deusa ou estrutura sobre-humana.

Este terceiro elemento se mostrava através do casamento sagrado associado a um ritual de fertilização, no qual o rei, substituindo a figura do deus Dumuzi, se une à deusa Inanna - a deusa do amor sexual. Assim, esse rei divino tinha que contribuir com a ordem cóscima, canalizando o potencial destrutivo da deusa Inanna para fins mais construtivos.

Ainda no texto de Philip Jones, ele enumera alguns aspectos que a figura do rei evocava, sendo elas: 1) evocar a ordem cósmica; 2) prevenir a provocação da ira divina; 3) garantir que as ações humanas não desagradariam os deuses e 4) garantir a existência de templos. Essas características completam as de Marc Van de Mieroop quando diz que, além de evitar a ira divina, o rei da Mesopotâmia tinha que garantir alimento e proteção contra os inimigos, garantir a fertilidade da terra construindo e mantendo canais de irrigação e prover justiça. Fica claro aqui para nós, a forte ligação que o rei mantinha com o mundo divino, ao tentar agradá-lo para evitar catástrofes causadas pela ira divina.

A figura de mantenedor da ordem cósmica e social veio com o surgimento e a difusão dos códigos legais. O rei assume para si o que antes era função divina - a de manter a justiça. Isso comporta ao rei uma enorme responsabilidade e assume a legitimação religiosa do seu poder.

"Os reis mesopotâmicos, desde o início do terceiro milênio a.C., entenderam a importância de capitalizar suas realizações e, então, inscreveram seus feitos heróicos (...) a fim de mostrar aos deuses (...) que estavam cumprindo seus mandatos divinos." Isso pode ser muito bem ilustrado no texto de Gwendolyn Leick quando este afirma que todos os anos o rei retornava sua insígnia ao deus e, depois de jurar que não tinha feito nenhum mal à Babilônia, se voltava para o seu posto. Neste mesmo texto ainda, Leick coloca que no festival anual o rei ainda era apresentado como o coroado e protegido pela lei divina.

No código de Hammu-rabi, nós encontramos a legitimação do poder quando o rei assume que sua posição real foi concedida pelos deuses. Neste mesmo discurso, encontramos o que já foi discutido anteriormente com mais detalhes - o rei assume o papel de traduzir a ordem, de ser provedor de justiça. Esta função traz imbutida a ideia de pastor, o que Marc Van de Mieroop chama de "a shepherd to his flock". Porém, neste texto, ao contrário do próximo que iremos ver, o rei ainda é humano e social apesar da capa divina que reina sobre ele. Na correspondência de Mari o rei não só diz que é criação divina, como também ousa uma comparação e assimila para si atributos divinos. Trata-se de registros de uma mesma dinastia de reis, mas que sob diferentes circunstâncias e necessidades, cada rei atribui para si características mais ou menos ousadas em relação ao mundo divino.