quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Revolta da Vacina

"Chegamos a uma sociedade que quer viver o avesso do mito da caverna de Platão, que narra o empenho de homes criados nas suas profundezas escuras para delas sair e ver a realidade à plena luz. No episódio da Revolta da Vacina, vemos claramente essa sociedade rompendo o ovo do seu nascedouro e manifestando precocemente a extensão de sua ferocidade e voracidade."

É assim que termina um livro, pequeno em tamanho mas excepcional em seu conteúdo, de Nicolau Sevcenko, que narra os acontecimentos da Revolta da Vacina e conta os bastidores deste acontecimento de consequencias trágicas - trata-se de uma micro-história. É um livro recomendado a TODOS, inclusive adolescentes, a única contra indicação é para quem não gosta de história e de uma narração muito bem feita.

De uma forma muito fluída e ilustrativa, Nicolau Sevcenko nos mostra como ocorreu a passagem do Império para a República e a tumultuada passagem do século XIX para o XX na então capital do país - o Rio de Janeiro. O autor intercala todo o texto acadêmico e informativo com belíssimas passagens de nossa literatura - poemas e prosas de literatos ilustres como Lima Barreto, Euclides da Cunha, Cruz e Souza, entre outros -, além de descrições e relatos da época.

A mudança de século foi um momento de grande efervescência política. O regime sob qual o Brasil estava sendo governado, tinha como objetivo, assim como os regimes de 30 e 64, o desenvolventismo do país. A imagem de um país desenvolvido, de governo sólido e estável, economia saudável e administração competente, era o que almejava os governantes. Uma série de medidas econômicas, como a Política dos Governadores e o Convênio de Taubaté, trouxeram ao país enormes vantagens para a agricultura paulista, mas deixou em detrimento todo o resto da população, que sofria de uma carência de alimentos e moradia. Trata-se de um progresso cuja uma das faces é prejudicial - prejudicial às camadas mais pobres.

O Rio de Janeiro, como todas as outras cidades portuárias, carecia de uma enorme infraestrutura. A população era vítima de uma série de epidemias, além de uma carência de moradia e o porto sofria com a falta de espaço. Além da urbanização ao redor do porto, que dificultava enormemente a circulação de mercadorias.

É assim que os sanitaristas ganham um poder político similar aos urbanistas que são responsáveis pela reforma das avenidas da cidade e das obras do porto. Da mesma maneira, os sanitaristas têm em mãos uma missão política, não humanizadora. Esvaziar e destruir os casarões, pensões e cortiços, fazia parte desta "missão" sanitária. Gradativamente as pessoas foram expulsas do centro da cidade e sendo marginalizadas, procurando as regiões que ninguém queria: os pântanos e as áreas mais íngrimes. O livro dá uma noção muito boa de como foram formadas as favelas do Rio de Janeiro.

Quanto a vacina, esta também fazia parte do projeto de uma cidade a lá parisiense. O problema maior foi a maneira como ela foi feita. Um grupo mais esclarecido, os positivistas, lutava contra a forma que ela foi imposta - uma maneira arbitrária, compulsória e autoritária. Lauro Sodré, o líder deste grupo, dizia ainda que esta lei "ia contra a liberdade de consciência". As charges da época, inclusive, tratavam a figura de Oswaldo Cruz de uma forma satírica e não a de um herói nacional como nos é mostrada hoje.

Se ia ou não, o fato é que a lei impunha uma vacina obrigatória em uma população pouco esclarecida e totalmente insatisfeita com os rumos que o país estava tomando. Outros grupos políticos, como os positivistas e os monarquistas, fizeram uso desta insatisfação como instrumento para interesses próprios. O problema é que perderam o controle da situação que chegou a níveis trágicos. Tanto o exército como a marinha foram chamados para ajudar o governo a controlar a revolta.

No final, bastava que o indivíduo não estivesse vestido como o exigido, que ele era preso como um participante da revolta e humilhado através do desnudamento e da tortura. Havia também os que eram mandados para o Acre e, nas palavras de Euclides da Cunha: "Os banidos levavam a missão dolorosíssima de desaparecerem."

Para concluir, transcrevo aqui as palavras de Nicolau, que, na minha opinião, são uma grande fonte de reflexão sobre os rumos da história de nosso país. "Nesse momento de transição brusca e traumática da sociedade senhorial para a burguesa, muitos dos elementos da primeira foram preservados e assimilados pela segunda: sobretudo no que diz respeito a disciplina social. A vasta experiência no controle das massas subalternas da sociedade imperial não podia ser desperdiçada pela nova elite. (...) O que nos sugere o autor (Lima Barreto) é que a nossa República democratizou a senzala: acabado o privilégio jurídico de alguém em particular ostentar a posse de escravos, o Estado passou a tratar todos segundo a prática prevista pela existência simbólica daquela categoria."

3 comentários:

Don Allan disse...

Gi, venho reparando nos ultimos post a tamanha qualidade que seus textos adiquiriram...parece retirado de um livro de historia !


parabéns linda =)

CA Ribeiro Neto disse...

Realmente, os textos estão cada vez mais ganhando uma didática incrível.

Agora, digo-te que o que se chama favela, existiu primeiro aqui, em Fortaleza, não que isso seja motivo de orgulho. Mas o nome favela surgiu daí mesmo, acho!

Engraçado que os positivistas eram contra a forma que foi imposta a vacina, mas era em cima das ideias deles que as primeiras repúlicas se basearam. O tal desenvolvimentismo é tipicamente positivista, assim como o "Ordem e Progresso" de nossa bandeira são termos da teoria positivista.

beijosss

Hermes disse...

Concordo com os piá daí de cima, realmente você tá adquirindo uma capacidade de escrita crítica e reflexiva muito boa, aliás, desenvolvendo né, e não adquirindo. Parabéns.

Eu sempre me interessei pela Revolta da Vacina, não pela revolta em si, mas pelo absurdo. Foi aí nessa época que começamos a construir a mentalidade do "controle médico" em nossa sociedade, infelizmente.
Quanto aos positivistas influenciarem diretamente nessa ideia de desenvolvimento,é bem verdade, mas não é estranho os positivistas brasileiros serem contra a maneira em que era imposta essa vacina, fosse um positivista europeu mesmo, provavelmente não acharia ruim, mas como é brasileiro e tem na cabeça as famosas "ideias fora de lugar", o perfil positivista praticamente vinha só do nome, pois era bem diferente do original europeu.