quinta-feira, 22 de abril de 2010

A questão agrária e o senso comum

A questão agrária no Brasil é um assunto polêmico que dá pano para a manga.

Ao longo deste semestre estou fazendo um trabalho sobre os bóia fria e por isso estou gradativamente me aprofundando no tema. O que quero comentar hoje no blog, no entanto, não é diretamente sobre a questão agrária e nem sobre a situação miserável dos trabalhadores do campo. O que quero falar é sobre o senso comum em relação a propriedade fundiária brasileira.

Como estou lendo e pesquisando bastante o assunto, é inevitável as pessoas verem os livros que estou lendo ou as fontes que estou consultando e isso, consequentemente, instiga o observador a dar sua própria opinião. E o que eu ouvi me chocou. Me impressionou não porque as opiniões eram contrárias a minha, mas sim pelos argumentos usados para defender essa posição.

"Se eu comprasse um pedaço de terra e pagasse meus impostos direitinhos, o problema não é meu, é do Estado. E se eu quero produzir lá ou não, isso num é problema de ninguém. É meu e eu faço o que eu quero." Esse primeiro argumento, fez eu ver um letreiro de Capitalismo brilhante estilo sexy shop piscando na testa do enunciador. Eu nunca tinha ouvido um argumento tão individualista sobre um assunto tão sério. "Eu assisto globo rural todo domingo e esses lavradores não plantam nada que não seja feijão e mandioca." Este foi outro argumento que ouvi e me chamou a atenção, além de "Eu também era pobre, mas eu estudei. Por que eles não estudam?"

A concentração fundiária no Brasil é, dentre todos os males, o pior. A aquisição de terras tem um caráter puramente mercantil. Quando não há investimentos e não há produção voltada para o mercado externo, a terra torna-se uma poupança, com mero caráter especulativo. Enquanto isso, do outro lado da moeda, a população rural que nasceu neste meio e sente uma conexão com a terra, evitando migrar para a cidade, perde suas terras, consequentemente seus meios de subsistência e se vê obrigada a vender sua força de trabalho.

O assalariada rural, no entanto, compete com a produtividade das máquinas e esse enorme contingente populacional acaba se submetendo a serviços degradantes cujo salário é inferior a um salário mínimo. O trabalho no campo também se caracteriza pelo seu caráter intermitente. Ou seja, em boa parte do ano o trabalhador não tem fonte de renda.

Diante dessas situações, o trabalhador rural encontra-se impossibilitado de comprar terras submetidas a uma atividade especulativa. Guardar dinheiro para melhorar de vida também está fora de cogitação uma vez que os recursos que possui mal são suficientes para o seu nível de subsistência. Invadir uma casa e invadir uma propriedade improdutiva são duas coisas totalmente diferentes, já que terra não é reproduzível por trabalho mas sim apropriada, portanto ela tem sua função social. Globo rural definitivamente não é a melhor das fontes para entender a questão agrária no Brasil, para compreender o papel da agroindústria e do Brasil nas exportações de gêneros primários, ela até é, mas para o trabalho no campo não. Além da dificuldade de obter terras dado o alto preço destas, produzir nelas também sai muito caro e em algumas vezes é inviável para um lavrador competir com as grandes produtoras. Além disso a falta de uma política auxiliadora no campo, o obriga a se limitar no suprimento de suas necessidades mais básicas. Já sobre a educação, acho que não é necessário eu discorrer sobre isso.

Mas o principal: como que alguém pode dizer "não é problema meu"? A questão agrária é problema de todo mundo. Desse contingente populacional, os que continuam na lavoura, quando não se submetem a trabalhos de remuneração miserável, se juntam em movimentos de caráter revolucionário. Dos que migram para a cidade, encontram poucas oportunidades de emprego também de remuneração baixa e nas maiorias das vezes se aglomeram em favelas.

Ninguém trabalha das 4h00 as 21h00 por que quer. Ninguém vive em condições miseráveis por que quer. E principalmente, ninguém fica sem propriedade e vende sua força de trabalha por salários precários por que quer.

Vamos parar de assistir Globo Rural!

4 comentários:

Don Allan disse...

Gi, gostei do texto...

De fato, a questao agraria é importantissimo para o desenvolvimento economico do Brasil...

CA Ribeiro Neto disse...

Gi, Entrou o 15º membro do Blogs de Quinta:

Marcília de Sousa - http://marciliadesousa.blogspot.com/

Junte-a à lista!

beijos

Jéssica de Sousa disse...

Gostei do texto ;)

CA Ribeiro Neto disse...

Gi, realmente você tocou num ponto muito importante. Tenho costume de assistir Globo Rural e realmente é um programa para ricos, onde quem financia são grandes empresas que tem como consumidores os grandes latifundiários.

É incrível como ainda há muito preconceito com o MST, com os indígenas, com os comunistas. Quando eu estava lendo o manifesto, eu nem sou comunista, mas andava com ele à mostra só pra ver a reação o povo e eles me olhavam como se eu tivesse uma doença.

Quanto aos movimentos a favor da Reforma Agrária, é bem verdade que a assessoria política deles é pouca ou nenhuma. Segunda mesmo eu vi uma manifestação do MST e no mesmo paragráfo do discurso ele respondeu a propria indagação dele, foram mais ou menos essas palavras:

"As pessoas têm preconceito com o pessoal do MST sem mesmo conhecer os nossos projetos e por isso mesmo a única saída é a guerra civil"

Eu entendo o momento de desespero que eles passam, mas não é anunciando uma guerra civil que ele vai ganhar a simpatia da população.

Conheço pessoas que fazem assessoria política a esses movimentos e a outros relacionados a moradia e o que se destaca mesmo são pessoas despreparadas e que fazem isso por parte da terra e que venderão futuramente.

A sociedade é capitalista e é dificil de explicar que a função social da propriedade é lei e que deve ser analisada. E não se trata só de área rural, uma casa abandonada numa cidade também não está cumprindo sua função social, mas daí a explicar isso num mundo consumista...

Enfim, Gi, acho que vou salvar esse texto seu, pois nunca vi um texto sobre esse assunto explicar tão bem o que acontece. E você fez uma leitura sociológica perfeita!!!!

beijos