quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O melhor presente ever

Há livros que ficam na história. Na nossa história. Na história particular, individual de cada um. São aqueles que nos fazem sentir miseráveis ao pensar que não há livro melhor, ou tão bom quanto, no mundo para ler; e nos fazem sentir felizes, por não termos morrido antes de terminá-los (é por isso aliás, que lemos em dois, três dias, no máximo quatro, obras de 300, 400 ou 500 páginas).

As outras leituras, são apenas leituras. Cada uma, a sua maneira, tem sua importância ou na vida acadêmica ou apenas no hábito de leitura; mas há outras, em geral obras de literatura, que são especiais. Nos roubam várias horas seguidas de leitura, deixamos de comer, tomar banho, ligar para o(a) namorado(a), só para ler mais um capítulo... só mais uma página. Pode ser Harry Potter, Crespúculo ou Paulo Coelho, não importa. Uma leitura prazerosa nos leva a uma viagem, a um êxtase e a uma ansiedade melhor do que qualquer droga ilícita.

Carlos Ruiz Zafón é um autor espanhol extremamente talentoso que atualmente tem dois de seus livros publicados entre os mais vendidos e que conseguem nos hipnotizar até o fim. Agora no Natal ganhei O Jogo do Anjo e, me atrevo a dizer, foi o presente mais breve e também o mais eterno de todos. O mais breve porque em três dias havia terminado, o mais eterno porque ficará sempre na minha memória e a vontade de relê-lo só vai acabar quando tê-lo feito.

A Sombra do Vento eu também já havia lido, e é de igual valor. O mistério, as intrigas, o romance, as relações interpessoais, além da cidade de Barcelona que assume o papel de um personagem e a ambientalização política, tudo isso comum aos dois livros, nos fazem almejar pelo final como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Ambos os livros também nos trazem lágrimas ao rosto, nos fazem odiar profundamente determinado personagem e desejar sua morte, mas também nos fazem dar altas gargalhadas.

Não acho que vale a pena dizer mais sobre os livros e o autor, não farei mais uma resenha como tantas outras que encontramos na internet e em revistas. Só digo que foi um dos melhores que já li. Assim como O Caso dos 10 Negrinhos foi o melhor livro do mundo nos meus 11 anos, Harry Potter nos meus 12 anos, As Brumas de Avalon nos meus 17, A Sombra do Vento nos 18 e O Jogo do Anjo no início dos meus 19, entre muitos outros que já foram e virão.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ismália

Muitos já sabem da minha opinião sobre poesias. Nunca os entendo e nem consigo fazer um comentário se quer sobre eles. Porém, há alguns raros poemas, perdidos pelas páginas dos livros de literatura do Ensino Médio, que me enncataram e, mesmo depois de algum tempinho, eu não os esqueço e relê-los é sempre um prazer.

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava perto do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimarães)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A sociedade democrática mineradora

Faz muitíssimo tempo que eu não frequento do blog, quase um mês... Não vou tentar me justificar, mas houve algumas semanas em que minha opção em História me desanimou muito e me fez arrepender significativamente desta escolha que comecei a achar que não foi das mais certas. Mas enfim, como meu querido amigo Hermes disse "o jeito é continuar", tarde demais para se arrepender. Porém, a nota de corte este ano da FUVEST caiu muito em alguns cursos, e com certeza teria passado em algum outro curso, pelo menos na primeira fase. Enfim, juntando-se a isso, é fim de semestre: provas e entrega de trabalhos, e uma dessas provas quase representou o estopim para eu desistir do curso, mas foi a gota d'água para eu chegar em casa deprimida: eu, que havia estudado tanto, que nunca faltei uma única aula e que amei o curso do começo ao fim, fui pior na prova do que quem tinha menos interesse em nota. Bom, fazer o que? "O jeito é continuar."

Mas deixe eu mudar de assunto porque nunca criei o blog com a intenção de chorar minhas máguas. Tenho meu psicólogo particular e isso me basta.

Ontem, sem planejar e quase sem querer, comecei a ler O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Peguei o livro e só folheei para achar alguma parte que tivesse como tema de fundo a disputa pela terra. Falhei nesse objetivo, mas comecei a ler e por volta de uma hora já tinha acabado. Muito bom! Quem nunca o pegou para ler é uma ótima recomendação. O filme não fica para trás, mas ele é mais "recheado" de histórias e personagens. O Auto da Compadecida é uma daquelas histórias que você lê rindo! Foi uma leitura muitíssimo prazerosa.

Para não acabar o post somente com essa mensagem muito pessoal, colocarei aqui uma das duas repostas que fiz para a minha prova de Brasil Colonial, não, sem antes, dar uma breve introdução ao tema.

É muito comum sermos ensinados nas escolas e nos cursinhos pré-vestibulares que a sociedade mineradora foi muito mais democrática que a sociedade açucareira. Lembro ano passado o meu professor de história do Brasil fazer um quadro na lousa para comparar estes dois momentos distintos da história brasileira. Pois bem, uma historiografia mais antiga, representada inclusive pelo Sérgio Buarque de Holanda, diz quase que exatamente isso: a sociedade mineradora permitia uma maior mobilidade social, todos trabalhavam, as ideias de civilização influenciadas pelo iluminismo circulavam com uma facilidade muito maior... Porém, uma historiografia mais recente tem contestado isso, como está escrito mais abaixo. Se havia uma maior democracia isso aconteceu por baixo, ou seja, todos eram muito pobres, todos dividiam a mesma pobreza, e se houve uma possibilidade de mobilidade social como era dito, foi uma parcela muito significativa dos que conseguiram acumular riquezas e mudar a situação de vida.

Na prova, haviam três trechos de obras que tratavam do mesmo assunto - a suposta democracia da sociedade mineradora - sob perspectivas diferentes. Eis a minha resposta abaixo sobre este embate historiográfico cuja nota ainda não recebi.

Os três trechos, tirados de obras da historiografia brasileira, apresentam duas linhas de pensamento distintas sobre o período minerador do Brasil Colonial.

O primeiro excerto, o mais antigo dos três e escrito por Sérgio Buarque de Holanda, defende a característica democrática da sociedade mineradora, em comparação com outras áreas da colônia portuguesa da América, principalmente, as zonas açucareiras. Portanto, dada essa peculiaridade das Minas Gerais, forma-se nessa região uma sociedade sui generis, muito particular diante de todo o resto da América lusitana. Este trecho representa toda uma forma de pensar a sociedade mineradora que, hoje sabemos, tem ligação com a ideologia da Inconfidência Mineira. Por ser mais democrática e civilizada, teria mais possibilidades de mobilidade social e menos escravos; as idéias das luzes teriam sido capazes de entrar nesta sociedade e fomentarem um desejo de independência; as revoltas, que começaram a surgir como forma de contestação às fiscalizações tributárias, inclusive, seriam também uma certa conseqüência desta democracia que começou a surgir na América Portuguesa no século XVIII.

Tal corrente de pensamento começou a ser contestada. Já no final da década de 70 do século passado, Jacob Gorender não atribui o grande número de pequenas explorações na região das Minas Gerais como sendo uma característica do sistema de mineração, tampouco como um predomínio econômico. Apesar de reconhecer a distinção entre as sociedades mineradoras e açucareiras, desconfia da tal mobilidade social defendida por Sérgio Buarque.

Poucos anos depois, na década de 80, Laura de Mello e Souza parece completar a idéia de Jacob Gorender, o que é mostrado pelo segundo excerto. “A constituição democrática da sociedade mineira poderia se reduzir numa expressão: um maior número de pessoas dividiam a pobreza”. Para Laura aquele grande número de pequenas explorações era conseqüência de baixos níveis de renda também mal distribuídos, ou seja, se havia realmente uma maior possibilidade de mobilidade e uma democracia social que diferenciavam consideravelmente o setor minerador do açucareiro, isso se deu por baixo, da falta de poder aquisitivo e de concentração, portanto, se houve realmente uma mobilidade social, os que enriqueceram foram uma parcela muito pouco significativa.

Na historiografia recente, reconhece-se a intenção de implantar nas Minas Gerais o sistema escravista de mais de um século das zonas açucareiras: para lavrar era necessário possuir escravos. Assim, é significativa a participação massiva da escravidão, em sua maior parte negra. Para completar, Laura aparece caracterizando a sociedade mineradora como “aberta” e não democrática; aberta pelas possibilidades que ali existiam, mas que só existiam pelos motivos enumerados acima.