quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Abaixo, transcrevi um documento que estou trabalhando na faculdade. Este documento faz parte de um conjunto de outros três, nos quais todos tratam de relatos sobre o dia em que D. Pedro declarou o Brasil independente. Cada um a sua maneira, é claro. O trecho foi encontrado num livro no Rio de Janeiro em 1826 que foi editado em Paris, de autoria anônima cujo título era "O grito do Ipiranga e o Brasil político". No livro constava descrito vários episódios políticos do Brasil, entre eles a proclamação da independência que está transcrito abaixo. Os exemplares do livro, por ordem de D. Pedro, foram apreendidos e queimados, portanto hoje é um livro raríssimo. Com o tempo, descobriu-se a autoria do livro, que foram vários autores, entre eles, o próprio Padre Belchior, responsável pelo documento transcrito.

"O Príncipe mandou-me ler alto as cartas trazidas por Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro. Eram elas: uma instrução das Cortes, uma carta de D. João, outra da Princesa, outra de José Bonifácio e ainda outra de Chamberlain, agente secreto do Príncipe. As Cortes exigiam o regresso imediato do Príncipe, a prisão e o processo de José Bonifácio. ; a Princesa recomendava prudência e pedia que o Príncipe ouvisse os conselhos de seu Ministro; José Bonifácio dizia ao príncipe que só havia dois caminhos a seguir: partir para Portugal imediatamente e entregar-se prisioneiro das Cortes, como estava D. João IV, ou ficar e proclamar a independência do Brasil, ficando seu imperador ou Rei; Chamberlain informava que o partido de D. Miguel, em Portugal, estava vitorioso e que se falava abertamente da deserdação de D. Pedro em favor de D. Miguel; D. João aonselhava ao filho obediência à lei portuguesa.
D. Pedro, tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e amarrotando-os, pisou-os, deixou-os na relva. Eu os apanhei e guardei. Depois, abotoando-se e compondo a fardeta (pois vinha de quebrar o corpo à margem do riacho Ipiranga, agoniando por uma desenteria com dores que apanhara em Santos) virou-se para mim e disse:
- E agora, Padre Belchior?
E eu respondi prontamente:
- Se. V. Altaeza não se faz Rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e talvez seja deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.
D. Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro e o Chalaça, em direção aos nossos animais, que se achavam em local próximo. De repente estacou, já no meio da estrada, dizendo-me:
- Padre Belchior, eles o querem, terão a sua conta. As Cortes nos perseguem, chamam-me com desprezo, de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale esse rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações, nada quero do Governo Português. Está feita a liberdade do Brasil.
Gritamos imediatamente:
- Viva a liberdade do Brasil! Viva D. Pedro!
O Príncipe virou-se para seu ajudante de ordens e disse:
- Diga à minha guarda que eu acabo de fazer a independência do Brasil, com separação de Portugal.
O tenente Canto e Melo cavalgou em direção a uma venda, onde se achavam quase todos os dragões da guarda e com ela veio ao encontro do Príncipe, dando vivas aos Brasil independente, a D. Pedro e à Religião!
O Príncipe, diante de sua guarda, disse então:
- Amigos, as Cortes portuguesas querem escravizar-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais!
E arrancando do chapéu o laço azul e branco, decretado pelas Cortes como símbolo da nação portuguesa, atirou-o ao chão, dizendo:
- Laço fora, brasileiros! Viva a independência e a liberdade do Brasil!
Respondemos com um viva ao Brasil independente e viva a D. Pedro!
O Príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares; os paisanos tiraram os chapéus. E D. Pedro disse:
- Pelo meu sangue, pela minha honra, por Deus, juro defender a liberdade do Brasil.
- Juramos, respondemos todos!
D. Pedro embainhou a espada, no que foi imitado pela guarda, e pôs-se à frente da comitiva, e voltou-se, ficando em pé nos estribos:
- Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será o dístico Independência ou Morte, e as nossas cores, verde e amarelo, em substituição às das Cortes.
Firnou-se nos arreios, esporeou sua besta baia, galopou, seguido de seu séquito, em direção a São Paulo, onde foi hospedado pelo brigadeiro Jordão, capitão Antônio Silva Prado e outros, que fizeram milagres para contentar o Príncipe.
Mal apeara a besta, D. Pedro ordenou ao seu ajudante de ordens que fosse, às pressas, ao ourives Lessa e mandasse fazer um dístico em ouro com as palavras: - Independência ou Morte, para ser colocado no braço.
E com ele apareceu no espetáculo, onde foi aclamado Rei do Brasil pelo Padre Ildefonso Xavier, cujos vidas foram repetidos pelo povo que ali se achava.
No teatro, por toda a parte, só se viam laços de cores verde e amaralo, tanto nas paredes, como no palco, nos braços dos homens e nos cabelos e enfeites das mulheres".

Pretendo, num post futuro, escrever porque esse pavor de D. Pedro às Cortes e porque seu pai, na carta que lhe enviou, recomendou obediência às Cortes. E também, como essa "rebeldia" de D. Pedro foi encarada pelas próprias Cortes lá em Portugal. E também, talvez, como a independência foi vista por outros "telespectadores" do grito do Ipiranga.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os "sampaulistas"

São Paulo no período colonial foi uma grande especificidade. Não havia monocultaras de cana e alta produção de açucar, nem um intenso tráfico de escravos. As famosas casas grandes e senzalas que aprendemos na escola são característicos das capitanias do atual nordeste brasileiro. O único momento colonial paulista que vemos no ensino regular é sobre os bandeirantes. Apesar de esta visão estar mudando, ainda em São Paulo estudamos os bandeirantes pela sua importância no desbravamento do sertão, sendo encarados como heróis, sendo este o motivo por tantas rodovias terem os nomes destes personagens. Entre as mais famosas: Rodovia Fernão Dias, Anhanguera, Raposo Tavares e a Rodovia dos Bandeirantes.

Mas São Paulo tem algumas especificidades que valem a pena ser analisadas melhor. Especificidades estas que ligam a região do planalto paulista e o tão importante nordeste produtor de açucar.

Os tais bandeirantes, antes de assumirem propriamente este papel, eram conhecidos pelo resto da América Portuguesa por "sampaulistas" e eram encarados como uma gente estranha, que vivia no meio do mato. Isso acontecia porque os habitantes do planalto paulista "caçavam" indígenas e disso viviam além de um dificultoso comércio de produtos de subsistência realizado na serra entre o planalto e o litoral, que possuía alguns poucos engenhos de baixa produção de aguardente e rapadura.

Para terem sucesso em seus aprisionamentos de indígenas, os paulistas tiveram que aprender com os próprios índios. Despreparados, os portugueses eram facilmente mortos pelos índios que usavam métodos de guerrilha. Acostumados com o terreno e grandes conhecedores da fauna e da flora, sem serem vistos, se moviam e atiravam flechas em seus adversários por cima das árvores. Assim, os paulistas. adotando seus métodos, aprenderam com eles a se moverem e a lutarem na "selva" tropical.

Lá no Nordeste, quando o quilombo dos Palmares chegou num ponto de ameaça à soberania do Estado português e à ordem escravista e na capitania do Rio Grande (hoje Rio Grande do Norte) estoura uma rebelião indígena dos antigos aliados dos holandeses, chamar os "sampaulistas" foi uma alternativa que se mostrou mais eficiente para acabar com tal "desordem". Comprar esse serviço não era barato. Domingos Jorge Velho foi chamado para cuidar destes dois eventos em troca, é claro, de terras para virar um grande senhor de engenho. Este era, afinal, o sonho de todos os paulistas que viviam no meio do mato caçando índios: ser um grande senhor de engenho.