quinta-feira, 10 de setembro de 2009

7 saberes necessários à educação do futuro

Eu escrevi a composição abaixo como forma de resumo de um texto que li. Eu o achei interessante e completa uma segunda leitura que fiz anteriormente, na qual o objetivo maior da educação é não repetir Auschwitz, que foi o ponto máximo de barbárie humana. É claro que o autor usa o campo de concentração apenas como um exemplo, porque barbáries humanas são encontradas em várias outras partes do mundo com dizimações étnicas, guerras “sem sentido” e etc. A conclusão deste texto era que a civilização, para não repetir Auschwitz, só seria alcançada pela educação. A leitura abaixo, de um autor diferente, completou essa afirmação.

É de conhecimento de todos que a educação do Brasil está em crise, mas essa crise não é exclusiva brasileira e nem tão recente. Me questiono agora se este problema educacional geral é realmente a falta de educação civilizacional ou seria política, econômica e de conteúdos mais teóricos como o método de educação.


MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro.


Edgar Morin nos apresenta sete saberes que, segundo ele, são ignorados e subestimados pelo ensino e pelas escolas contemporâneas. É o que ele chama de “sete buracos negros da educação” e não se tratam especificamente de nenhum nível escolar, mas sim programas que deveriam ser colocados no centro da educação para formar bons cidadãos. A grande questão que envolve todos os saberes é o de civilizar o mundo. De uma forma ou de outra, todas as suas propostas podem ser convergidas para esse único ponto.


O primeiro grande saber é sobre o conhecimento. Segundo Edgar Morin, o conhecimento é enganador e ilusório. Para ver e conhecer a realidade é preciso explorar os erros, porque só assim ela é alcançável. Erros causados por diferenças sociais, culturais e étnicos, que fazem o “pensar diferente” como anormal e até como um desvio patológico e outros erros que são causados pela camuflagem de partes desvantajosas para os interessados. Assim, percebemos o mundo através de reconstruções e traduções da realidade, dependendo do ângulo e da perspectiva que vemos a realidade; e assim como toda tradução, ela é composta de erros. “Toda tradução é uma traição”.


O conhecimento pertinente é a contextualização do que vemos como conteúdo na escola na realidade em que vivemos. O meio que ele propõe para o ensino alcançar esse objetivo é a integração das partes. O ensino fragmentado, segundo o autor, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar. Portanto, é necessário ligar as partes, porque não é possível conhecer as partes sem conhecer o todo e vice-e-versa.


A identidade humana é outro ponto significativo. Nós fazemos parte de uma trindade indivíduo-sociedade-espécie, ou seja, nós somos indivíduos que fazemos parte de uma sociedade e também somos espécie. Para não acabar com esta é necessário se reproduzir e ter filhos que serão, como os pais, educados e moldados de acordo com a sociedade em que vive. Portanto, mostrar que o ser humano que é múltiplo enquanto é parte de uma unidade, é uma educação para civilizar o planeta em que vive. Para entender essa complexidade humana, o ensino da literatura e da poesia devem ser colocadas em primeiro plano, pois são elas que convergem para a identidade e para a condição humana.


Atualmente o individualismo tem ganhado um espaço cada vez maior socialmente e o ensino da compreensão humana tem sido trocada pela egocentrismo e o egoísmo: o “se dar bem”. Os seus grandes inimigos são a redução do outro, a visão unilateral, a falta de percepção sobre a complexidade humana e a indiferença. Se auto a avaliar e compreender a si mesmo é um primeiro passo. O cinema é outro recurso que ajuda a entender e a valorizar personagens anônimos da nossa sociedade, ensinando a superar a indiferença e ver os heróis invisíveis sociais sob um outro ângulo.


A incerteza é o quinto saber indicado por Edgar Morin. Saber que o inesperado aconteceu e acontecerá é um domínio necessário a ser mostrado, sobretudo na disciplina de História. Quase nada é como se espera ou deseja. Essa incerteza não apenas fomenta a coragem, mas também age como um meio de tomar consciência sobre a dimensão que decisões tomadas alcançam, além de aprender a lidar com situações inesperadas, saber agir diante do imprevisto com o pouco que se tem nas mãos.


A condição planetária atualmente mostra que a humanidade vive um percurso de destino comum. Diferenças étnicas, religiosas e culturais são superadas diante de ameaças nuclear e ecológica, crises ideológicas e econômicas que colocam todo o mundo em risco e perigo. Portanto, é difícil conhecer o nosso planeta dada a complexidade com que diversos fenômenos estão imbricados.


A antropo-ética, finalmente, é a “tomada de consciência social que leva à cidadania, para que o indivíduo possa exercer sua responsabilidade” que tem se expressado em organizações não-governamentais, superando os problemas da moral e da ética que diferem de acordo com a cultura e as origens dos indivíduos. Tudo isso acontece diante de uma regressão democrática implicada e agravada cada vez mais pelo poder tecnológico e econômico.


Edgar Morin nos faz essa exposição numa linguagem muito simples, repleto de exemplos concretos e bastante conhecidos. Seu objetivo é unir o que hoje se encontra fragmentado, causando a invisibilidade de problemas para muitos e que a visão total da realidade seja deficiente. Isso tudo porque o próprio planeta encontra-se unido e fragmentado ao mesmo tempo, um estado de caos, que só pode ser superado através da civilização. Esta, por sua vez, só será alcançada através de uma educação eficiente que leve em conta estes sete pontos acima e que hoje são ignorados.

2 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Texto muito interessante, Gi!
Acho que o primeiro "buraco negro" foi pra mim, né? hehehehehehe No texto passado cada um pôs os olhos da sua vertente no caso (você, o da história e eu, o da política).

Acho que esse autor foi muito feliz na teoria, principalmente quando ele valoriza a literatura \o/!

Mas, sério agora, achei interessante a teoria dele, mas, no meu caso, precisaria ler mais coisas dele, para afirmar que ele está certo. A teoria dele é baseado unicamente em pesquisa qualitativa? Ou ele se utiliza de algum tipo de número? Por incrível que pareça, eu acho imprescindível pesquisa quantitativas em pesquisas humanas.

beijos, Gi!

Don Allan disse...

Acho que existe um ponto sensivel na "teoria" deste autor. Justamente o ponto em que diz "civilizar" o mundo por meio da educação. Existem diversas interpretações em relação a isso, e uma delas foi usada para a dominação européia na Africa e Ásia.

Porém, acho que o ensino deve ser muito mais do que tornar o cidadão consciente de sua "humanidade". Deve ser sim algo que torne o mesmo apto a modificar a sociedade em que vive, após entende-la.