quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Iluminismo na Espanha do século XVIII

É conhecimento comum a todos o fenômeno Iluminista que ocorreu na Europa que se estendeu do final do século XVII até o início do XIX. Aprendemos na escola os principais ilustrados que são em sua grande maioria franceses e ingleses e as grandes conseqüências que isso trouxe para o continente, especialmente e com grande ênfase para a França.O problema é que, apesar de ter sido um fenômeno de proporções geográficas bastante extensa, a região Ibérica teve particularidades bastante significativas.


Até o século XVI, Portugal e Espanha gozavam de um prestígio de muitos poucos. Eram os protagonistas econômica e politicamente na Europa. Dominavam os mares e extensas terras em outros continentes além do intenso comércio de especiarias entre Ásia e Europa. Mais tarde, graças às possessões americanas, eram referência em metais preciosos e no comércio açucareiro (este último, como bem sabemos, não tão monopolizado pelos portugueses).


Pois bem, em especial na Espanha, com o surgimento do Iluminismo, que surgiu e caminhou ao lado do Iluminismo francês, tinha uma particularidade. Os Ilustrados espanhóis tinham consciência de sua real ou suposta decadência (Agesta). Assim, como falar em progresso diante de uma Espanha em decadência (não em crise!)? Além disso, ao contrário dos grandes ilustrados ingleses e franceses que vemos no ensino regular, que em sua maioria são ateus, deístas e lutadores bravos a favor da razão contra a Igreja, os ilustrados espanhóis, em sua grande maioria, faziam parte do clero. Como então reconciliavam a razão com a religião católica?


Diante de sua real decadência, a Espanha enfrentava no século XVIII a queda da arrecadação da prata, aumento da inflação, perdas dinásticas significantes como a independência dos Países Baixos, o fim da União Ibérica e em 1640 a quase perda da Catalunha. Os escritores do próprio século XVIII já viam seu querido país incapaz de alcançar o crescimento econômico da Holanda e da Inglaterra. Tudo isso dentro de uma perspectiva histórica da época em que tudo acontecia em ciclo. Se um dia a Espanha foi o grande Império que foi, agora era a hora de sua decadência, e nada podia se fazer sobre isso.


Essa idéia de história cíclica mudou com o Iluminismo. O homem tinha razão e por isso poderia mudar a história. Assim, o progresso para a Espanha ilustrada mostrou-se como sendo sua salvação e, para isso, era preciso iluminar seus cidadãos para que fosse possível mudar o país mudando, primeiramente, os espanhóis.


Mas por que suposta ou real decadência? Luis Sanches Agesta, um historiador do século XX, questiona essa real decadência considerada pelos espanhóis do século XVIII. Será que a Espanha foi tão grande assim? Mesmo em seu auge de Império, a nação espanhola enfrentou outros problemas, não tão equiparáveis com os que ela enfrentava no século XVIII, é claro; mas enfrentou.


Quanto à fé, os ilustrados espanhóis muito convincentes foram ao enunciar que a religião católica era a mais racionável de todas. Assim, apesar de muitos problemas contraditórios encontrados nesse assunto, conciliaram muito bem a fé e a razão na Espanha Ilustrada.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A religião "mais brasileira"

O Brasil é uma mistura de cores, povos, culturas e... religiões. E é isso uma das características mais marcantes de nosso país: esse sincretismo de tudo o que faz parte das nossas vidas de brasileiros - para uns mais do que para outros. Isso tudo começou, como denuncia Freyre, lá nos tempos coloniais nas grandes lavouras de açúcar onde negros e brancos colocaram lado a lado culturas e costumes bastante diversos cujas origens eram de diferentes continentes mas que na América Colonial, como que sem muita opção, foram obrigadas a se enfrentarem.

Poderíamos falar das comidas, das músicas, dos costumes diários dos brasileiros, mas hoje quero falar um pouco sobre a religião. Dentre a diversidade religiosa de grandiosidade significativa que encontramos no Brasil, na minha opnião, a que mais tem a cara do brasileiro é a umbanda. As religiões evangélicas tem crescido gradualmente, mas ela tem origens muito diferentes que pouco tem relação com nosso país. Inicialmente ela vem da Europa com a Reforma e mesmo assim, pouca ligação isso tem com Portugal que contra isso lutou bravamente através das armas da Inquisição. Na invasão Holandesa, um dos grandes medos dos senhores de açucar era o risco da religião protestante ser imposta pelos flamengos. Vemos também com bastante clareza ainda hoje, a influência evangélica nos cultos negros dos EUA. Martin Luther King é um grande ícone para isso. Muita coisa disso foi importada pelo Brasil e que vem constantemente sendo mudada e reformulada para se adequar melhor as necessidades e a ingenuidade dos brasileiros.

O catolicismo adquiriu sim grandes características brasileiras. A festa junina, por exemplo, que é uma das minhas festas favoritas, é bastante verde e amarelo com seus bolos de fubá e as quadrilhas. Mesmo assim não é algo tão nosso; durante as missas temos que rezar pelo Papa - uma autoridade religiosa distante, do outro lado do Atlântico, a quem seria impossível pedir um pouco de ajuda. Se nós rezamos e pedimos por ele, o fazemos isso porque o Padre lembra e exige aquela resposta em coro.

A Umbanda por sua vez, é algo tão original, que não é o Candomblé modificado, como aconteceu com o Catolicismo e o Protestantismo. Surgiu uma nova religião com um novo nome e rituais e crenças muito sincréticas. Laura de Mello e Souza escreveu um livro maravilhoso sobre religião no Brasil colonial e lá ela diz que nas Senzalas surgiu um sincretismo entre as diferentes religiões africanas, pois negros de diversas regiões do continente, com costumes e culturas diferentes, se encontraram todos juntos num mesmo espaço. E foi o que surgiu lá que veio a se juntar com o catolicismo e originar o que conhecemos hoje por religiões afro-brasileiras. Há uma coisa muita interessante nisso: não é afro-europeia e nem afro-católica ou afro-portuguesa, é afro-brasileira.

O que me entristece é ver brasileiros católicos e evangélicos tratarem mal e agirem com preconceito a religião "mais" brasileira. A Umbanda e o Candomblé são religiões dos pobres que procuram ajuda tanto para encontrar emprego, quando para curar doenças ou acabar com vícios. É o lugar onde os pobres, que não tem como pagar médicos, psicólogos, seguros de saúde ou clínicas vão para conversar com alguém que está lá para ajudar. Estas religiões nasceram com os pobres e excluídos. Elas valorizam o homem como nenhuma outra religião cristã; enquanto os padres e pastores colocam tudo na mão de deus e tudo o que resta ao homem é pedir à ele, os orixás nos ensinam que somos nós quem temos que correr atras do que queremos e precisamos. Deus só nos ajuda, mas não faz nada por nós.

Conheço gente que hoje trata as religiões afro-brasileiras como manifestações do demônio, mas no passado, quando precisaram de cura espiritual depois de consultar vários médicos que nada puderam fazer, foram atras e entraram no terreiro com grande humildade. Infelizmente se esqueceram disso.