quarta-feira, 8 de julho de 2009

Casa-Grande e Senzala

Casa-Grande e Senzala é um clássico da historiografia brasileira escrito por Gilberto Freyre na década de 1930. Dentre as leituras que fiz no meu primeiro semestre de faculdade, me atrevo a dizer que este é um livro único. Antes de uma obra historiográfica é uma compilação do que chamo de curiosidades históricas. A cada virada de página, que são mais de 400, dizemos “Nossa, que curioso!” ou então “Ah...Então é por isso que fazemos isso!”. É também possível, ao contrário das leituras pesadas e cansativas que fazemos como obrigação para a faculdade, ler Gilberto Freyre com o mesmo entusiasmo que lemos um romance e as 400 páginas divididas em apenas cinco capítulos tornam-se apenas 200.

G. Freyre não poderia ter colocado nome melhor para o seu livro, que se concentra na formação e nas relações sociais do povo brasileiro e é bom fugir um pouco da corrente marxista (não estou dizendo que ele a negue). Dentre os cinco capítulos, um é dedicado a uma introdução geral, outro aos índios, outro aos portugueses e os outros dois restantes aos negros, estes considerados pelo autor, ainda mais que os indígenas, como os maiores responsáveis por dar ao povo brasileiro essa cara que possui.

Uma vez havia lido em um artigo sobre preconceito que não era possível apagar 300 anos de regime escravista da nossa sociedade. Pois bem, Gilberto Freyre mostra isso também, mas sob um outro ângulo. As relações entre a casa-grande e a senzala foram fundamentais para que hoje se valorize a morena, que o povo brasileiro seja escandaloso gritando com quem fala, que nossa cozinha seja tão nossa e, principalmente entre tantas outras coisas que G. Freyre fala, que essa relação entre senhor e escravo foram fundamentais para dar ao brasileiro essa característica de povo acolhedor e alegre que ele tem e tão única – não sendo reflexo dos portugueses e nem dos negros, sendo uma mistura entre eles, com uma parcela de ajuda dos nativos.

Tem uma hora na leitura que pensamos se há algo sobre o qual ele não fala. Ele explica porque se têm no Brasil tantos sobrenomes repetidos, porque somos tão alegres e receptivos, além de falar sobre a prostituição no Brasil colonial, assim como as crendices, as comidas, os casamentos, etc. Assim, a senzala complementa a casa-grande e desse complemento surge... Nós! Uma coisa interessante que é lembrada várias vezes durante o texto, é a semelhança, segundo o autor, entre a colonização na América Portuguesa e na região que hoje corresponde ao atual sul dos EUA.

Para dar um gostinho das curiosidades contidas no livro, aí vão duas. O brasileiro é conhecido como um povo feliz e bem animado porque, e isso não é segredo para ninguém, tem em seu sangue a descendência dos negros. Pois bem, mesmo os indígenas que aqui já viviam no clima tropical se sentiam mais alegres no frio e na chuva; Freyre fala de relatos que colocam os índios dançando e sorrindo na chuva. O autor relaciona esse prazer dos indígenas aos seus antecedentes que viviam em climas gelados antes de atravessarem o Estreito de Bering. Os portugueses, por sua vez, eram europeus, acostumados com o clima temperado, sentindo-se assim pouco adaptados ao calor tropical. Agora os negros sempre fizeram parte do calor da África, se sentindo mais confortáveis e felizes no calor dos trópicos. É a isso que Gilberto Freyre acusa como sendo o motivo de, principalmente os baianos, serem um povo tão alegre. Para falar a verdade, em todo o texto o clima se apresenta como um fator determinante de comportamento.

Outro aspecto interessante é o motivo mostrado por Freyre para explicar essa predileção que o brasileiro sente por mulatas. Às mulheres brancas eram arranjados casamentos quando ainda eram muito novas. Com 13, 14 anos casavam-se com senhores de 40, 50 e até 60 anos de idade. Assim, muitas morriam no parto por serem muito novas ou então pela precária medicina da época. Muitas crianças viravam órfãs de mães e eram entregues às amas de leite para serem amamentados e cuidados. Esse foi o principal contato entre negros e portugueses para que surgisse essa preferência pela mulata, as palavras amaciadas ditas pelas negras (como iôiô, dodói e nenê) e o ciúmes das mulheres brancas da colônia. Freyre, usando a psicanálise de Freud dá exemplos de casos em que os homens só conseguiam gozar com uma negra e de um casal recentemente casado que, para o homem se excitar, era preciso levar consigo para a cama uma pedaço de roupa de sua mulata amada para sentir seu cheiro.

Enfim, Casa-Grande e Senzala é uma leitura cheia desses detalhes da vida colonial cujos alguns resquícios estão presentes em nossas vidas até hoje.

7 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Qual a comida típica brasileira? fejoada.
Qual a música característica daqui? samba.

Reforçando a questão dos índios e portugueses preferirem os períodos de chuva, enquanto os negros o contrário, atualmente existe uma certa cultura de achar que dia bom é dia de sol, dia de chuva é pra ficar em casa, se puder, claro! hehehe

Mas é engraçado também o preconceito. Sou da cor do Obama, talvez ele seja um pouquinho mais escuro, mas sou mais escuro que o o Hamilton. Para o mundo todo eles são negros, então, eu também seria, mas muita gente diz que não!

Hermes disse...

É um livro muito interessante, que eu não li ainda. Mas que lerei certeza(E enfim, tenho cadeira de antropologia.) Mas não me sinto ainda preparado para lê-lo agora, quero ler quando puder absorver mais do livro.
Essa questão de que a felicidade está no sangue, se você falasse isso para o meu professor de antropologia ele ficaria muito puto. Quando se falam essas coisas para ele como "O futebol está no sangue brasileiro" ele endoida. Já que a cultura não é algo que se adquire geneticamente, e sim culturalmente. Lembro da última prova que ele passou para a gnete, que era uma reportagem do Jornal "O Povo" que falava de um rapaz "cearense" que foi adotado por italianos e levado para Roma quando tinha menos de 1 ano. Na aparência, ele parece um brasileiro mesmo. Mas se ninguém tivesse contado para ele que ele não era italiano, ele nunca saberia. Ele tem o "sangue" de cearense, mas nem fala português, nem come rapadura, tapioca e etc. ainda declara que nada supera a massa e o café italiano.

Hermes disse...

Só para ajeitar, quando eu falei que a cultura de adquire culturamente, ehueha, tava meio doido. Queria dizer "socialmente" e não culturalmente.

Paulo Henrique Passos disse...

É, pelo que você escreveu, parece que o livro não é daqueles exclusivamente acadêmicos; serve até para o público em geral, qualquer pessoa interessada em saber mais sobre nós.

Thiago César disse...

realmente, parece ser um livro muito bom pra kem deseja entender mais as raízes da cultura brasileira.
valew pela dica de leitura!

A moça da flor disse...

Esse livro tá na minha lista de leitura faz algum tempo. Bom... concordo com muito do que o Hermes disse. Me parece um tanto determinista a abordagem, mas nem por isso deixa de ser interessante! Me parece ter muita coisa legal sobre história nele. Ainda não o li por causa da faculdade que me consome quase todo o tempo. --' mas..... férias finalmente, acho que agora dará certo lê-lo!
gosto da forma como vc escreve, vc realmente tem o dom pra fazer sinopses! fiquei realmente com vontade de ler depois de seus comentários!
Beijos!

Don Allan disse...

Esse cara falta de tudo um pouco nesse livro !


Eu acho interessante por que ele diversas vezes relaciona coisas simples com a sexualidade da epoca. =)