sexta-feira, 5 de junho de 2009

O dia em que descobri que estava de greve

As vezes não é preciso ir muito longe para ver na prática algo que estamos estudando. O ruim, e digo pela minha recente experiência, é nos casos em que o objeto estudado não é dos melhores. Não é novidade que as universidades estaduais e federais enfretam constantes greves como meio de reivindicações de inúmeras melhorias. Mas devo aqui juntar meu objeto de estudo e reflexão nas últimas semanas e a situação que encarei ontem na USP.

Como fruto de umas conversas entre colegas da faculdade de história e também de geografia, comecei a pesquisar e refletir se vivemos num regime totalitário sem percebemos. Ainda não tive a oportunidade de procurar boas fontes sobre o assunto, principalmente porque a biblioteca não está funcionando, mas achei bons textos na internet. E também, lendo trechos de livros de Eric Hobsbawn e Fernand Braudel, vi que não é possível eu tirar uma conclusão afirmativa sobre isso, uma vez que só é possível entender algo pelo seu inteiro depois que este se passou. Minhas conclusões de hoje podem sofrer radicais transformações em 10, 20 anos. Mesmo assim, é possível pensar sobre isso.

Por mais que a ditadura e a Guerra Fria tenham acabado, vivemos uma repressão de pensamento por todos os lados. Dizer que temos liberdade de pensamento pode até ser verdade, mas não é em todas as instâncias possível ou cabível demonstrar a própria opnião. A Guerra Fria criou em nossas mentes uma dicotomia. Capitalismo versus Socialismo, certo versus errado, tomar partido ou não tomar partido, ser a favor ou contra... Se abster de uma opnião é necessariamente se colocar em cima do muro e, inevitavelmente, favorecer um dos lados. Essa última, foi o que ouvi de um colega na segunda feira.

Segunda feira a polícia militar invadiu (acho essa palavra um tanto quanto perigosa, pois eles não apareceram do nada. Foram chamados e estavam lá cumprindo ordens, e não fazendo o que bem entendiam em razão de motivos próprios) o campus da USP; mantendo-se em frente a reitoria para que uma invasão ou piquete (e dessa vez a uso num sentido mais específico: entrar em favor de interesses próprios ou de um grupo pequeno) de qualquer esfera (funcionários e alunos) não ocorresse.

Oras, o que eu não entendi foi o tamanho alarde em relação a isto. Na USP há vendas e consumo de drogas, bebidas alcoolicas, são delatados roubos e até estupros no campus. Tudo isso pode e a polícia não? Por que eu não vejo uma mobilização contra a falta de policiamento (que irônico, não?) para que não ocorra mais eventos desse tipo? Sinceramente, a segurança no campus é precária, ainda mais sem o circular. Tenho uma amiga que perde o final da aula todo dia para não ir até a estação no escuro. Além do mais, a presença da polícia lá foi apenas uma resposta da invasão da reitoria que ocorreu na semana anterior que, atraves de atos de vandalismo, trouxe um grande prejuízo para a universidade.

Se a polícia representa uma força repressiva de um lado, por outro me entristeceu ver a repressão por parte dos próprios alunos, que tanto lutam contra isso, no próprio prédio da história e da geografia. Ao impedir o acesso às salas de aula com barricadas de cadeira é deslegitimar qualquer movimento estudantil, pois se mostra como pertencente de um grupo que está longe de ser a maioria (nenhum professor, acredito, daria aula para 3 ou 5 alunos na sala de aula).

Infelizmente, o que tanto pesquisei nas últimas semanas sobre totalitarismo ficou mais que evidente de uma forma bastante concreta ontem. Por um lado, os alunos reclamavam da repressão dos policiais que estavam parados em frente a reitoria, e por outro esses mesmos alunos colocavam medo em qualquer um que sequer pensasse em atravessar a barricada.

8 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Gi, gosto de acompanhar as coisas de SP e a polícia daí é conhecida como muito coercitiva, quando se trata de manifestação trabalhista ou estudantil. Por mais que ela tenha ficado parada, o histórico dela já compromete muito, então, todos já ficam ressabiados.

Quanto a atitudes dos alunos, as vezes nao nos damos conta, mas movimento estudantil sempre foram minorias dos estudantes. No período da ditadura, poucos eram os que se rebelavam contra o regime militar, mas, como não estudamos os que apoiavam, não sabemos deles. E, sempre utilizaram desses tipos de medidas para conseguir o que querem...

CA Ribeiro Neto disse...
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Cauê disse...

Como disse, e acertei, suas interpretações mudaram bastante desde o post "Greve!?", haha!. Agora você já sabe que a presença da polícia tem uma conotação maior do que a gente pensava no início, ao entrar na faculdade. Sim, há situações um tanto quanto constrangedoras nos meandros da USP, mas PMs não são bem-vindos lá. O histórico deles dentro da USP não é dos melhores. A repressão sempre foi muito grande.
Lembro-me de ontem ter conversado com um amigo enxadrista, já antigo na USP, que está fazendo mestrado na Letras, e que não parece participar de movimentações estudantis ativamente. Sobre a invasão da polícia na FFLCH ele disse: "Se foi um aluno quem chamou a polícia, ele não conhece a história da polícia na USP". Acho que isso é bastante explicativo, pois não é só opinião dele lá na USP. Muitos têm a mesma opinião.

Lorenzo Tozzi disse...

acho que nossos posts convergem para os mesmos questionamentos: alcance da greve e a polícia. discordamos nalguns pontos, o que é bastante natural, mas acho que podemos muito bem ser usados como parâmetro para que se compreenda essa greve numa visão para além dos que nela militam.

seu blog está bastante interessante. você focará somente nas questões da nossa faculdade? um beijo!

Lorenzo Tozzi disse...

poxa! obrigado!

a foto é minha sim.

Don Allan disse...
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Don Allan disse...
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Don Allan disse...

Nossa constituição defende o direito de ir e vir do cidadão honesto. Um estudante, perante a lei, provavelmente é honesto. Um professor, perante a lei, provavelmente é honesto. Como um grupo de pessoas, com barricadas e piquetes, bloqueiam a entrada de prédios de estudo à professores e alunos que não aderiram a causa deles ? Nem todos queriam estar em greve, e nem todos deveriam. Afinal, por uma democracia muitos lutaram, e em qualquer movimento estudantil, a democracia deve ser respeitada.

E greve é uma coisa. Reindivicar direitos e melhorias. Oka, normal. Mas quebrar coisas não é greve, é vandalismo. Depredar patrimonio publico não é greve, é crime. Tendo em vista isso, não é de se admirar que a PM tenha sido chamada. Ia esperar o que ? Esse movimento queimar algum prédio ?

Que façam greve por melhorias na infraestrutura da universidade, dos prédios e do próprio corpo docente. Que façam greve por segurança, sendo que a presença da policia, nesse quesito, é fundamental.