sábado, 16 de maio de 2009

Determinismo cultural?

Esse post é dedicado ao meu namorado, porque por mais de uma vez discutimos esse assunto e nunca entramos em um consenso! Podemos falar de um determinismo cultural? O homem é um ser instintivo ou cultural? Para qual dos lados ele tende mais?

No livro Cultura: um conceito antropológico, Roques de Barros Laraia discute esse tema. É comum falarmos em instinto de conservação, maternal, filial, sexual, etc. Mas o autor rebate todas essas afirmações com exemplos de práticas culturais de diferentes povos ao redor do mundo.

Como falar em instinto de conservação quando lembramos das façanhas dos kamikases japoneses? Se o instinto se sobreposse as heranças culturais, impossível seriam os encontros das aeronaves japonesas e norte-americanas. O mesmo se pode falar sobre os homens-bombas do Oriente Médio.
Como falar em instinto materno quando sabemos que o infanticídio é uma prática comum para certos grupos humanos? As mulheres da Tapirapé, tribo Tupi do norte do Mato Grosso, sem conhecer nenhum método anticoncepcional são obrigadas a sacrificar todos os seus filhos após o terceiro. Um exemplo mais conhecido, que acredito que todos já viram alguma vez na escola, são os espartanos. Diante de uma análise física, a criança passa por um teste para saber suas condições de se tornar um grande guerreiro e, se reprovada, é jogada de um precipício.
Como falar em instinto filial se os esquimós conduziam seus velhos pais para as planícies geladas para serem devorados pelos ursos? Assim faziam porque acreditavam que o mesmo seria reincorporado pela tribo quando o urso fosse abatido e devorado pela comunidade.
Como falar em instinto sexual se muitos são os casos conhecidos de adolescentes, crescidos em contextos puritanos, que desconheciam completamente como agir em relação aos membros do outro sexo?

Mas ainda sim, é possível dizer que o homem é resultado do meio cultural em que foi socializado? E aqueles casos de assassinato por vingança? Não seria um instinto vingativo? As vezes não, é claro. Uma vez li um artigo dizendo que após a queda do Regime Militar, as pessoas descrentes da eficácia da justiça do governo aprenderam a fazer ''justiça com as próprias mãos''.

Quando duas irmãs foram encontradas no ínicio do século XX, Kamala e Amala tinham oito e cinco anos e não sabiam rir, chorar, falar, seus rostos não emitiam nenhum som, sabiam andar rapidamente de quatro, tinham hábitos noturnos e preferiam a companhia de lobos e cachorros, afastando-se de humanos. Ao serem encontradas e separadas de sua matilha (?), a tristeza levou uma delas a morte.

Acho que esse contexto de colocar o homem como um ser cultural e não instintivo faz juz , em parte, a frase de Marx: "A consciência é, portanto, desde o início, um produto social, e continua a sê-lo enquanto houver homens."

6 comentários:

allan_leonheart disse...

É um caso muito interessante o dessas meninas, e até perturbador.

Mesmo assim, eu acho que o homem é basicamente instintivo, mas só muda a forma pelo qual ele tenta atingir seus objetivos.Nunca ouvi falar em um povo ateu, tendo todos alguma espécia de religião interfirindo no cotidiano, sempre querendo relacionar-se com o "outro mundo" de alguma forma.



E, o ocorrido com as meninas é uma coisa que deve ser analisada sob outros olhos; é uma excessão. O homem não vive entre lobos, e sim entre outros homens. Analisando estas meninas, estariamos analisando o comportante de lobos, e não de seres humanos.

CA Ribeiro Neto disse...

Eu concordo com você, Gi! Acho que o ser humano já foi instintivo, mas de acordo que a capacidade de raciocínio aumentou, ele perdeu o instinto. Entendo isso como uma proporção matemática mesmo: quanto mais se raciocina, menos instinto tem!

Adorei você citar Marx no finzinho... ehurheurhuehruh

Gi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gi disse...

eu sabia que vc não concordaria comigo, allan!!!

o caso das meninas lobo pode ser considerado como excessão? quando estava pesquisando na internet o nome e a idade delas, achei outros exemplos muito parecidos de crianças sendo criadas por animais e cujo comportamente diferia totalmente de um ser humano social.

Além do mais, e todos os outros exemplos citados por Barros Laraia: os kamikases, as índias Tapirapé...?

Não sei muito bem como a não-existência conhecido de um povo naturalmente ateu pode reforçar essa tese do homem instintivo... vc diz que é instinto do homem, como animal, procurar divindades e ajuda espiritual? Acho que não, ao contrário seria comum ver cachorros, gatos e crocodilos fazendo oferendas e rezando a Deus.

Acho que esse contato espiritual que o ser humano procura, vem de ambas as coisas: a existência de um Deus e mais a sua cultura, pq cada povo pratica rituais diferentes para (no fundo) a mesma coisa.

Hermes disse...

Concordo contigo Gi, que o homem é muito mais cultural do que instintivo. Claro que ainda tem instintos! Mas eles são controlados ou reprimidos pela cultura, porém se você retrair muito algo instintivo e natural, algum dia isso vai vim a tona e não conseguirá controlar. É o caso da fome, se o homem estiver dias e dias sem comer ele vai tomar alguma atitude drástica, e em geral, bastante instintiva.
O caso que você citou é conhecido, até inspirou para fazer "O menino lobo" e "Tarzan" e é verdade que tem várias coisas parecidos, o que só reforça a afirmação que somos culturais.

Paulo Henrique Passos disse...

Realmente a cultura é determinante nas nossas ações e apaga os instintos, ainda mais numa cultura como a nossa (ocidental), que prioriza e apregoa a razão.