quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um caso verídico

O português Francisco Gomes Henriques, na década de 1650, foi perseguido pela Inquisição. Era mercador de trato grosso, importava açúcar do Brasil, investira seis mil cruzados na Companhia Geral do Comércio do Brasil e emprestava dinheiro. Tinha dois filhos, do qual um deles morava em Roma sendo um dos mais alto dignatário eclesiástico, com o título de monsenhor e protegido do Papa.
Entre seus antecedentes conta que interveio como testemunha de defesa no processo de Duarte da Silva (cuja história renderia um outro post) e disso surgiu seu ódio dos Inquisidores. E assim, foi preso sob a acusação de falso testemunho. Forra-gaitas (como também era conhecido) era solto de língua, confiado e imprudente. Sentia as costas quentes. Os Inquisidores não tinham contra ele senão a denúncia de falso testemunho e o Forra-gaitas confiava na proteção dos amigos e até do Papa, por intermédio do filho monsenhor. Mas ele nada fez do que subestimar os Inquisidores, que para obter matéria de acusação grave, introduziram no cárcere junto ao réu sucessivos espiões. E com todos eles o Forra-gaitas desafogou seu coração.
De todas suas declarações ressalta sobretudo um profundo ódio aos Inquisidores, dos quais acusava de práticas gananciosas a custa de acusações falsas a pessoas inocentes e, entre elas, ricas; e os espiões insinuavam, no meio destas declarações exaltadas, alguns indícios, bem vagos, de crença judaica. Tal era a confiança do réu nestes seus companheiros que lhes confiava cartas para entregarem a um filho também preso; cartas que, naturalmente, iam parar às mãos dos Inquisidores. Além destes epiões, os Inquisodores puseram a vítima sob a vigilância dos guardas para obterem a prova de que praticava o jejum judaico.
Em Novembro de 1654, o Forra-gaitas foi notificado da sentença que o condenava à morte. Tentou ele apelar para o Papa, mas o Conselho-geral da Inquisição indeferiu seu requerimento. Nas vésperas da morte, Forra-gaitas escreveu uma longa carta à família e especialmente à mulher - "Luz e lume dos meus olhos, minha companheira de perto de 50 anos, ficai-vos embora, pois que Nosso Senhor Jesus Cristo não foi servido que morresse nos vossos braços e nos de meus filhos." E continua - "A todos vós, filhos da minha alma e netos, não vos esqueça a devoção de Nossa Senhora da Glória, pois é de tantos anos e de devoção aos pobres que vinham essa casa, para que Deus se lembre de minha alma." Dessa forma, o condenado por Judaísmo, à hora da morte, não só invoca Nosso Senhor Jesus Cristo, como se mostra devoto da Virgem Nossa Senhora da Glória.
O Forra-gaitas contava chegar clandestinamente essa carta ao seu destino por intermédio de um companheiro de cárcere, no qual confiava ao ponto de, na mesma carta, o recomendar vivamente à mulher, pedindo-lhe que, no caso de este seu "amigo" sair em liberdade, lhe prover tudo o que fosse necessário. Mas o homem que assim soube insinuar-se na gratidão e na afeição do velho Forra-gaitas pôs a carta nas mãos dos senhores Inquisidores. A família nunca a recebeu e os Inquisidores sabiam que o condenado à morte era cristão, e até devoto de Nossa Senhora da Glória... E guardaram a prova no arquivo secreto.


Para quem acha a Inquisição um assunto bastante interessante a ser estudado, vale a pena ler Inquisição e Cristãos-Novos de Antônio José Saraiva, de onde eu tirei esse trecho. Ele conta outros dois casos de provas forjadas contra cristãos que foram condenados à morte por praticarem atitudes judaicas. Além disso, o livro trata dos judeus na Península Ibérica durante a Inquisição de uma forma simples e direta.

Um comentário:

allan_leonheart disse...

Chega a ser um pouco triste o papel de um historiador. Caso alguns homens não fossem tão gananciosos, algumas cartas como estas não seria lidas nos dias de hoje, depois de tanto tempo...