quinta-feira, 30 de abril de 2009

Palmas para São Paulo!

Sem querer ser paranóica mas... ficar uma semana sem postar é um indício de abandono de blog. Espero do fundo do coração que eu esteja errada, afinal, dentre tantas outras coisas boas que o blog me traz como sendo um meio de registro, acabo também lendo coisas muito interessantes em outros diários virtuais; e estou começando a achar que visitar esse novo mundo é melhor do que ficar procurando coisa em orkut pra ler: entre 10 comunidades visitadas, somente 2 fizeram valer a pena a procura.

Hoje estava voltando da USP no trânsito de São Paulo e pela janela do ônibus reparei nas luzinhas dos faróis dos carros nas avenidas no escuro da noite recém chegada. Confesso que amo a cidade de São Paulo. Não moro lá, mas agora com essa minha nova rotina, virou minha segunda casa. É uma cidade linda. O mundo inteiro cabe nela: facilmente se encontram japoneses, koreanos, italianos, alemães, chineses, nordestinos e oriundos das outras regiões deste imenso Brasil, espanhóis... e todos num lugar específico, geralmente bairros (mas nem sempre) que adquirem as características próprias destas culturas singulares.

Além disso, quem nunca ouviu falar da Estação da Luz, da Universidade de São Paulo, do Mercado Municipal (vulgo mercadão), do Bairro da Bixiga, da 25 de Março(!!!)...?

Tenho orgulho de morar do ABC Paulista, região metropolitana do estado São Paulo, tão perto da capital mas ao mesmo tempo um pouco distante, o que de certa forma mantém uma certa paz. O problema de São Paulo é que por se tratar de uma cidade tão grande, abrangente, populosa e moderna (não há de negar sua proximidade com as grandes capitais mundiais) seus problemas tornam-se tão complexos quanto sua riqueza de diversidade cultural, econômica e social. E, consequentemente, os meios de resolvê-los tornam-se um outro problema.

Apesar das enchentes, da violência, da corrupção, do lixo, do trânsito... vejo também o lado bom de São Paulo. Estudá-la é estudar um pouquinho do mundo inteiro, tanto em sua história quanto em seus aspectos atuais. Final de semana agora tem virada cultural, infelizmente não poderei ir mas parabéns a quem teve essa iniciativa de divulgação de arte de graça e de uma maneira divertida! Quem vai à virada não fica um minuto sequer dessas 24 horas sem ter o que fazer, pelo contrário: é muita coisa para pouco tempo!

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Teste da Veja

Realmente não queria postar num mesmo dia, mas eu tenho que registrar isso para sempre que quiser dar umas gargalhadas eu ter o que ver!!

Teste Politícometro da Veja

Meu resultado foi: Você está na esquerda moderada antiliberal. Acredita que o estado deve ter muita ingerência sobre a economia e admite restrições à liberdade individual.

Seria tão bom se as escolhas políticas fossem tão fáceis assim. Dispensaríamos horas de leitura e estudo por um simples teste virtual. Se alguém além de mim e do meu namorado ler isso e fizer o teste, peço que comente com o resultado!!! Típico de correntes de e-mail, não?

O Tempo

Parece um pouco estranho falar sobre o tempo. É algo tão abstrato mas que está presente em todos os apectos de qualquer ser vivo. Primeiramente poderíamos nos perguntar: qual o sentido em estudar o tempo sendo ele nada importante para os animais que não sejam os seres humanos? Pois bem, o ser humano é o único animal que pára para pensar no tempo e o problematiza. Mas ainda dentro desse grupo tão numeroso, há as comunidades que consideram o tempo como cíclico e por isso não há motivo de querer problematizá-lo criando métodos de contagem e registros dos acontecimentos para gerações futuras... Porque tudo se repete.

O curioso é que já foi comprovado que a escrita não surgiu unicamente num lugar e depois se irradiou. Pelo contrário, ela foi surgindo em diferentes lugares sem necessariamente algum contato com outros povos e culturas que já haviam inventado a escrita. E essas sociedades são justamente aquelas que problematizavam o tempo e assim, acharam uma forma de registrar acontecimentos e pensamentos, que pudessem se exteriorizar da memória humana, para as futuras gerações. Mas como sempre, há também excessões, e existe aquelas sociedades que problematizam o tempo e mesmo assim não têm escrita: elas guardam a memória de si na mente de alguém do grupo, que passa sempre para a outra geração todo o conhecimento histórico que tem e assim sucessivamente. Assim como a sociedade Inca, cujos domínios eram de considerável tamanho, era uma sociedade complexa e mesmo assim não possuem numerosos registros escritos.

Outro ponto discutido na aula de quinta-feira em Metodologia da Historia que me chamou a atenção foi a multiplicidade de faces que o tempo tem. Será clichê eu dizer que o tempo é relativo, mas é mesmo. Diante de mudanças políticas o tempo é curto. Tudo acontece ao mesmo tempo e as informações também são transmitidas ao mesmo tempo em que acontecem (privilégio de nossa geração); dois dias sem me informar sobre o senado, a câmara, o presidente e outros, já me sinto desinformada e um pouco deslocada da realidade política de tanto que certos aspectos mudaram. Em uma guerra o tempo torna-se médio, lentamente ritmado. Tudo muda constamente mas ao mesmo tempo ela perdura por um certo período as vezes maior do que outros. Ou, ao contrário da história factual política, cujos acontecimentos são muito mais individuais, numa guerra o domínio de responsabilidades coletivas têm um peso muito maior. Finalmente, há também o tempo lento que torna a história quase que imóvel. O homem não consegue acompanhar as mudanças geográficas que acontecem ao seu redor, nem a evoluação das espécies. Acontecimentos como estes são imperceptíveis ao ser humano.

Diante disso, o historiador se assume na tarefa de articular todas essas faces do tempo levando em consideração suas particularidades e o objeto/tema a ser estudado. Só mais uma coisa: adorei a aula de ontem!

sábado, 18 de abril de 2009

Para fugir um pouco de História



Primeiro não achei que veria os quase 9 minutos de vídeo; mas vi tudo, chorei demais e amei! É claro que o vídeo não serve apenas para a raça rottweiler, mas para todas. Apesar de eu estudar uma ciência que estuda o homem em sociedade, as vezes eu o vejo como um animal deplorável, digno de pena e ódio.
Não sei se eu que sou tonta demais ou os outros que são ruins demais. Só sei que deixei de assistir programas e vídeos, tanto na internet quanto na TV, que mostram maus tratos aos animais de tanto que eu choro. Como podem? É realmente algo que não consigo entender. Para que? Para se sentir superior, forte? Não sei como que judiar, as vezes matar, pode fazer um ser humano se sentir assim. Deveriam se sentir cada vez menos humanos.
O vídeo pode ser da raça de rottweiler, mas isso se dá para qualquer animal. Quem nunca recebeu aquele email que denuncia a matança de focas (não sei agora onde) e mostra o gelo vermelho de tanto sangue? Eu sei que é uma idéia um tanto quanto utópica, mas deveria ser feita uma seleção de donos quando fossem comprar cães, igual se fazem com famílias que desejam adotar crianças.
Essa semana assisti um filme cujo protagonista dizia que porcos eram mais dignos que seres humanos. Talvez isso tenha um fundo de verdade. Suponho que o homem seja o animal mais dual que exista. Existem os que devem ser vistos como exemplos de vida e outros que me fazem sentir vergonha de pertencerem a mesma espécie.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Briga!

Ok. Muito bom. Ontem a professora deixou claro que o que ela não quer é uma monografia, mas sim um projeto de pesquisa. Ou seja, Ibérica - Parte I foi um tanto inútil, não completamente (porque está sendo útil para o projeto), mas todos meus apontamentos e fichamentos foi sim! ò.ó
Não ficarei decepcionada, nem frustrada; afinal, meu comentador assíduo leu meu tópico e não fez dele uma total perda de tempo. Te amo!

Ontem algo muito curioso aconteceu nos corredores da FFLCH: dois rapazes conhecidos como Fininho e Corvo se pegaram no tapa. O motivo especificamente eu não sei, mas o Fininho é um revolucionário que se vê com a missão de acabar com os bolchevistas da FFLCH e, com isso, tem arranjado brigas pelo orkut com metade dos alunos fflchianos que culminou ontem com uma briga física. Com isso ele deixou de ser tão defensor da Guerra Fria. Quem quiser saber mais, não se fala em outra coisa na comunidade FFLCH - USP. O que sinceramente espero é que essa história não acabe com esse psicótico entrando no prédio com uma metralhadora querendo matar todos alunos e professores de esquerda. Vai que uma bala perdida me acerte!
Enfim, precária essa briga infantil baseada em ideologia política ainda obscura para esses rapazes que acham que sabem tudo. Por isso que concordo com um outro rapaz que disse a Fininho para entrar na faculdade com humildade, ler os textos que os professores mandarem para que com mais maturidade e conhecimento possa defender seja lá com o que ele mais se identificar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ibérica - 1° parte

Visando facilitar meu trabalho de História Ibérica I, irei postando aos poucos, tudo o que eu achar importante para a formatação de minha pequena monografia. Com isso, ao término das pesquisas, terei um conjunto de posts sobre um mesmo assunto que não deixará eu esquecer informações cruciais. O trabalho se trata sobre as políticas tomadas por D. João II e, posteriormente, por D. Manuel I, ambos reis de Portugal, diante de uma massa de judeus expulsos da Espanha pela Inquisição que lá já havia se instituído. Nesse post, tudo que será dito, foi baseado na leitura dos primeiros capítulos do livro Inquisição e Cristãos-Novos de Antônio José Saraiva.

A Inquisição significou a aliança entre o poder monárquico e a Igreja, que agiu de maneiras diferentes em cada nação em que se instituiu. Os judeus, por exemplo, é um problema exclusivamente ibérico (região na qual coexistiram três religiões por muito tempo: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo); apesar de ocuparem papel de destaque na economia espanhola e, principalmente, portuguesa. Isso pode ser um indício de que a população cristã sofria um atraso econômico e social nessa parte da Europa: a burguesia cristã não tinha condições de enfrentar, muito menos substituir, a burguesia judaica.
Os judeus também exerciam importante função social. Apesar de serem protegidos pelos reis, permaneciam às margens da sociedade: eram eles quem praticavam a usura, cobravam impostos, e viviam entre os cristãos para não esquecerem que pertenciam à linhagem que crucificou Jesus Cristo. Assim, desde a Idade Média, os judeus foram considerados como estranhos que não se misturavam, como um povo reservado e quieto que culminou com o famoso Holocausto no século XX.
Diante de tudo isso, a perseguição aos judeus na Espanha começa em 1391, em 1449 é feita a primeira lei de "limpeza de sangue", em 1478 os Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela) instituem a Inquisição em Castela e, finalmente, em 1491 é ordenada a expulsão dos judeus num prazo de 4 meses, muitos dos quais, se dirigem à Portugal. Esta, cobrou impostos de recebimento, um pouco menor para judeus que realizavam determinados trabalhos manuais com ferro, na promessa que dentro de um determinado prazo seria lhes dado um navio para irem onde quisessem. Bom, ao final desse prazo, uma parte embarcou para o norte da África e a que ficou foi reduzida à escravidão, vendida ou doada pelo rei Dom João II.
Em 1495, Dom Manuel restitui a liberdade aos judeus, mas logo depois, em condição de casamento, dá um prazo de mais de 10 meses (em contraposição a Espanha, que deu um prazo de 4 meses) para a expulsão dos judeus de Portugal. Durante esse período, D. Manuel separou as crianças menores de 14 anos de suas famílias para serem criadas por famílias cristãs e isenta de qualquer acusação religiosa o povo judeu. No dia da expulsão, quando estavam no porto, um bando de frades, jogou água sobre os judeus e assim os batizaram à força. Diante disso, poucos conseguem embarcar.
A partir disso, D. Manuel cria políticas de integração entre os cristãos-velhos e os cristãos-novos (judeus que foram batizados), além de prorrogar o tempo de proibição de acusações de práticas judaicas, proibir a emigração de cristãos-novos e criar leis que acabassem com a discrminação. Dom Manuel parece assim um rei muito bonzinho, mas na verdade ele nada mais é do que bastante maquiavélico. Proibiu as emigrações porque os reis da Espanha queriam os cristãos novos de volta e, em 1515, em resposta ao Rei da Espanha, pede ao seu correspondente em Roma para que peça ao Papa para instituir uma Inquisição em Portugal alegando que os cristãos-novos da Espanha estavam sendo um mau exemplo aos cristãos-novos portugueses por praticarem o judaísmo escondido e agirem como rebeldes.
Ao término de seu reinado, a Inquisição ainda não havia sido instituida em Portugal e conforme o que pretendia sua legislação, houve uma assimilação dos antigo povo judeu como cristãos pelos portugueses (comprovado pelos inúmeros casamentos entre cristãos-novos e velhos)

domingo, 12 de abril de 2009

Eu amo tudo o que foi

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa
1931

Como meu príncipe me fala, se não fosse tudo o que aconteceu, possivelmente não teríamos nos encontrado, e mesmo que tivessemos nos encontrado, capaz que tudo o que aconteceu entre agente (que foi simplesmente perfeito) não teria acontecido como ocorreu. Por isso que eu amo tudo o que foi e, principalmente, a dor que já não me dói.

Além disso, constantemente me descubro um pouco mais, e me amo apesar de todos os meus defeitos. E assim, a antiga e errônea fé se transforma numa nova e certa fé!

Feliz Páscoa à todos. Não sou uma pessoa muito comemorativa, mas desejo que todos possam comer chocolates. Afinal, essa é o único momento do ano que podemos passar mal de tanto comer chocolate e ainda engordar e ser vítima de um ataque de espinhas em conjunto, portanto, ninguém julga ninguém.

Eu adoro a língua portuguesa. Não porque me dou bem com as regras da gramática, nem porque sempre tive boas notas nessa disciplina. Mas porque não é uma língua técnica. Ela é complexa, sonora e propícia a bons poemas e lindas poesias.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O que? Professor?

Ultimamente tenho refletido muito sobre meu futuro após a graduação. Nós sempre fazemos planos de onde e como queremos trabalhar quando terminarmos a faculdade, mas no meu caso, agora que entrei na graduação, as coisas parecem um pouco diferentes e meus planos, consequentemente, têm mudado.
Primeiro, li uma confissão de um historiador que trabalha intimamente com a arqueologia de como é sua rotina de trabalho. Confesso que era essa a linha que queria seguir: estar sempre viajando, vivendo (quase sempre) como Indiana Jones, conhecer lugares maravilhosos e, consequentemente, muitas pessoas diferentes e interessantes. Mas como tudo tem um preço, a vida de um arqueólogo dedicado custa meses fora de casa, longe da família, namorado, amigos... E as vezes, algumas coisas têm que ser sacrificadas, como um relacionamento amoroso e algumas outras relações que acabam se desfazendo pela falta ou pelo pouco contato existente.
Segundo ponto: após algumas orientações de alguém muito experiente e que admiro muito, meu professor, que não me dá mais aula, mas será eternamente meu professor, disse-me que seguindo essas orientações estarei sempre a frente dos meus colegas de classe.
Bom, vivi o ano passado numa intensa competitividade que em alguns momentos me fazia mal (ano de vestibular é terrível e é algo que não desejo à ninguém). Já me disseram que a partir dessa etapa da vida tudo vira uma competição tanto na graduação quanto no trabalho, principalmente. Mas será que eu não poderia amenizar um pouco disso na minha vida ao invés de torná-la uma competição acirrada de vida ou morte?
Depois desses dois acontecimentos, refleti muito sobre minha futura área de atuação como historiadora. Acho que eu mesma tinha um certo preconceito com a licenciatura. Desde a oitava série, quando dizia às pessoas que queria cursar História, todas perguntavam num tom de desdém: ''Para que? Para dar aula?" e eu, para mostrar que historiador tem um campo de atuação muito mais amplo, dizia que NÃO!, que trabalharia como uma cientista em campo, ou seja, como uma arqueóloga, sendo que eu nem sabia direito o que era isso.
Agora, eu digo "Sim! Para dar aula! Um grande problema nos brasileiros é não valorizar seus mestres e, consequentemente, desvalorizar essa profissão de imensa responsabilidade e repercussão. Foi um professor que me influenciou em minha decisão e agora estou na USP, se eu puder mudar a vida de um único aluno assim como ele mudou a minha, imensamente feliz eu ficaria."
Além de me formar e fazer uma pós-graduação, quero cultivar a relação que tenho com a minha família e também quero me casar. Já achei meu príncipe encantado e não quero sacrificar essa felicidade imensa que tenho graças as relações interpessoais que eu possuo em troca de uma carreira super bem sucedida.
Nunca pretendi ser rica! Como diz alguns professores meus, se nós (alunos) pretendessemos isso, não estaríamos cursando História. Estou nesse curso porque eu gosto de ler, porque o historiador de tudo sabe um pouco e isso eu admiro muito nessa profissão. Darei aula sim! E durante o curso, tentarei sempre ser uma ótima aluna, sempre tirando boas notas e adquirindo o maior conhecimento possível durante a graduação, mas não farei dela uma competição; porque quando terminá-la quero me casar! Aliás, quero ser feliz... Melhor dizendo, continuar a ser tão feliz como eu sou agora.
Quem sabe todas as brincadeiras de escolinha na qual fiz parte valha alguma coisa!
obs: eu sempre era a professora!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um caso verídico

O português Francisco Gomes Henriques, na década de 1650, foi perseguido pela Inquisição. Era mercador de trato grosso, importava açúcar do Brasil, investira seis mil cruzados na Companhia Geral do Comércio do Brasil e emprestava dinheiro. Tinha dois filhos, do qual um deles morava em Roma sendo um dos mais alto dignatário eclesiástico, com o título de monsenhor e protegido do Papa.
Entre seus antecedentes conta que interveio como testemunha de defesa no processo de Duarte da Silva (cuja história renderia um outro post) e disso surgiu seu ódio dos Inquisidores. E assim, foi preso sob a acusação de falso testemunho. Forra-gaitas (como também era conhecido) era solto de língua, confiado e imprudente. Sentia as costas quentes. Os Inquisidores não tinham contra ele senão a denúncia de falso testemunho e o Forra-gaitas confiava na proteção dos amigos e até do Papa, por intermédio do filho monsenhor. Mas ele nada fez do que subestimar os Inquisidores, que para obter matéria de acusação grave, introduziram no cárcere junto ao réu sucessivos espiões. E com todos eles o Forra-gaitas desafogou seu coração.
De todas suas declarações ressalta sobretudo um profundo ódio aos Inquisidores, dos quais acusava de práticas gananciosas a custa de acusações falsas a pessoas inocentes e, entre elas, ricas; e os espiões insinuavam, no meio destas declarações exaltadas, alguns indícios, bem vagos, de crença judaica. Tal era a confiança do réu nestes seus companheiros que lhes confiava cartas para entregarem a um filho também preso; cartas que, naturalmente, iam parar às mãos dos Inquisidores. Além destes epiões, os Inquisodores puseram a vítima sob a vigilância dos guardas para obterem a prova de que praticava o jejum judaico.
Em Novembro de 1654, o Forra-gaitas foi notificado da sentença que o condenava à morte. Tentou ele apelar para o Papa, mas o Conselho-geral da Inquisição indeferiu seu requerimento. Nas vésperas da morte, Forra-gaitas escreveu uma longa carta à família e especialmente à mulher - "Luz e lume dos meus olhos, minha companheira de perto de 50 anos, ficai-vos embora, pois que Nosso Senhor Jesus Cristo não foi servido que morresse nos vossos braços e nos de meus filhos." E continua - "A todos vós, filhos da minha alma e netos, não vos esqueça a devoção de Nossa Senhora da Glória, pois é de tantos anos e de devoção aos pobres que vinham essa casa, para que Deus se lembre de minha alma." Dessa forma, o condenado por Judaísmo, à hora da morte, não só invoca Nosso Senhor Jesus Cristo, como se mostra devoto da Virgem Nossa Senhora da Glória.
O Forra-gaitas contava chegar clandestinamente essa carta ao seu destino por intermédio de um companheiro de cárcere, no qual confiava ao ponto de, na mesma carta, o recomendar vivamente à mulher, pedindo-lhe que, no caso de este seu "amigo" sair em liberdade, lhe prover tudo o que fosse necessário. Mas o homem que assim soube insinuar-se na gratidão e na afeição do velho Forra-gaitas pôs a carta nas mãos dos senhores Inquisidores. A família nunca a recebeu e os Inquisidores sabiam que o condenado à morte era cristão, e até devoto de Nossa Senhora da Glória... E guardaram a prova no arquivo secreto.


Para quem acha a Inquisição um assunto bastante interessante a ser estudado, vale a pena ler Inquisição e Cristãos-Novos de Antônio José Saraiva, de onde eu tirei esse trecho. Ele conta outros dois casos de provas forjadas contra cristãos que foram condenados à morte por praticarem atitudes judaicas. Além disso, o livro trata dos judeus na Península Ibérica durante a Inquisição de uma forma simples e direta.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Para que estudar história?

Quarta-feira estava lendo um texto para a prova que tive ontem que me faz parar e pensar ''é por isso que faço História!!!"
Você já pensou em acordar e não lembrar de nada? O que é um homem sem memória? Viver 50, 60, as vezes 70 anos ou mais e gradualmente ir perdendo a memória. O que seria se todos os livros de História e qualquer vestígio para o estudo historiográfico do mundo sumisse, desaparecesse? O que seria da civilização sem sua História? Talvez alguns possa dizer que não faria diferença, afinal, vive-se muito bem (ou não) sem saber nada de história do mundo.
Mas assim como um homem perderia sua identidade, sua referência no mundo, o mesmo aconteceria com as civilizações; estas perderiam suas características e referências num contexto mundial. A História se refaz, ela constantemente muda, mas nunca deixa de existir, porque querendo ou não, ela muda o rumo da História que estamos fazendo todos os dias. Mas como diz Carl Becker (e eu concordo inteiramente) é que o tipo de História mais influente na vida em comunidade e no curso dos acontecimentos é a História que os 'homens comuns' levam em suas mentes. Homens comuns, neste caso, seriam todos aqueles, que não estudam História propriamente dita, mas nem por isso deixam de carregar um grande conteúdo desta em suas mentes, a ponto de poderem realizar grandes mudanças.
Além dessa importância da História como fator de identidade própria, há uma outra outra passagem de 'O que são fatos históricos' de Carl Becker no qual eu gostaria de fazer uma ressalva. Ele diz assim: "O conhecimento histórico, embora ricamente armazenado em livros ou nas mentes dos professores de história, não é bom para mim a não ser que eu tenha um pouco dele. [...], não sei física, mas aproveito algumas pesquisas físicas todas as noites pelo simples fato de apertar o botão que acende a luz elétrica. E, dessa forma, todos podem tirar proveito das pesquisas da física sem saber nada de física..." Mais um motivo pelo qual eu faço História e isso fez eu refletir se isso não faz de mim uma pessoa egoísta. Estudo História mas esse conhecimento só influencia a mim, enquanto que outras ciências podem facilitar minha vida sem eu mesma sabê-la.
Talvez seja por isso, que Becker esteja um pouco decepcionado, não digo com a História, mas com seu nível de influência aos 'homens comuns'. Escrito em 1926, após a 1° e anterior a 2° Guerra Mundial portanto, Becker se mostra triste pela pesquisa histórica não ter sido tão influente quanto as pesquisas científicas foram ao longo do século XIX. E assim, enquanto esta provocou meios eficientes de provocar uma guerra horrorosa, aquela pouco fez para evitar esse infortúnio (ou desgraça) mundial.
"Certamente cem anos de pesquisa histórica de peritos nada fizeram para evitar a Guerra Mundial, a exibição mais fútil de insensatez, em tudo e por tudo, jamais feita pela sociedade civilizada. Governos e pessoas lançaram-se a essa guerra com uma estupidez enorme, com um fanatismo imenso, com uma capacidade ímpar de iludir a si mesmos e aos outros. Não estou dizendo que a pesquisa histórica é uma censura à Guerra Mundial. Estou dizendo que ela teve pouca ou nenhuma influência sobre ela, de uma forma ou de outra."