quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O melhor presente ever

Há livros que ficam na história. Na nossa história. Na história particular, individual de cada um. São aqueles que nos fazem sentir miseráveis ao pensar que não há livro melhor, ou tão bom quanto, no mundo para ler; e nos fazem sentir felizes, por não termos morrido antes de terminá-los (é por isso aliás, que lemos em dois, três dias, no máximo quatro, obras de 300, 400 ou 500 páginas).

As outras leituras, são apenas leituras. Cada uma, a sua maneira, tem sua importância ou na vida acadêmica ou apenas no hábito de leitura; mas há outras, em geral obras de literatura, que são especiais. Nos roubam várias horas seguidas de leitura, deixamos de comer, tomar banho, ligar para o(a) namorado(a), só para ler mais um capítulo... só mais uma página. Pode ser Harry Potter, Crespúculo ou Paulo Coelho, não importa. Uma leitura prazerosa nos leva a uma viagem, a um êxtase e a uma ansiedade melhor do que qualquer droga ilícita.

Carlos Ruiz Zafón é um autor espanhol extremamente talentoso que atualmente tem dois de seus livros publicados entre os mais vendidos e que conseguem nos hipnotizar até o fim. Agora no Natal ganhei O Jogo do Anjo e, me atrevo a dizer, foi o presente mais breve e também o mais eterno de todos. O mais breve porque em três dias havia terminado, o mais eterno porque ficará sempre na minha memória e a vontade de relê-lo só vai acabar quando tê-lo feito.

A Sombra do Vento eu também já havia lido, e é de igual valor. O mistério, as intrigas, o romance, as relações interpessoais, além da cidade de Barcelona que assume o papel de um personagem e a ambientalização política, tudo isso comum aos dois livros, nos fazem almejar pelo final como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Ambos os livros também nos trazem lágrimas ao rosto, nos fazem odiar profundamente determinado personagem e desejar sua morte, mas também nos fazem dar altas gargalhadas.

Não acho que vale a pena dizer mais sobre os livros e o autor, não farei mais uma resenha como tantas outras que encontramos na internet e em revistas. Só digo que foi um dos melhores que já li. Assim como O Caso dos 10 Negrinhos foi o melhor livro do mundo nos meus 11 anos, Harry Potter nos meus 12 anos, As Brumas de Avalon nos meus 17, A Sombra do Vento nos 18 e O Jogo do Anjo no início dos meus 19, entre muitos outros que já foram e virão.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ismália

Muitos já sabem da minha opinião sobre poesias. Nunca os entendo e nem consigo fazer um comentário se quer sobre eles. Porém, há alguns raros poemas, perdidos pelas páginas dos livros de literatura do Ensino Médio, que me enncataram e, mesmo depois de algum tempinho, eu não os esqueço e relê-los é sempre um prazer.

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava perto do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimarães)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A sociedade democrática mineradora

Faz muitíssimo tempo que eu não frequento do blog, quase um mês... Não vou tentar me justificar, mas houve algumas semanas em que minha opção em História me desanimou muito e me fez arrepender significativamente desta escolha que comecei a achar que não foi das mais certas. Mas enfim, como meu querido amigo Hermes disse "o jeito é continuar", tarde demais para se arrepender. Porém, a nota de corte este ano da FUVEST caiu muito em alguns cursos, e com certeza teria passado em algum outro curso, pelo menos na primeira fase. Enfim, juntando-se a isso, é fim de semestre: provas e entrega de trabalhos, e uma dessas provas quase representou o estopim para eu desistir do curso, mas foi a gota d'água para eu chegar em casa deprimida: eu, que havia estudado tanto, que nunca faltei uma única aula e que amei o curso do começo ao fim, fui pior na prova do que quem tinha menos interesse em nota. Bom, fazer o que? "O jeito é continuar."

Mas deixe eu mudar de assunto porque nunca criei o blog com a intenção de chorar minhas máguas. Tenho meu psicólogo particular e isso me basta.

Ontem, sem planejar e quase sem querer, comecei a ler O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Peguei o livro e só folheei para achar alguma parte que tivesse como tema de fundo a disputa pela terra. Falhei nesse objetivo, mas comecei a ler e por volta de uma hora já tinha acabado. Muito bom! Quem nunca o pegou para ler é uma ótima recomendação. O filme não fica para trás, mas ele é mais "recheado" de histórias e personagens. O Auto da Compadecida é uma daquelas histórias que você lê rindo! Foi uma leitura muitíssimo prazerosa.

Para não acabar o post somente com essa mensagem muito pessoal, colocarei aqui uma das duas repostas que fiz para a minha prova de Brasil Colonial, não, sem antes, dar uma breve introdução ao tema.

É muito comum sermos ensinados nas escolas e nos cursinhos pré-vestibulares que a sociedade mineradora foi muito mais democrática que a sociedade açucareira. Lembro ano passado o meu professor de história do Brasil fazer um quadro na lousa para comparar estes dois momentos distintos da história brasileira. Pois bem, uma historiografia mais antiga, representada inclusive pelo Sérgio Buarque de Holanda, diz quase que exatamente isso: a sociedade mineradora permitia uma maior mobilidade social, todos trabalhavam, as ideias de civilização influenciadas pelo iluminismo circulavam com uma facilidade muito maior... Porém, uma historiografia mais recente tem contestado isso, como está escrito mais abaixo. Se havia uma maior democracia isso aconteceu por baixo, ou seja, todos eram muito pobres, todos dividiam a mesma pobreza, e se houve uma possibilidade de mobilidade social como era dito, foi uma parcela muito significativa dos que conseguiram acumular riquezas e mudar a situação de vida.

Na prova, haviam três trechos de obras que tratavam do mesmo assunto - a suposta democracia da sociedade mineradora - sob perspectivas diferentes. Eis a minha resposta abaixo sobre este embate historiográfico cuja nota ainda não recebi.

Os três trechos, tirados de obras da historiografia brasileira, apresentam duas linhas de pensamento distintas sobre o período minerador do Brasil Colonial.

O primeiro excerto, o mais antigo dos três e escrito por Sérgio Buarque de Holanda, defende a característica democrática da sociedade mineradora, em comparação com outras áreas da colônia portuguesa da América, principalmente, as zonas açucareiras. Portanto, dada essa peculiaridade das Minas Gerais, forma-se nessa região uma sociedade sui generis, muito particular diante de todo o resto da América lusitana. Este trecho representa toda uma forma de pensar a sociedade mineradora que, hoje sabemos, tem ligação com a ideologia da Inconfidência Mineira. Por ser mais democrática e civilizada, teria mais possibilidades de mobilidade social e menos escravos; as idéias das luzes teriam sido capazes de entrar nesta sociedade e fomentarem um desejo de independência; as revoltas, que começaram a surgir como forma de contestação às fiscalizações tributárias, inclusive, seriam também uma certa conseqüência desta democracia que começou a surgir na América Portuguesa no século XVIII.

Tal corrente de pensamento começou a ser contestada. Já no final da década de 70 do século passado, Jacob Gorender não atribui o grande número de pequenas explorações na região das Minas Gerais como sendo uma característica do sistema de mineração, tampouco como um predomínio econômico. Apesar de reconhecer a distinção entre as sociedades mineradoras e açucareiras, desconfia da tal mobilidade social defendida por Sérgio Buarque.

Poucos anos depois, na década de 80, Laura de Mello e Souza parece completar a idéia de Jacob Gorender, o que é mostrado pelo segundo excerto. “A constituição democrática da sociedade mineira poderia se reduzir numa expressão: um maior número de pessoas dividiam a pobreza”. Para Laura aquele grande número de pequenas explorações era conseqüência de baixos níveis de renda também mal distribuídos, ou seja, se havia realmente uma maior possibilidade de mobilidade e uma democracia social que diferenciavam consideravelmente o setor minerador do açucareiro, isso se deu por baixo, da falta de poder aquisitivo e de concentração, portanto, se houve realmente uma mobilidade social, os que enriqueceram foram uma parcela muito pouco significativa.

Na historiografia recente, reconhece-se a intenção de implantar nas Minas Gerais o sistema escravista de mais de um século das zonas açucareiras: para lavrar era necessário possuir escravos. Assim, é significativa a participação massiva da escravidão, em sua maior parte negra. Para completar, Laura aparece caracterizando a sociedade mineradora como “aberta” e não democrática; aberta pelas possibilidades que ali existiam, mas que só existiam pelos motivos enumerados acima.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Abaixo, transcrevi um documento que estou trabalhando na faculdade. Este documento faz parte de um conjunto de outros três, nos quais todos tratam de relatos sobre o dia em que D. Pedro declarou o Brasil independente. Cada um a sua maneira, é claro. O trecho foi encontrado num livro no Rio de Janeiro em 1826 que foi editado em Paris, de autoria anônima cujo título era "O grito do Ipiranga e o Brasil político". No livro constava descrito vários episódios políticos do Brasil, entre eles a proclamação da independência que está transcrito abaixo. Os exemplares do livro, por ordem de D. Pedro, foram apreendidos e queimados, portanto hoje é um livro raríssimo. Com o tempo, descobriu-se a autoria do livro, que foram vários autores, entre eles, o próprio Padre Belchior, responsável pelo documento transcrito.

"O Príncipe mandou-me ler alto as cartas trazidas por Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro. Eram elas: uma instrução das Cortes, uma carta de D. João, outra da Princesa, outra de José Bonifácio e ainda outra de Chamberlain, agente secreto do Príncipe. As Cortes exigiam o regresso imediato do Príncipe, a prisão e o processo de José Bonifácio. ; a Princesa recomendava prudência e pedia que o Príncipe ouvisse os conselhos de seu Ministro; José Bonifácio dizia ao príncipe que só havia dois caminhos a seguir: partir para Portugal imediatamente e entregar-se prisioneiro das Cortes, como estava D. João IV, ou ficar e proclamar a independência do Brasil, ficando seu imperador ou Rei; Chamberlain informava que o partido de D. Miguel, em Portugal, estava vitorioso e que se falava abertamente da deserdação de D. Pedro em favor de D. Miguel; D. João aonselhava ao filho obediência à lei portuguesa.
D. Pedro, tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e amarrotando-os, pisou-os, deixou-os na relva. Eu os apanhei e guardei. Depois, abotoando-se e compondo a fardeta (pois vinha de quebrar o corpo à margem do riacho Ipiranga, agoniando por uma desenteria com dores que apanhara em Santos) virou-se para mim e disse:
- E agora, Padre Belchior?
E eu respondi prontamente:
- Se. V. Altaeza não se faz Rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e talvez seja deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.
D. Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro e o Chalaça, em direção aos nossos animais, que se achavam em local próximo. De repente estacou, já no meio da estrada, dizendo-me:
- Padre Belchior, eles o querem, terão a sua conta. As Cortes nos perseguem, chamam-me com desprezo, de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale esse rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações, nada quero do Governo Português. Está feita a liberdade do Brasil.
Gritamos imediatamente:
- Viva a liberdade do Brasil! Viva D. Pedro!
O Príncipe virou-se para seu ajudante de ordens e disse:
- Diga à minha guarda que eu acabo de fazer a independência do Brasil, com separação de Portugal.
O tenente Canto e Melo cavalgou em direção a uma venda, onde se achavam quase todos os dragões da guarda e com ela veio ao encontro do Príncipe, dando vivas aos Brasil independente, a D. Pedro e à Religião!
O Príncipe, diante de sua guarda, disse então:
- Amigos, as Cortes portuguesas querem escravizar-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais!
E arrancando do chapéu o laço azul e branco, decretado pelas Cortes como símbolo da nação portuguesa, atirou-o ao chão, dizendo:
- Laço fora, brasileiros! Viva a independência e a liberdade do Brasil!
Respondemos com um viva ao Brasil independente e viva a D. Pedro!
O Príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares; os paisanos tiraram os chapéus. E D. Pedro disse:
- Pelo meu sangue, pela minha honra, por Deus, juro defender a liberdade do Brasil.
- Juramos, respondemos todos!
D. Pedro embainhou a espada, no que foi imitado pela guarda, e pôs-se à frente da comitiva, e voltou-se, ficando em pé nos estribos:
- Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será o dístico Independência ou Morte, e as nossas cores, verde e amarelo, em substituição às das Cortes.
Firnou-se nos arreios, esporeou sua besta baia, galopou, seguido de seu séquito, em direção a São Paulo, onde foi hospedado pelo brigadeiro Jordão, capitão Antônio Silva Prado e outros, que fizeram milagres para contentar o Príncipe.
Mal apeara a besta, D. Pedro ordenou ao seu ajudante de ordens que fosse, às pressas, ao ourives Lessa e mandasse fazer um dístico em ouro com as palavras: - Independência ou Morte, para ser colocado no braço.
E com ele apareceu no espetáculo, onde foi aclamado Rei do Brasil pelo Padre Ildefonso Xavier, cujos vidas foram repetidos pelo povo que ali se achava.
No teatro, por toda a parte, só se viam laços de cores verde e amaralo, tanto nas paredes, como no palco, nos braços dos homens e nos cabelos e enfeites das mulheres".

Pretendo, num post futuro, escrever porque esse pavor de D. Pedro às Cortes e porque seu pai, na carta que lhe enviou, recomendou obediência às Cortes. E também, como essa "rebeldia" de D. Pedro foi encarada pelas próprias Cortes lá em Portugal. E também, talvez, como a independência foi vista por outros "telespectadores" do grito do Ipiranga.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os "sampaulistas"

São Paulo no período colonial foi uma grande especificidade. Não havia monocultaras de cana e alta produção de açucar, nem um intenso tráfico de escravos. As famosas casas grandes e senzalas que aprendemos na escola são característicos das capitanias do atual nordeste brasileiro. O único momento colonial paulista que vemos no ensino regular é sobre os bandeirantes. Apesar de esta visão estar mudando, ainda em São Paulo estudamos os bandeirantes pela sua importância no desbravamento do sertão, sendo encarados como heróis, sendo este o motivo por tantas rodovias terem os nomes destes personagens. Entre as mais famosas: Rodovia Fernão Dias, Anhanguera, Raposo Tavares e a Rodovia dos Bandeirantes.

Mas São Paulo tem algumas especificidades que valem a pena ser analisadas melhor. Especificidades estas que ligam a região do planalto paulista e o tão importante nordeste produtor de açucar.

Os tais bandeirantes, antes de assumirem propriamente este papel, eram conhecidos pelo resto da América Portuguesa por "sampaulistas" e eram encarados como uma gente estranha, que vivia no meio do mato. Isso acontecia porque os habitantes do planalto paulista "caçavam" indígenas e disso viviam além de um dificultoso comércio de produtos de subsistência realizado na serra entre o planalto e o litoral, que possuía alguns poucos engenhos de baixa produção de aguardente e rapadura.

Para terem sucesso em seus aprisionamentos de indígenas, os paulistas tiveram que aprender com os próprios índios. Despreparados, os portugueses eram facilmente mortos pelos índios que usavam métodos de guerrilha. Acostumados com o terreno e grandes conhecedores da fauna e da flora, sem serem vistos, se moviam e atiravam flechas em seus adversários por cima das árvores. Assim, os paulistas. adotando seus métodos, aprenderam com eles a se moverem e a lutarem na "selva" tropical.

Lá no Nordeste, quando o quilombo dos Palmares chegou num ponto de ameaça à soberania do Estado português e à ordem escravista e na capitania do Rio Grande (hoje Rio Grande do Norte) estoura uma rebelião indígena dos antigos aliados dos holandeses, chamar os "sampaulistas" foi uma alternativa que se mostrou mais eficiente para acabar com tal "desordem". Comprar esse serviço não era barato. Domingos Jorge Velho foi chamado para cuidar destes dois eventos em troca, é claro, de terras para virar um grande senhor de engenho. Este era, afinal, o sonho de todos os paulistas que viviam no meio do mato caçando índios: ser um grande senhor de engenho.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Roteiro de leitura - M. Chauí

Nesta última semana li uma parte do maravilhoso e bastante difícul livro da Marilena Chauí. Acredito que todos conhecem essa grande filósofa, seja porque ouviu seu nome na televisão ou porque durante a escola o professor comentou sua obra. Sua linguagem é densa e pesada e por isso, realizei um roteiro de leitura de um determinado capítulo do livro: "Crítica e Ideologia". Este capítulo, que segue uma corrente materialista, é interessantíssimo e, caso eu fosse transcrever todas as idéias e conclusões tiradas, o post seria imenso. Para facilitar então, colocarei aqui apenas alguns dos quais achei mais interessante dos tópicos do roteiro. Em algumas partes, há trechos transcritos e em outras trechos de minha própria autoria.

O que se entende por sociedade propriamente histórica?
Sociedade propriamente histórica é aquela que, diferente da sociedade histórica, problematiza o tempo, sua história. Através da ideologia, faz uso de datas próprias, instituições próprias e precondições específicas para não estar no tempo, mas ser o tempo. Em outras palavras, toda a sociedade é histórica porque é temporal, porém, a sociedade propriamente histórica tematiza sua temporalidade, transformando-a em objeto de reflexão. Como conseqüência desse processo, a ideologia ganha um sentido concreto e continuamente cria internamente sua diferença consigo mesma. Essa petrificação do tempo característica da sociedade propriamente histórica, por sua vez, só pode ser alcançada pelo uso da violência e da máscara de uma identidade fixa, manejada pela ideologia.
Há um terceiro tipo de sociedade, que não se encaixa muito bem nessa classificação. É a sociedade que oferece a si mesma uma explicação que transcende a própria sociedade e assim lhe garante intemporalidade. Vista sob nosso ponto de vista ela é sim histórica, mas para ela mesma não. Encontramos essa característica em sociedades orientais, cujo tempo é encarado como cíclico e a história não é registrada, mas contada oralmente.


Exlique o conceito de ideologia como discurso lacunar
O discurso ideológico é feito por lacunas, por espaços em brancos e é graças a isso que seu discurso faz sentido. Essa coerência é o fato de que se mantém com uma lógica coerência e que exerça poder sobre os sujeitos sociais e políticos. “É porque não diz tudo e não pode dizer tudo que o discurso ideológico é coerente e poderoso”. Se tentarmos preencher os espaços em branco, não transformaremos um discurso ideológico ruim em um discurso ideológico bom, destruiremos em verdade sua condição de ideologia.


Por que a ideologia se mantém?
Uma vez que a ideologia se mantém na recusa da realidade, cabe a pergunta de como e por que ela se mantém. Em outras palavras, é preciso entender como a vida social e política oferece meios para reforçar a ideologia.
1° motivo: caráter imediato da experiência a faz permanecer esmagda no desconhecimento da realidade concreta, isto é, do processo de constituição da sociedade e da política. Ou seja, o fazer, a prática, que é feita e logo acaba, não está envolvido com seus processos mais amplos de porque’s e conseqüências, caracterizando, se eu não estiver enganada, num processo de alienação de seus agentes.
2° motivo: a ideologia oferece um “bem-estar” aos indivíduos sociais e políticos retratando uma realidade falsa como idêntica, homogênea e harmoniosa, fornecendo aos sujeitos uma resposta aos desejo metafísico de identidade e ao temos metafísico da desagregação. É uma exigência metafísica dos sujeitos sociais e políticos. A ideologia propicia uma experiência de racionalidade organizada e de lugar “natural” de cada ser humano, e é isso que dá à ideologia força total. Aqui é a primeira vez que usam a metafísica como um argumento concreto.

domingo, 13 de setembro de 2009

Café com leite

Lembro-me do melhor copo de café com leite que tomei na vida. Quantos anos eu tinha? Seis. Sete. Talvez oito. Era uma manhã de final de semana. Sábado ou domingo. Naquela época todos os dias da semana eram iguais, pouco importava se era segunda ou sexta. O mesmo acontecia com os finais de semana.


Naquela manhã, ensolarada pelo que podia ser visto da janela, o leite urbano, tirado da caixinha, tinha sido esquentado no fogão (o microondas ainda não tinha chegado a minha casa para acelerar as coisas) e colocado, juntamente com o café feito na hora, num copo americano. O leite, porém, tinha sito fervido e, por isso, não era possível tomar o café com leite preparado pela minha mãe.


Ela, portanto, na pia para não sujar a toalha da mesa, fez uso de um truque muito antigo para esfriar leites muito quente: com a ajuda de um outro copo, trocava rapidamente o líquido amarronzado de recipiente. Acredito que todos conhecem essa técnica. Por fim, o copo americano que eu usaria, foi lavado e, no copo ainda molhado, foi-me entregue o café com leite mais perfeito que já tomei. Nem quente nem frio demais. Nem doce nem amargo demais. Simplesmente perfeito.


Estou com muitas saudades desse café com leite.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

7 saberes necessários à educação do futuro

Eu escrevi a composição abaixo como forma de resumo de um texto que li. Eu o achei interessante e completa uma segunda leitura que fiz anteriormente, na qual o objetivo maior da educação é não repetir Auschwitz, que foi o ponto máximo de barbárie humana. É claro que o autor usa o campo de concentração apenas como um exemplo, porque barbáries humanas são encontradas em várias outras partes do mundo com dizimações étnicas, guerras “sem sentido” e etc. A conclusão deste texto era que a civilização, para não repetir Auschwitz, só seria alcançada pela educação. A leitura abaixo, de um autor diferente, completou essa afirmação.

É de conhecimento de todos que a educação do Brasil está em crise, mas essa crise não é exclusiva brasileira e nem tão recente. Me questiono agora se este problema educacional geral é realmente a falta de educação civilizacional ou seria política, econômica e de conteúdos mais teóricos como o método de educação.


MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro.


Edgar Morin nos apresenta sete saberes que, segundo ele, são ignorados e subestimados pelo ensino e pelas escolas contemporâneas. É o que ele chama de “sete buracos negros da educação” e não se tratam especificamente de nenhum nível escolar, mas sim programas que deveriam ser colocados no centro da educação para formar bons cidadãos. A grande questão que envolve todos os saberes é o de civilizar o mundo. De uma forma ou de outra, todas as suas propostas podem ser convergidas para esse único ponto.


O primeiro grande saber é sobre o conhecimento. Segundo Edgar Morin, o conhecimento é enganador e ilusório. Para ver e conhecer a realidade é preciso explorar os erros, porque só assim ela é alcançável. Erros causados por diferenças sociais, culturais e étnicos, que fazem o “pensar diferente” como anormal e até como um desvio patológico e outros erros que são causados pela camuflagem de partes desvantajosas para os interessados. Assim, percebemos o mundo através de reconstruções e traduções da realidade, dependendo do ângulo e da perspectiva que vemos a realidade; e assim como toda tradução, ela é composta de erros. “Toda tradução é uma traição”.


O conhecimento pertinente é a contextualização do que vemos como conteúdo na escola na realidade em que vivemos. O meio que ele propõe para o ensino alcançar esse objetivo é a integração das partes. O ensino fragmentado, segundo o autor, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar. Portanto, é necessário ligar as partes, porque não é possível conhecer as partes sem conhecer o todo e vice-e-versa.


A identidade humana é outro ponto significativo. Nós fazemos parte de uma trindade indivíduo-sociedade-espécie, ou seja, nós somos indivíduos que fazemos parte de uma sociedade e também somos espécie. Para não acabar com esta é necessário se reproduzir e ter filhos que serão, como os pais, educados e moldados de acordo com a sociedade em que vive. Portanto, mostrar que o ser humano que é múltiplo enquanto é parte de uma unidade, é uma educação para civilizar o planeta em que vive. Para entender essa complexidade humana, o ensino da literatura e da poesia devem ser colocadas em primeiro plano, pois são elas que convergem para a identidade e para a condição humana.


Atualmente o individualismo tem ganhado um espaço cada vez maior socialmente e o ensino da compreensão humana tem sido trocada pela egocentrismo e o egoísmo: o “se dar bem”. Os seus grandes inimigos são a redução do outro, a visão unilateral, a falta de percepção sobre a complexidade humana e a indiferença. Se auto a avaliar e compreender a si mesmo é um primeiro passo. O cinema é outro recurso que ajuda a entender e a valorizar personagens anônimos da nossa sociedade, ensinando a superar a indiferença e ver os heróis invisíveis sociais sob um outro ângulo.


A incerteza é o quinto saber indicado por Edgar Morin. Saber que o inesperado aconteceu e acontecerá é um domínio necessário a ser mostrado, sobretudo na disciplina de História. Quase nada é como se espera ou deseja. Essa incerteza não apenas fomenta a coragem, mas também age como um meio de tomar consciência sobre a dimensão que decisões tomadas alcançam, além de aprender a lidar com situações inesperadas, saber agir diante do imprevisto com o pouco que se tem nas mãos.


A condição planetária atualmente mostra que a humanidade vive um percurso de destino comum. Diferenças étnicas, religiosas e culturais são superadas diante de ameaças nuclear e ecológica, crises ideológicas e econômicas que colocam todo o mundo em risco e perigo. Portanto, é difícil conhecer o nosso planeta dada a complexidade com que diversos fenômenos estão imbricados.


A antropo-ética, finalmente, é a “tomada de consciência social que leva à cidadania, para que o indivíduo possa exercer sua responsabilidade” que tem se expressado em organizações não-governamentais, superando os problemas da moral e da ética que diferem de acordo com a cultura e as origens dos indivíduos. Tudo isso acontece diante de uma regressão democrática implicada e agravada cada vez mais pelo poder tecnológico e econômico.


Edgar Morin nos faz essa exposição numa linguagem muito simples, repleto de exemplos concretos e bastante conhecidos. Seu objetivo é unir o que hoje se encontra fragmentado, causando a invisibilidade de problemas para muitos e que a visão total da realidade seja deficiente. Isso tudo porque o próprio planeta encontra-se unido e fragmentado ao mesmo tempo, um estado de caos, que só pode ser superado através da civilização. Esta, por sua vez, só será alcançada através de uma educação eficiente que leve em conta estes sete pontos acima e que hoje são ignorados.

sábado, 5 de setembro de 2009

Arquivos em sigilo no Brasil

O historiador precisa provar tudo o que fala. Ele faz isso por meio de suas fontes documentais que são desde artigos de jornais, processos jurídicos e contratos de qualquer espécie até obras de arte como poemas, músicas, pinturas e esculturas. As obras de arte, porém gera ambigüidade e, por isso, as fontes preferidas dos historiados são aquelas encontradas em arquivos públicos. O ponto contraditório nisso tudo é que o maior problema encontrado por esses pesquisadores se encontra justamente no acesso aos documentos protegidos pelos arquivos públicos. No Brasil principalmente, isso é significativo.


É comum entre todos os países existirem leis que protegem esses documentos. Alguns, por se tratarem de problemas individuais e particulares, e outros por serem de caráter público e não correr o risco de colocar o Estado em risco, se mantém em sigilo por um determinado número de anos. Trinta, quarenta, cinqüenta anos geralmente são colocados como tempo limite para este sigilo. No Brasil, no entanto, havia uma outra lei que permitia uma única renovação deste tempo sigiloso de 30 anos dependendo da importância do documento. Quem media essa importância? O próprio governo.


Pois bem, é uma grande aspiração de todos que os documentos do período da Ditadura Militar sejam abertos à pesquisa e que, ao contrário dos nossos vizinhos sul americanos que liberaram esses arquivos juntamente com a queda do regime, nós, brasileiros, continuamos com eles em sigilo até hoje. No final do mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi implantado um projeto de lei que permitia a renovação contínua de documentos em sigilo caso fosse julgada essa necessidade. Todos esperavam um governo mais democrático com a entrada de Lula na presidência e que esse projeto de lei não tivesse repercussão. Para o espanto de todos, o que era apenas um projeto virou lei.


Semana passada ouvi que era só esperar todo o pessoal envolvido na Ditadura morrer que os arquivos seriam abertos. Isso não é tão verdade. A Guerra do Paraguai, que teve seu fim há mais de 100 anos, quando o Brasil ainda era monarquia, ainda tem seus documentos guardados sem nunca ninguém ter tido acesso a eles. Por que esse medo do governo? Que descoberta os brasileiros poderiam ter com um acontecimento de 140 atrás que poderia colocar o governo em risco? Não se sabe. E enquanto isso os diretores e responsáveis pelos nossos arquivos públicos continuam desrespeitando as leis de acesso com a ajuda de novas leis que dão todo e qualquer tipo de crédito ao sigilo forçado e vergonhoso de documentos que poderiam nos ajudar a entender muito melhor a história (não tanto recente, em consideração a Guerra do Paraguai) do Brasil.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Iluminismo na Espanha do século XVIII

É conhecimento comum a todos o fenômeno Iluminista que ocorreu na Europa que se estendeu do final do século XVII até o início do XIX. Aprendemos na escola os principais ilustrados que são em sua grande maioria franceses e ingleses e as grandes conseqüências que isso trouxe para o continente, especialmente e com grande ênfase para a França.O problema é que, apesar de ter sido um fenômeno de proporções geográficas bastante extensa, a região Ibérica teve particularidades bastante significativas.


Até o século XVI, Portugal e Espanha gozavam de um prestígio de muitos poucos. Eram os protagonistas econômica e politicamente na Europa. Dominavam os mares e extensas terras em outros continentes além do intenso comércio de especiarias entre Ásia e Europa. Mais tarde, graças às possessões americanas, eram referência em metais preciosos e no comércio açucareiro (este último, como bem sabemos, não tão monopolizado pelos portugueses).


Pois bem, em especial na Espanha, com o surgimento do Iluminismo, que surgiu e caminhou ao lado do Iluminismo francês, tinha uma particularidade. Os Ilustrados espanhóis tinham consciência de sua real ou suposta decadência (Agesta). Assim, como falar em progresso diante de uma Espanha em decadência (não em crise!)? Além disso, ao contrário dos grandes ilustrados ingleses e franceses que vemos no ensino regular, que em sua maioria são ateus, deístas e lutadores bravos a favor da razão contra a Igreja, os ilustrados espanhóis, em sua grande maioria, faziam parte do clero. Como então reconciliavam a razão com a religião católica?


Diante de sua real decadência, a Espanha enfrentava no século XVIII a queda da arrecadação da prata, aumento da inflação, perdas dinásticas significantes como a independência dos Países Baixos, o fim da União Ibérica e em 1640 a quase perda da Catalunha. Os escritores do próprio século XVIII já viam seu querido país incapaz de alcançar o crescimento econômico da Holanda e da Inglaterra. Tudo isso dentro de uma perspectiva histórica da época em que tudo acontecia em ciclo. Se um dia a Espanha foi o grande Império que foi, agora era a hora de sua decadência, e nada podia se fazer sobre isso.


Essa idéia de história cíclica mudou com o Iluminismo. O homem tinha razão e por isso poderia mudar a história. Assim, o progresso para a Espanha ilustrada mostrou-se como sendo sua salvação e, para isso, era preciso iluminar seus cidadãos para que fosse possível mudar o país mudando, primeiramente, os espanhóis.


Mas por que suposta ou real decadência? Luis Sanches Agesta, um historiador do século XX, questiona essa real decadência considerada pelos espanhóis do século XVIII. Será que a Espanha foi tão grande assim? Mesmo em seu auge de Império, a nação espanhola enfrentou outros problemas, não tão equiparáveis com os que ela enfrentava no século XVIII, é claro; mas enfrentou.


Quanto à fé, os ilustrados espanhóis muito convincentes foram ao enunciar que a religião católica era a mais racionável de todas. Assim, apesar de muitos problemas contraditórios encontrados nesse assunto, conciliaram muito bem a fé e a razão na Espanha Ilustrada.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A religião "mais brasileira"

O Brasil é uma mistura de cores, povos, culturas e... religiões. E é isso uma das características mais marcantes de nosso país: esse sincretismo de tudo o que faz parte das nossas vidas de brasileiros - para uns mais do que para outros. Isso tudo começou, como denuncia Freyre, lá nos tempos coloniais nas grandes lavouras de açúcar onde negros e brancos colocaram lado a lado culturas e costumes bastante diversos cujas origens eram de diferentes continentes mas que na América Colonial, como que sem muita opção, foram obrigadas a se enfrentarem.

Poderíamos falar das comidas, das músicas, dos costumes diários dos brasileiros, mas hoje quero falar um pouco sobre a religião. Dentre a diversidade religiosa de grandiosidade significativa que encontramos no Brasil, na minha opnião, a que mais tem a cara do brasileiro é a umbanda. As religiões evangélicas tem crescido gradualmente, mas ela tem origens muito diferentes que pouco tem relação com nosso país. Inicialmente ela vem da Europa com a Reforma e mesmo assim, pouca ligação isso tem com Portugal que contra isso lutou bravamente através das armas da Inquisição. Na invasão Holandesa, um dos grandes medos dos senhores de açucar era o risco da religião protestante ser imposta pelos flamengos. Vemos também com bastante clareza ainda hoje, a influência evangélica nos cultos negros dos EUA. Martin Luther King é um grande ícone para isso. Muita coisa disso foi importada pelo Brasil e que vem constantemente sendo mudada e reformulada para se adequar melhor as necessidades e a ingenuidade dos brasileiros.

O catolicismo adquiriu sim grandes características brasileiras. A festa junina, por exemplo, que é uma das minhas festas favoritas, é bastante verde e amarelo com seus bolos de fubá e as quadrilhas. Mesmo assim não é algo tão nosso; durante as missas temos que rezar pelo Papa - uma autoridade religiosa distante, do outro lado do Atlântico, a quem seria impossível pedir um pouco de ajuda. Se nós rezamos e pedimos por ele, o fazemos isso porque o Padre lembra e exige aquela resposta em coro.

A Umbanda por sua vez, é algo tão original, que não é o Candomblé modificado, como aconteceu com o Catolicismo e o Protestantismo. Surgiu uma nova religião com um novo nome e rituais e crenças muito sincréticas. Laura de Mello e Souza escreveu um livro maravilhoso sobre religião no Brasil colonial e lá ela diz que nas Senzalas surgiu um sincretismo entre as diferentes religiões africanas, pois negros de diversas regiões do continente, com costumes e culturas diferentes, se encontraram todos juntos num mesmo espaço. E foi o que surgiu lá que veio a se juntar com o catolicismo e originar o que conhecemos hoje por religiões afro-brasileiras. Há uma coisa muita interessante nisso: não é afro-europeia e nem afro-católica ou afro-portuguesa, é afro-brasileira.

O que me entristece é ver brasileiros católicos e evangélicos tratarem mal e agirem com preconceito a religião "mais" brasileira. A Umbanda e o Candomblé são religiões dos pobres que procuram ajuda tanto para encontrar emprego, quando para curar doenças ou acabar com vícios. É o lugar onde os pobres, que não tem como pagar médicos, psicólogos, seguros de saúde ou clínicas vão para conversar com alguém que está lá para ajudar. Estas religiões nasceram com os pobres e excluídos. Elas valorizam o homem como nenhuma outra religião cristã; enquanto os padres e pastores colocam tudo na mão de deus e tudo o que resta ao homem é pedir à ele, os orixás nos ensinam que somos nós quem temos que correr atras do que queremos e precisamos. Deus só nos ajuda, mas não faz nada por nós.

Conheço gente que hoje trata as religiões afro-brasileiras como manifestações do demônio, mas no passado, quando precisaram de cura espiritual depois de consultar vários médicos que nada puderam fazer, foram atras e entraram no terreiro com grande humildade. Infelizmente se esqueceram disso.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Os antecedentes do Rei Arthur

O mês já está quase acabando e eu nem passei por aqui direito. Mas nunca enfrentei umas férias tão cheia como esta. Estou mandando currículos meus para escolas de inglês e algumas delas exigem testes, mesmo se não há interesse algum em contratar um professor. Outras me chamaram, mas infelizmente nada deu certo. Ainda sou alguém sem carteira assinada. Isso tem me ocupado bastante tempo e é disso o que mais preciso para escrever um texto que será publicado - mesmo que esta publicação seja pela internet, justamente porque há leitores. Além do mais, essas férias atrofiou ainda mais minha habilidade de escrita. Enquanto estava estudando e constantemente era obrigada a escrever para a faculdade, tudo bem. Essas semanas paradas fez minha redação ser mais deficiente e mais demorada de ser realizada. Mas enfim, por escrever pouco, há um certo acúmulo de assuntos em minha mente a serem escrito e pretendo desacumular tudo, mesmo que seja em agosto.

O que eu não posso reclamar desse mês em casa, é o tempo que estou tendo para ler livros de ficção que antes eu não podia. Há um ano e meio li os quatro volumes da série As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Brandley. Não sei se isso é coincidência, mas desde criança, quando comecei a ler, me interesso por histórias que usam como plano de fundo a História ou personagens históricos. Meu primeiro livro, e isso vim a descobrir no início da faculdade, era em si próprio um documento: O Diário de Anne Frank. Devo a esta menina judia, que até sua morte e o final da segunda guerra era uma anônima e, agora, mesmo depois de mais de 60 anos, é uma referência para o mundo inteiro. Devo a ela meu gosto pela leitura.

As Brumas de Avalon se passa na Alta Idade Média na região da Brittania, quando o Império Romano já estava desintegrado, a Igreja Católica fincava suas raízes por toda a Europa, as religiões pagãs perdiam espaço em sua própria terra e as tribos e comunidades bárbaras colocavam medo em povos, que um dia, haviam sido protegidos pelos imperadores romanos. Neste contexto, surge o famoso Rei Arthur, seu fiel escudeiro Lancelot, o inteligente Merlin, sua linda e devotada esposa Guinevere e a bruxa Morgana. Mas nas Brumas, tudo isso tem uma perspectiva diferente: das mulheres e assim, a história tem seu lado sentimental, bastante característico do universo feminino, e seu lado político e religioso, que mostra o quanto as mulheres são fortes e tão capazes quanto os homens. Os livros da Marion, aliás, acusam essa errônea ideia de que as mulheres são frágeis e incompetentes em matéria de política como originalmente dos romanos, já que na Brittania, as mulheres possuiam um papel de influência política muito superior que a dos homens.

Pois bem, nessas férias li dois livros que se colocam cronologicamente anteriores às Brumas. A Casa da Floresta e A Senhora de Avalon, não tem o poder te prender o leitor de uma maneira que não é possível acabar de ler enquanto o livro não acabar e, quando acaba, aquela sensação de tristeza e de que no mundo inteiro não há livro tão bom quanto este que acabou de ler não invade nossos corações. Se, como eu, faz tempo que se leu as Brumas, a vontade é de rele-lo; se não os leu ainda, a vontade é de pegá-los imediatamente e começar a tentar descobrir qual será o destino das grandes sacerdotisas que servem à Grande Deusa.

A Casa da Floresta se encontra no fim da Idade Antiga, quando as dominações romanas estão crescendo e os prisioneiros de guerra são usados como escravos para o fortalecimento do Império. A religião oficial ainda é aquela de origem grega, cujos deuses têm como nome o que hoje correspondem aos nomes dos planetas do Sistema Solar. A religião cristã está começando a aparecer e os fiéis católicos são tratados pelos romanos como profetas irritantes. A maior preocupação das sacerdotisas e dos druidas e o plano de fundo principal da história são principalmente políticos. O amor impossível entre uma futura sacerdotisa e o filho de um importante funcionário romano é um pouco clichê e deixa a história um pouco monótona, mas a leitura vale a pena pelo seu final, principalmente.

A Senhora do Lago já se passa em três momentos diferentes e mostra a evolução da religião cristã, o início da Alta Idade Média na região da Brittania, a desintegração do Império Romano e o que as grandes sacerdotisas de Avalon precisam fazer para conservar sua religião e seus costumes. E, principalmente, mostra os preparativos e os antecedentes da vinda do Grande Rei Arthur e, inclusive, suas antigas reencarnações.

Entre tantas coisas lindas que são mostradas nestes dois livros e na série das Brumas a mensagem de que existe um só deus é uma das mais belas. As sacerdotisas da Grande Deusa não renega nenhum outro deus e dizem que todos os deus, independentes da forma e do nome que assumem, são um só; a diferença é que elas têm o grande privilégio de ver a forma real da deusa: vê-la como ela realmente é. O que traz o desequilíbrio entre as religiões é o fanatismo e o papel que elas assumem na política.

Enfim, os livros da série As Brumas de Avalon devem ser lidos por todos que gostam de romance, política e história.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Casa-Grande e Senzala

Casa-Grande e Senzala é um clássico da historiografia brasileira escrito por Gilberto Freyre na década de 1930. Dentre as leituras que fiz no meu primeiro semestre de faculdade, me atrevo a dizer que este é um livro único. Antes de uma obra historiográfica é uma compilação do que chamo de curiosidades históricas. A cada virada de página, que são mais de 400, dizemos “Nossa, que curioso!” ou então “Ah...Então é por isso que fazemos isso!”. É também possível, ao contrário das leituras pesadas e cansativas que fazemos como obrigação para a faculdade, ler Gilberto Freyre com o mesmo entusiasmo que lemos um romance e as 400 páginas divididas em apenas cinco capítulos tornam-se apenas 200.

G. Freyre não poderia ter colocado nome melhor para o seu livro, que se concentra na formação e nas relações sociais do povo brasileiro e é bom fugir um pouco da corrente marxista (não estou dizendo que ele a negue). Dentre os cinco capítulos, um é dedicado a uma introdução geral, outro aos índios, outro aos portugueses e os outros dois restantes aos negros, estes considerados pelo autor, ainda mais que os indígenas, como os maiores responsáveis por dar ao povo brasileiro essa cara que possui.

Uma vez havia lido em um artigo sobre preconceito que não era possível apagar 300 anos de regime escravista da nossa sociedade. Pois bem, Gilberto Freyre mostra isso também, mas sob um outro ângulo. As relações entre a casa-grande e a senzala foram fundamentais para que hoje se valorize a morena, que o povo brasileiro seja escandaloso gritando com quem fala, que nossa cozinha seja tão nossa e, principalmente entre tantas outras coisas que G. Freyre fala, que essa relação entre senhor e escravo foram fundamentais para dar ao brasileiro essa característica de povo acolhedor e alegre que ele tem e tão única – não sendo reflexo dos portugueses e nem dos negros, sendo uma mistura entre eles, com uma parcela de ajuda dos nativos.

Tem uma hora na leitura que pensamos se há algo sobre o qual ele não fala. Ele explica porque se têm no Brasil tantos sobrenomes repetidos, porque somos tão alegres e receptivos, além de falar sobre a prostituição no Brasil colonial, assim como as crendices, as comidas, os casamentos, etc. Assim, a senzala complementa a casa-grande e desse complemento surge... Nós! Uma coisa interessante que é lembrada várias vezes durante o texto, é a semelhança, segundo o autor, entre a colonização na América Portuguesa e na região que hoje corresponde ao atual sul dos EUA.

Para dar um gostinho das curiosidades contidas no livro, aí vão duas. O brasileiro é conhecido como um povo feliz e bem animado porque, e isso não é segredo para ninguém, tem em seu sangue a descendência dos negros. Pois bem, mesmo os indígenas que aqui já viviam no clima tropical se sentiam mais alegres no frio e na chuva; Freyre fala de relatos que colocam os índios dançando e sorrindo na chuva. O autor relaciona esse prazer dos indígenas aos seus antecedentes que viviam em climas gelados antes de atravessarem o Estreito de Bering. Os portugueses, por sua vez, eram europeus, acostumados com o clima temperado, sentindo-se assim pouco adaptados ao calor tropical. Agora os negros sempre fizeram parte do calor da África, se sentindo mais confortáveis e felizes no calor dos trópicos. É a isso que Gilberto Freyre acusa como sendo o motivo de, principalmente os baianos, serem um povo tão alegre. Para falar a verdade, em todo o texto o clima se apresenta como um fator determinante de comportamento.

Outro aspecto interessante é o motivo mostrado por Freyre para explicar essa predileção que o brasileiro sente por mulatas. Às mulheres brancas eram arranjados casamentos quando ainda eram muito novas. Com 13, 14 anos casavam-se com senhores de 40, 50 e até 60 anos de idade. Assim, muitas morriam no parto por serem muito novas ou então pela precária medicina da época. Muitas crianças viravam órfãs de mães e eram entregues às amas de leite para serem amamentados e cuidados. Esse foi o principal contato entre negros e portugueses para que surgisse essa preferência pela mulata, as palavras amaciadas ditas pelas negras (como iôiô, dodói e nenê) e o ciúmes das mulheres brancas da colônia. Freyre, usando a psicanálise de Freud dá exemplos de casos em que os homens só conseguiam gozar com uma negra e de um casal recentemente casado que, para o homem se excitar, era preciso levar consigo para a cama uma pedaço de roupa de sua mulata amada para sentir seu cheiro.

Enfim, Casa-Grande e Senzala é uma leitura cheia desses detalhes da vida colonial cujos alguns resquícios estão presentes em nossas vidas até hoje.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bicho - Papão

Quem nunca ouviu falar, quando criança, do bicho-papão? E também atire a primeira a pedra quem nunca ficou com medo deste monstro e do homem do saco. Esses dias, lendo Gilberto Freyre, descobri uma curiosidade sobre esses personagens folclóricos que não são exclusivamente brasileiros. Para completar, recomendo este livro, Casa Grande e Senzala,
para todos que querem saber um pouco mais sobre a formação do povo brasileiro, é um livro bastante fácil sem termos técnicos e de uma leitura não exclusiva a historiadores, sociólogos, antropólogos, etc.

Esses personagens surgiram como um meio de pais e esposos exercerem dominação e controle sobre seus filhos e esposas. Para as tribos da América, o uso de personagens malignos misturados com rituais e máscaras eram práticas tradicionais para sujeitar as crianças, em especial, a
autoridade dos grandes.

Entre os Pueblo, que viviam na atual região do México, os mais velhos faziam uma dança com personagens como os papões ou terríveis figuras do outro mundo, que vinham a este para devorar meninos maus e desobedientes. Os zuñi, também da mesma região que os Pueblos, praticavam uma dança macabra bastante semelhante àquela que terminava com a morte de uma criança, escolhida dentre as de pior comportamento da tribo. Entre os antigos hebreus era o Libith, monstro cabeludo e horrendo que voava de noite em busca de crianças; entre os romanos a Caprimulgus saía de noite para tirar leite de cabra e comer menino; entre os russos é um horrível papão que a meia-noite vem roubar as crianças em pleno sono; entre os alemães é o Papenz; entre os escoceses e ingleses, o Boo Man; entre os maias havia a crença em gigantes que de noite vinham roubar menino.

Entre algumas tribos indígenas do Brasil, as máscaras usadas nas danças desempenhavam papel importante com o mesmo fim de amedrontar as mulheres e crianças a fim de conservá-las em boa ordem. As máscaras eram guardadas como objetos sagrados e seu misterioso poder se transmitia ao dançarino. Eram máscaram imitando animais demoníacos nos quais supunha que o indígena que a usava transformava-se em morto, e sua eficácia mágica era aumentada pelo fato de serem humanos ou de origem animal muitos dos materiais de sua composição.

No Brasil, esse personagem folclórico se manteve sofrendo modificações e tornando-se o que é hoje. Logo na colonização, os jesuítas já fizeram uso dessas danças indígenas com o fim de desprestigiar pelo ridículo os rituais, assim as máscaras que antes eram sagradas estavam destruídas entre os índios e um dos seus meios mais fortes de controle social também, tornando o Cristianismo, até certo ponto, vitorioso. A eficácia deste personagem folclórico está se perdendo, muitas crianças dessa nova geração já tratam pelo ridículo o bicho papão assim como nem acreditam em Papai Noel e tem a infelicidade de escolher seu presente na própria loja. O rápido fluxo de informações do qual, inclusive as crianças, estão submetidas, tornam as lendas e os costumes perdidos, colocando todos dentro do mesmo padrão globalizador.
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Essa semana ao receber uma prova sofri uma severa crítica. Sei que não escrevo como José de Alencar ou Graciliano Ramos, muito menos como Sérgio Buarque de Holanda, mas apesar de ter ganhado uma boa nota na prova que não passava de uma dissertação sobre uma passagem de um livro, tinha um comentário escrito "redação sofrível". É mesmo? E tão ruim assim?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Era uma vez um astro do pop

Willian Bonner: Michael Jackson está morto!
Eu: O que?????

A morte de alguém do nível de Michael Jackson faz nós, meros mortais, lembrar que ninguém, nem Michael Jackson e nem Elvis Presley, é imortal. Nunca se falou tanto sobre ele, nem se mostrou tantas vezes seus clipes e nem se tocou tantas vezes suas músicas.

Nunca fui muito fã desse cantor, gostava de uma música ou outra, principalmente as do início de sua carreira. Até porque, nesses últimos anos, sua imagem me assustava. Quem acompanhou no canal E! da TV a cabo o julgamento do ídolo POP quando acusado de pedofilia, viu que os episódios pareciam um filme de terror misturado com suspense, um verdadeiro thriller. Sua face deformada ajudava o clima pesado do tribunal e as acusações horrorosas.

Mas tão importante quanto o sucesso de suas músicas é o que Michael Jackson representa para o final do século XX. Essa noite, no Jornal da Globo, o colunista musical Álvaro Pereira Jr. comentou esse papel que o ídolo pop representa para essa geração que acompanhou a ascensão e decadência de Michael Jackson. Ele não só faz parte de um momento em que a música negra ocupava um lugar no sociedade segregacionista estadunidense, como representou alguém bastante infeliz com sua própria aparência dentro de um padrão de beleza branco, magro e de cabelos lisos.

No final dos anos 60 começo dos anos 70, a segregação racial nos Estados Unidos diminui um pouco, o que permite uma aproximação da música negra com o restante da população branca estadunidense. Um outro exemplo disso além de quem estamos falando é Stevie Wonder. Dentro desta perspectiva Michael Jackson logo se destaca entre seus irmãos dentro da banda da qual faziam parte: os Jackson Five. Assim, ainda quando era integrante do grupo, já lançava álbuns solos. Tudo isso graças ao carisma que Michael Jackson possuia, indispensável para um astro da música pop. Além de se caracterizar como sendo um artista completo. Sem desmerecer, é claro, outros artistas, MJ não só aparecia no palco para cantar, era ele quem escrevia e compunha suas músicas, criava as coreografias e exercia papel bastante importante na direção de seus videoclipes.

É inegável dizer que a partir de um determinado momento o astro entrou em decadência. Afundou-se em dívidas, envolveu-se em escândalos como quando foi acusado de pedofilia e quando pendurou seu filho ainda bebê pela janela, sempre foi de uma saúde frágil e era conhecido por ser viciado em analgésicos. Se ele realmente praticou pedofilia é difícil dizer, mas quanto ao seu filho pendurado na janela do quarto do hotel, é como meu pai disse: ele nem sabia o que estava fazendo. Uma pessoa que não tem jeito, nem prática de cuidar de crianças, foi apresentar o filho pela janela, e acabou, sem querer, pendurando-o do jeito que fez.

Tudo isso tem a ver com uma fragilidade emocional e física. Era muito criança quando entrou nesse mundo de celebridade, ausente de qualquer maturidade psicológica, e acabou sofrendo com sua própria fama. Esta foi tão grande que acabou tornando-se destrutiva. Ainda sim, devemos muito a Michael Jackson pela revolução que ele causou na música pop, graças ao seu talento imenso e único.

Talvez ele adquira a mesma fama que Elvis, e há quem diga por aí que Michael Jackson não morreu. Sobre isso aliás, tenho algo a acrescentar: há os que perdem seus batimentos cardíacos, suas características biológicas, mas nunca morrem. Há muitos por aí que comprovam isso.

domingo, 21 de junho de 2009

USP de novo!

Confesso que cada vez mais estou me entristecendo com a realidade universitária. Já me disseram que no final vai tudo valer a pena, tomara. Mas estou começando a refletir se fiz a minha melhor escolha. É simplesmente degradante o que está acontecendo na USP, e quando eu acho que não pode piorar... Adivinha? Piora! Não queria escrever mais sobre isso no meu blog, mas neste última sexta feira aconteceu algo digno de ser notado para confirmar o quanto o Movimento Estudantil, atuando como massa de manobra dos movimentos do Sintusp, age por interesses próprios e por métodos fascistas.

Um grupo de alunos da USP contrários a greve fizeram um movimento próprio intitulado como "a greve da greve", e para isso organizaram um flash mob no campus da USP somente para se juntar, trocar umas ideias e mostrar a quem quisesse ver que o grupo contra essa situação enfrentada hoje pela universidade é forte e grande. Bom, organizada pelo orkut, eu, sinceramente, não havia dado muito crédito ao movimento achando que não ia dar em nada. Quando eu vejo, no dia seguinte, um depoimento de um dos organizadores do flash mob dizendo que durante a manifestação, que até então estava sendo pacífica e sem grandes acontecimentos, o grupo de grevistas da USP chegaram e expulsaram os anti-grevistas a base de xingamentos, lançamento de pedras e até mesmo pontapés. Aqui está o relato do rapaz.

Mas é claro, que apesar das confirmações de outras pessoas que disseram ser testemunhas no próprio tópico do relato, é possível se duvidar de tais acontecimentos. Só que eu ainda estou refletindo se é para rir ou para chorar. Primeiro porque esse grupo de grevistas não percebem que estão fazendo o que dizem que estão lutando contra: estão em greve por causa da presença da PM que se diz intimidadora e um indício de ausência de diálogo pois representa uma força repressora, mas ao mesmo tempo sentem orgulho de terem dispersado o grupo de anti-grevistas, que estavam realizando o flash-mob, da forma como fizeram. Aqui está o relato de um fascista orgulhoso. Para completar a veracidade, pelo menos em partes do que disse nosso colega agredido, há vídeos postados no youtube. Não mostram as cuspidas, as pedras, os chutes... Mas mostram a agressividade verbal que esses pseudo-alunos da Universidade de São Paulo que ficam sete, oito e até nove anos mamando as custas do Estado sem retribuir essa contribuição a sociedade são especialitas em praticar. Vergonhoso.

Só completo que diante dessa realidade reforço minha posição a favor da PM no campus, se essa for a condição para que os alunos de opniões contrárias não sejam agredidos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Engenho São Jorge dos Erasmos

O Brasil, assim como outros países que foram submetidos a um regime colonial, teve seu sentido de colonização único e exclusivamente para o lucro de sua respectiva metrópole. Isso é o que denuncia Caio Prado Jr., um gênio brasileiro, em seu livro Formação do Brasil Contemporâneo, mas isso é um assunto a ser tratado numa outra ocasião. O que quero falar aqui é sobre as ruínas no Engenho São Jorge dos Erasmos, um patrimônio cultural, da capitania de São Vicente que hoje se encontra na cidade de Santos, no litoral paulista. Este engenho, um dos primeiros a ser construídos na América Portuguesa foi um importante personagem da gênese das práticas políticas coloniais e da produção açucareira no que um dia viria a se tornar o Brasil.

Martim Afonso de Souza, quando chegou ao litoral da América Portuguesa, veio com intenções colonizadoras e povoadoras a fim de expulsar a constante ameaça da presença francesa. Mas é claro que apenas sua vinda e estabelecimento, não traria o lucro que a metrópole tanto queria. Portugal, baseada nas produções primitivas de açucar em ilhas do Atlântico enviou Martim Afonso de Souza com mudas de cana. Além disso, este nosso colonizador se instalou em uma área bastante favorável. Além de geograficamente ser uma porta ao sertão adentro da colônia portuguesa, a relação luso-indígena já estava bastante favorecida graças a presença de náufragos portugueses que lá se instalaram anos antes e criaram uma relação pacífica com os índios da região. João Ramalho é um desses personagens históricos, ele não só se casou com a filha do líder, como veio a se tornar o líder mais tarde, além de controlar o acesso ao planalto paulista e ser um importante agente de tráfico indígena. Mais tarde, esse colonizador bastante intrigante veio fundar a vila Santo André da Borda do Campo, que hoje corresponde ao cidade de Santo André no ABC Paulista.

Quando Dom João III criou as capitanias hereditárias, a Vila de São Vicente se tornou capitania com Martim Afonso de Souza sendo seu donatário. Este instaurou o produção de açucar e, entre outros engenhos, a construção do Engenho do Governador. O investimento para a produção açucareira, contudo, era bastante alto e, portanto, de difícil acesso para muitos. Para facilitar esse setor econômico na região, Martim fez uma aliança com a Família Schetz da Antuérpia e o nome do Engenho passou a ser São Jorge dos Erasmos. O engenho era bastante primitivo, seguindo os moldes dos da Ilha de São Domingos e, portanto, não possuía em sua estrutura as famosas Casa Grande e Senzala. Estas só vieram a ser construídas nos engenhos do Nordeste, que contavam com uma área bastante grande e uma produção também bastante elevada.

A produção não durou muito. Possuía muitas desvantagens em relação a produção nordestina: baixa qualidade do solo, distância entre a metrópole muito maior e os seus investidores, a família Schetz, enfrentava a Guerra dos Países Baixos. Assim, o engenho entrou em decadência como os outros do litoral santista. No século XIX, o engenho não acompanhou o breve surto de produção açucareira paulista no litoral norte, que logo perdeu espaço para a produção cafeeira.

Hoje, o Engenho pertence a Universidade de São Paulo e está submetido a inúmeros estudos históricos e arqueológicos e uma reforma que visa a restauração e preservação de suas ruínas. Durante as férias é aberto para visitas, possibilitando uma maior integração social ao que restou de testemunho da época em que a política colonial estava em sua gênese.

Site da USP sobre o Engenho de onde tirei as fotos.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A terça-feira fatídica para a USP

Acho que mesmo sem querer, estou acompanhando a greve pelo meu blog. Comecei falando da paralização dos estudantes que sucederam a greve dos funcionários, depois a barricada e agora a situação fatídica que a USP enfrentou ontem.

Como acompanhei de longe o que aconteceu na USP, há coisas que não sei direito realmente, como quem começou o conflito? De um lado li que foram os alunos que começaram jogando pedras e garrafas, de outro é dito que foram os policiais que começaram com provocações a duas "companheiras". Essa última informação no site da Sintusp.

O fato é que essa situação é decadente. Numa faculdade com dezenas de milhares de alunos, quantos estavam nas imagens de ontem? Num chegava a ser metade. Outra coisa que me entristece enormemente, é essa generalização com os alunos da FFLCH. Infelizmente é sim lá o foco de manifestação, mas são uma minoria, dentre os alunos da FFLCH, que são a favor da greve, fazem barricadas e se dizem revolucionários querendo mudar a faculdade. Segunda-feira vi na parece uma pichação que dizia ''Por uma USP sem reitoria". O que querem? Que uma universidade do porte da USP, como dezenas de milhares de alunos, seja entregue as mãos dos alunos? Esses mesmos que fazem dos corredores de um prédio público mantido pela sociedade e dela pertencente com suas passagens obstruídas?

Pareço ser individualista a dizer que estou preocupada com o meu ano. Porque com os acontecimentos de ontem, a manifestação contra a reitora e seu "impeachement" tomou força, sendo que seu mandato acaba no final do ano. Diante da negação do Serra de tirá-la do seu cargo, estou vendo a História em greve até o final do ano. Mas isso não é individualista, porque esse é o problema de muito mais gente.

Segunda-feira participei de uma assembleia na história que, a príncipio, deveria discutir sobre a greve e lá ouvi argumentos repugnantes. Um aluno disse que "tem gente que entra na USP querendo estudar. Mas se você entrou com essa intenção, você se fudeu, porque aqui você não tem aula, você tem é que discutir os problemas da universidade!!". Isso me indignou. Desculpe, mas se ele se preocupa tanto com política e os problemas da universidade, porque ele não entrou em qualquer universidade com muito menos qualidade? Assim ele teria muito mais tempo para discutir problemas mais reais do mundo real como a miséria, a fome, a desigualdade, a corrupção, etc. O que será da USP no futuro com essa interferência dos alunos acéfalos que querem fazer da minha faculdade - a FFLCH - um centro de debate político composto por crianças que leram o Manifesto do Partido Comunista e se dizem revolucionários especialistas em Marx? A Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, antes de um lugar de combate entre alunos e policias (como foi o caso ontem) deveria ser um lugar de formação de historiadores, geógrafos, sociólogos e filósofos que se preocupam com os problemas da sociedade e tentam resolvê-los, ao contrário de criar mais problemas.

Os alunos podem ter seus milhares de motivos contra a presença da polícia no campus, se preocupam imensamente com a política do campus e com a reitoria, se preocupam inclusive com os funcionários, seu aumento salarial e a readimissão do Brandão, mas estão longe de se preocupar com a decadência do ensino que eles mesmos estão provocando. Não é a luta contra a Univesp que vai melhorar o ensino superior no Brasil, são manifestações mais conscientes sem autoritarismo e confronto com a polícia.

Só termino essa desabafo dizendo que ontem senti vergonha de fazer parte da USP, inclusive, da FFLCH. Instituição que possui o melhor curso de história da região, a melhor das bibliotecas e os professores, exemplos de formação, que em poucos meses me fizeram perceber que eu amo a História, muito mais do que quando entrei na faculdade.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Alta cultura mesoamericana

Num outro post, já havia falado sobre cultura. Foi colocado em questão se o homem é mais cultural ou mais instintivo. Lá deixei bastante clara minha opnião, mas para de certa maneira confirmá-la mais um pouco com bons argumentos, relatarei aqui a visão que Miguel Léon Portilla tem sobre cultura e alta cultura, que foi o tema central de um trabalho que fiz para América Colonial na faculdade.

A começar pelo autor, Miguel Léon Portilla é um historiador e antropólogo mexicano especializado em povos e culturas pré-hispânicas no México. Sua obra de doutorado foi a Filosofia do Nahuatl, língua oficial dos astecas. Em uma compilação de artigos sobre América Colonial, Léon Portilla escreve em seu artigo uma síntese sobre os povos pré-hispânicos da Mesoamérica dando bastante destaque aos Mexicas, também conhecidos como astecas.

O curioso de seu trabalho é o caminho pelo qual ele percorre. Seguindo rigorosamente uma cronologia a fim de mostrar a evolução cultural sofrida pelos povos mesoamericanos, começa com os povos mais primitivos e vai evoluindo até os mexicas, que são considerados pelo autor como o ápice de desenvolvimento cultural mesoamericano. O que me intrigou ao começar a ler este texto e perceber essa clara distinção entre culturas desenvolvidas e culturas primitivas, não desenvolvidas, é se era válido questionar o desenvolvimento cultural de qualquer povo. Eu me perguntei se considerar um povo altamente desenvolvido culturalmente não era desprivilegiar outros seguindo um critério baseado em nossa cultura. Qualquer um que coloque em questão o nível de desenvolvimento cultural seja lá de qual povo for, vai se auto considerar como o mais evoluído, e seguirá suas próprias referências.

Mas, dada a sua formação, Léon Portilla sabe do que está falando. Alta cultura para ele não é aquela mais desenvolvida, nem a que necessariamente domina outros povos atraves da força bélica. Alta cultura é uma entidade própria, que sobrevive a morte de seus possuidores, para ser posse de outros, e assim, sofrer uma constante evolução cultural em suas diversas esferas: política, social, econômica e artística.

Considerar os Olmecas menos desenvolvidos culturalmente que os astecas, não é desprivilegiá-los. É trabalhar com fatos: eles iniciaram a alta cultura mesoamerica, mas sua organização política era primitiva, e não chegava a constituir uma civilização nem um Estado, suas manifestações artísticas se limitavam a esfera religiosa, a organização social não era complexa, se dividindo simplesmente em critérios de trabalho, e a organização econômica se apresentava limitada entre a produção subsistente e um comércio de pouco alcance.

Os mexicas por sua vez, apresentavam uma extrema complexidade entre todas essas esferas características de alta cultura. Além das esferas política, social, econômica e artística, possuíam a habilidade de contar e manipular a própria história, além de, assim como os maias, possuíam calendários e uma escrita bastante complexa. Dentre várias outras características, os possuidores de uma alta cultura mesoamericana, que não se limitam aos olmecas, maias e astecas, problematizam o tempo, criando métodos de escrita, como os hieróglifos, para que as informações de suas origens trascendam o alcance da memória.

Na foto acima, Calendário Asteca, também conhecido como Pedra do Sol, calendário utilizado pelos astecas até a chegada dos espanhóis. Este calendário é baseado no Sol, portanto possuí 365 dias.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O dia em que descobri que estava de greve

As vezes não é preciso ir muito longe para ver na prática algo que estamos estudando. O ruim, e digo pela minha recente experiência, é nos casos em que o objeto estudado não é dos melhores. Não é novidade que as universidades estaduais e federais enfretam constantes greves como meio de reivindicações de inúmeras melhorias. Mas devo aqui juntar meu objeto de estudo e reflexão nas últimas semanas e a situação que encarei ontem na USP.

Como fruto de umas conversas entre colegas da faculdade de história e também de geografia, comecei a pesquisar e refletir se vivemos num regime totalitário sem percebemos. Ainda não tive a oportunidade de procurar boas fontes sobre o assunto, principalmente porque a biblioteca não está funcionando, mas achei bons textos na internet. E também, lendo trechos de livros de Eric Hobsbawn e Fernand Braudel, vi que não é possível eu tirar uma conclusão afirmativa sobre isso, uma vez que só é possível entender algo pelo seu inteiro depois que este se passou. Minhas conclusões de hoje podem sofrer radicais transformações em 10, 20 anos. Mesmo assim, é possível pensar sobre isso.

Por mais que a ditadura e a Guerra Fria tenham acabado, vivemos uma repressão de pensamento por todos os lados. Dizer que temos liberdade de pensamento pode até ser verdade, mas não é em todas as instâncias possível ou cabível demonstrar a própria opnião. A Guerra Fria criou em nossas mentes uma dicotomia. Capitalismo versus Socialismo, certo versus errado, tomar partido ou não tomar partido, ser a favor ou contra... Se abster de uma opnião é necessariamente se colocar em cima do muro e, inevitavelmente, favorecer um dos lados. Essa última, foi o que ouvi de um colega na segunda feira.

Segunda feira a polícia militar invadiu (acho essa palavra um tanto quanto perigosa, pois eles não apareceram do nada. Foram chamados e estavam lá cumprindo ordens, e não fazendo o que bem entendiam em razão de motivos próprios) o campus da USP; mantendo-se em frente a reitoria para que uma invasão ou piquete (e dessa vez a uso num sentido mais específico: entrar em favor de interesses próprios ou de um grupo pequeno) de qualquer esfera (funcionários e alunos) não ocorresse.

Oras, o que eu não entendi foi o tamanho alarde em relação a isto. Na USP há vendas e consumo de drogas, bebidas alcoolicas, são delatados roubos e até estupros no campus. Tudo isso pode e a polícia não? Por que eu não vejo uma mobilização contra a falta de policiamento (que irônico, não?) para que não ocorra mais eventos desse tipo? Sinceramente, a segurança no campus é precária, ainda mais sem o circular. Tenho uma amiga que perde o final da aula todo dia para não ir até a estação no escuro. Além do mais, a presença da polícia lá foi apenas uma resposta da invasão da reitoria que ocorreu na semana anterior que, atraves de atos de vandalismo, trouxe um grande prejuízo para a universidade.

Se a polícia representa uma força repressiva de um lado, por outro me entristeceu ver a repressão por parte dos próprios alunos, que tanto lutam contra isso, no próprio prédio da história e da geografia. Ao impedir o acesso às salas de aula com barricadas de cadeira é deslegitimar qualquer movimento estudantil, pois se mostra como pertencente de um grupo que está longe de ser a maioria (nenhum professor, acredito, daria aula para 3 ou 5 alunos na sala de aula).

Infelizmente, o que tanto pesquisei nas últimas semanas sobre totalitarismo ficou mais que evidente de uma forma bastante concreta ontem. Por um lado, os alunos reclamavam da repressão dos policiais que estavam parados em frente a reitoria, e por outro esses mesmos alunos colocavam medo em qualquer um que sequer pensasse em atravessar a barricada.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Preconceito e Cidadania

Nos cursos de ciências humanas não se divide matéria. Por mais que haja várias disciplinas, é impossível separar os conhecimentos e por isso aprendemos tudo junto. Isso nos permite correlacionar efeitos e causas do nosso cotidiano. Como no caso da intrínseca habilidade dos brasileiros de falar mal do próprio país e a falta de cidadania também do povo brasileiro.

Duas coisas me chamaram a atenção ao longo dessa semana. Primeiramente, é comum discutir história ou falar para alguém que estudo história e além de ouvir um ''Para que? Para dar aula?'', ouvir "Nossa, eu odeio História do Brasil!", ou então "A História Europeia é muito mais legal!". Oras, a partir do século XV é impossível estudar a Europa sem um contexto mundial. Antes disso porém, a história europeia sempre esteve bastante ligada com o norte da África e com parte da Ásia. Depois das grandes navegações, a colonização teve impactos econômicos, sociais e políticos profundos na Europa, não só nos países Ibéricos. Por que então querer separar o que não pode ser separado?

Mas esse preconceito (porque é assim que chamo esse desgosto pela história brasileira) em relação ao Brasil não se limita a sua história. Por que muita gente fala que odeia filme nacional? Concordo que tem uns muito ruins, mas tem outros muito bons! Igualmente com filmes ''hollywoodianos''. Mas as coisas não param por aí, as pessoas também criticam a política e o governo, esquecendo-se que são elas as maiores responsáveis pelos nossos representantes políticos em Brasília. Criticam ainda o povo brasileiro, numa xenofobia nacional. Chega a ser engraçado, porque em outros países, na própria Europa, por exemplo, tão valorizada e admirada pelos pobres (nos dois sentidos) brasileiros, a xenofobia é contra o estrangeiro, enquanto que aqui a xenofobia é contra nós mesmos!

Em segundo lugar, em um outro dia li um post num blog de um historiador que admiro muito sobre cidadania. O povo brasileiro não tem cidadania. E não tem mesmo, não sabem viver em grupo e agir como cidadãos em prol do bem comum. O individualismo é reinante. Mas as causas dessa falta de cidadania se encontram na mesma origem que essa falta de respeito - porque não precisa ser amor nem admiração - em relação ao nosso país. A mídia só mostra as coisas podres do Brasil em contraste com as maravilhas lá de fora. A Índia não é tão bela quanto mostra Glória Perez e nem é preciso esse sensacionalismo chocante para mostrar a violência da realidade brasileira.

É fácil colocar a culpa nos nossos representantes políticos quando esquecemos que somos nós os responsáveis pelos cargos que ocupam e que eles não fazem tudo por nós; que somos cidadãos, que vivemos em sociedade - e na sociedade brasileira - e que para um bem comum todos devem fazer sua parte. Meu pai me conta que nos tempos em que viveu na Alemanha, se um motorista via o motorista do carro da frente jogar lixo pela janela, a "testemunha" anotava a placa do carro para denunciá-lo mais tarde. Aqui no Brasil, na mesma situação, quem vê o lixo sendo jogado para fora da janela fala "se ele pode, eu posso também" e repete o que o da frente acabou de fazer.

Acho que tudo isso decorre de uma falta de valorização nacional. Não há porque cuidar e valorizar um espaço nosso se os responsáveis por isso conservam um desgosto pelo mesmo. Infelizes são os que comparam o Brasil a países desenvolvidos - comparação um tanto sem sentido. Estudar em faculdade pública e em cursinhos particulares - lugares bastante elitistas - nos fazem ouvir coisas bastante desagradáveis como:
- Nas férias fui para a Inglaterra (ou Itália, Alemanha, França, etc.) e estou morrendo de saudades de lá porque é infinitas vezes melhor que aqui.
Coitados, se esquecem que são turistas. Turistas, além de serem sempre bem tratados, só visitam a parte bela que tem que ser mostrada e não enfrentam nenhum problema como desemprego, xenofobia, e outros problemas mais específicos de cada lugar; como o lixo é no sul da Itália.

As origens desta falta de cidadania digo que se encontram na escola. Esta deveria ser o lugar de formar bons cidadãos e críticos da realidade vivenciada. Mas ultimamente, essa forma nojenta de classificação e seleção universitária - o vestibular - fez o índice de aprovações ser a chave mestra de propaganda publicitária dos colégios particulares. Enquanto que os colégios e escolas públicas estão cada vez a margem da sociedade comportando jovens de baixa renda e agindo como meio de conservá-los nessa classe social.

Enfim, é esperança que um dia o brasileiro, através de uma política eficiente, aprenda a ser cidadão e a viver em comunidade.