quinta-feira, 12 de novembro de 2009

... eis a questão.

Apesar de eu ter prometido comentar alguns aspectos importantes do documento anterior, hoje mudarei de assunto. Fiquei muito feliz com alguns comentários, porque ao ler o documento, nossa tarefa de historiador é questioná-lo e a pergunta principal é "até onde vai a verdade do que estamos lendo e o que ele não fala?".

Mas enfim, tratarei dele mais tarde. Hoje falarei sobre algo que não muito a ver com história.
Muitos colegas de faculdade com quem estudo são vegetarianos. Eu não me importo, nem nunca comentei com ninguém deles minha sincera opinião sobre isso, até porque nunca havia também refletido muito sobre a justificativa deles.

Em quase quatro anos da minha adolescência não comi frango nem carne vermelha. Como minha família também não tem o costume de comer regularmente peixe, posso dizer que fiquei um bom período sem comer quase nenhuma carne, deixando a o peixe para finais de semana esporádicos. O que me levou a isso? Nenhuma ideologia profunda. Em uma discussão fui desafiada a isso. E pronto (nunca me desafiem! rs). Isso me trouxe alguns benefícios. Apesar de nova sofria com colesterol alto, além de regular este problema, perdi alguns significantes quilos.

Esta semana, porém, os argumentos de um vegetariano me fez refletir. Entendo o vegeteriano que além de não comer carne não usa artigos de couro, mas alguns (na verdade todos) argumentos estilo vegetarianos me deixaram inquieta. Comer carne é retrógrado. Faço isso em favor a vida dos animais. Tais argumentos levaram também ao fato de ser cruel andar em cavalos e não matar baratas, apenas colocá-las para fora de casa.

Na pouca experiência quase vegetariana que tive, posso entender sem dificuldades o vegetarianismo em favor da saúde, mas em favor a vida dos animais não me convence. Ninguém ao seu redor muda o hábito de alimentação por sua causa. Nunca fui à uma festa sem coxinha ou pão com carne de panela, ou então nunca deixaram de fazer um churrasco por minha causa, muito menos lasanhas ou macarronadas. Para ser sincera, ficava sempre chupando o dedo procurando comer o que tinha de queijo. Raríssimos são os lugares com a "opção vegetariana".
Ou seja, ninguém deixa de consumir carne. Numa pizzaria, num restaurante... Sempre há as opções de carne, independentemente se uma ou outra pessoa não coma.

Além do mais, vivemos numa sociedade capitalista cujo motivo de produção é o lucro e não o bem-estar dos animais. Comer ovos e tomar leite não é tão a favor da vida dos animais. Não é tão raro ver notícias acusando granjas ou indústrias leiteiras dando hormônios para os animais produzirem mais. Além das condições em que os animais vivem. E quando não produzem mais o esperado? Não é vantajoso continuar com um animal que não traz lucro.

Quanto a comer carne é retrógrado. Este é o argumento que mais me incomoda. Segundo o que ouvi, há anos nós sobrevivemos graças aos nossos ancestrais comedores de carne, hoje já não é mais preciso, porque temos outros recursos para substituir as substâncias que a carne nos oferece. Pois bem, discordo totalmente disso. Comer carne faz parte de uma cultura alimentar. Vemos o caso do Brasil, quantos são os pratos típicos salgados que envolvem carne? Só para alguns exemplos temos o acarajé, a feijoada, a carne seca, o famoso churrasco gaúcho...

Enfim, andar a cavalo não é cruel, depende do dono. Se o "sistema de freios" fosse tão ruim, não haveria relações de amizades tão fortes entre os cavalos e seus donos como vemos em alguns casos. E não há mal nenhum em matar uma barata, um vetor de doenças. Matar uma ou outra que entra dentro de casa não colocará em risco a espécie que vive aos montes nos esgotos.

Eu acho que há várias outras maneiras de lutar em favor aos animais não tão cômoda como não comer carne. Lutar contra o tráfico ilegal de animais silvestres, contra a extinção, contra a poluição dos rios e mares, contra o mau trato de animais domésticos, contra o desmatamento, etc.

O desmatamento, aliás, grande causador da morte de animais silvestres, tem crescido em grandes proporções, também, pelo aumento das plantações de soja. Alimento atrativo à quem não come carne.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Abaixo, transcrevi um documento que estou trabalhando na faculdade. Este documento faz parte de um conjunto de outros três, nos quais todos tratam de relatos sobre o dia em que D. Pedro declarou o Brasil independente. Cada um a sua maneira, é claro. O trecho foi encontrado num livro no Rio de Janeiro em 1826 que foi editado em Paris, de autoria anônima cujo título era "O grito do Ipiranga e o Brasil político". No livro constava descrito vários episódios políticos do Brasil, entre eles a proclamação da independência que está transcrito abaixo. Os exemplares do livro, por ordem de D. Pedro, foram apreendidos e queimados, portanto hoje é um livro raríssimo. Com o tempo, descobriu-se a autoria do livro, que foram vários autores, entre eles, o próprio Padre Belchior, responsável pelo documento transcrito.

"O Príncipe mandou-me ler alto as cartas trazidas por Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro. Eram elas: uma instrução das Cortes, uma carta de D. João, outra da Princesa, outra de José Bonifácio e ainda outra de Chamberlain, agente secreto do Príncipe. As Cortes exigiam o regresso imediato do Príncipe, a prisão e o processo de José Bonifácio. ; a Princesa recomendava prudência e pedia que o Príncipe ouvisse os conselhos de seu Ministro; José Bonifácio dizia ao príncipe que só havia dois caminhos a seguir: partir para Portugal imediatamente e entregar-se prisioneiro das Cortes, como estava D. João IV, ou ficar e proclamar a independência do Brasil, ficando seu imperador ou Rei; Chamberlain informava que o partido de D. Miguel, em Portugal, estava vitorioso e que se falava abertamente da deserdação de D. Pedro em favor de D. Miguel; D. João aonselhava ao filho obediência à lei portuguesa.
D. Pedro, tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e amarrotando-os, pisou-os, deixou-os na relva. Eu os apanhei e guardei. Depois, abotoando-se e compondo a fardeta (pois vinha de quebrar o corpo à margem do riacho Ipiranga, agoniando por uma desenteria com dores que apanhara em Santos) virou-se para mim e disse:
- E agora, Padre Belchior?
E eu respondi prontamente:
- Se. V. Altaeza não se faz Rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e talvez seja deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.
D. Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro e o Chalaça, em direção aos nossos animais, que se achavam em local próximo. De repente estacou, já no meio da estrada, dizendo-me:
- Padre Belchior, eles o querem, terão a sua conta. As Cortes nos perseguem, chamam-me com desprezo, de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale esse rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações, nada quero do Governo Português. Está feita a liberdade do Brasil.
Gritamos imediatamente:
- Viva a liberdade do Brasil! Viva D. Pedro!
O Príncipe virou-se para seu ajudante de ordens e disse:
- Diga à minha guarda que eu acabo de fazer a independência do Brasil, com separação de Portugal.
O tenente Canto e Melo cavalgou em direção a uma venda, onde se achavam quase todos os dragões da guarda e com ela veio ao encontro do Príncipe, dando vivas aos Brasil independente, a D. Pedro e à Religião!
O Príncipe, diante de sua guarda, disse então:
- Amigos, as Cortes portuguesas querem escravizar-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais!
E arrancando do chapéu o laço azul e branco, decretado pelas Cortes como símbolo da nação portuguesa, atirou-o ao chão, dizendo:
- Laço fora, brasileiros! Viva a independência e a liberdade do Brasil!
Respondemos com um viva ao Brasil independente e viva a D. Pedro!
O Príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares; os paisanos tiraram os chapéus. E D. Pedro disse:
- Pelo meu sangue, pela minha honra, por Deus, juro defender a liberdade do Brasil.
- Juramos, respondemos todos!
D. Pedro embainhou a espada, no que foi imitado pela guarda, e pôs-se à frente da comitiva, e voltou-se, ficando em pé nos estribos:
- Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será o dístico Independência ou Morte, e as nossas cores, verde e amarelo, em substituição às das Cortes.
Firnou-se nos arreios, esporeou sua besta baia, galopou, seguido de seu séquito, em direção a São Paulo, onde foi hospedado pelo brigadeiro Jordão, capitão Antônio Silva Prado e outros, que fizeram milagres para contentar o Príncipe.
Mal apeara a besta, D. Pedro ordenou ao seu ajudante de ordens que fosse, às pressas, ao ourives Lessa e mandasse fazer um dístico em ouro com as palavras: - Independência ou Morte, para ser colocado no braço.
E com ele apareceu no espetáculo, onde foi aclamado Rei do Brasil pelo Padre Ildefonso Xavier, cujos vidas foram repetidos pelo povo que ali se achava.
No teatro, por toda a parte, só se viam laços de cores verde e amaralo, tanto nas paredes, como no palco, nos braços dos homens e nos cabelos e enfeites das mulheres".

Pretendo, num post futuro, escrever porque esse pavor de D. Pedro às Cortes e porque seu pai, na carta que lhe enviou, recomendou obediência às Cortes. E também, como essa "rebeldia" de D. Pedro foi encarada pelas próprias Cortes lá em Portugal. E também, talvez, como a independência foi vista por outros "telespectadores" do grito do Ipiranga.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os "sampaulistas"

São Paulo no período colonial foi uma grande especificidade. Não havia monocultaras de cana e alta produção de açucar, nem um intenso tráfico de escravos. As famosas casas grandes e senzalas que aprendemos na escola são característicos das capitanias do atual nordeste brasileiro. O único momento colonial paulista que vemos no ensino regular é sobre os bandeirantes. Apesar de esta visão estar mudando, ainda em São Paulo estudamos os bandeirantes pela sua importância no desbravamento do sertão, sendo encarados como heróis, sendo este o motivo por tantas rodovias terem os nomes destes personagens. Entre as mais famosas: Rodovia Fernão Dias, Anhanguera, Raposo Tavares e a Rodovia dos Bandeirantes.

Mas São Paulo tem algumas especificidades que valem a pena ser analisadas melhor. Especificidades estas que ligam a região do planalto paulista e o tão importante nordeste produtor de açucar.

Os tais bandeirantes, antes de assumirem propriamente este papel, eram conhecidos pelo resto da América Portuguesa por "sampaulistas" e eram encarados como uma gente estranha, que vivia no meio do mato. Isso acontecia porque os habitantes do planalto paulista "caçavam" indígenas e disso viviam além de um dificultoso comércio de produtos de subsistência realizado na serra entre o planalto e o litoral, que possuía alguns poucos engenhos de baixa produção de aguardente e rapadura.

Para terem sucesso em seus aprisionamentos de indígenas, os paulistas tiveram que aprender com os próprios índios. Despreparados, os portugueses eram facilmente mortos pelos índios que usavam métodos de guerrilha. Acostumados com o terreno e grandes conhecedores da fauna e da flora, sem serem vistos, se moviam e atiravam flechas em seus adversários por cima das árvores. Assim, os paulistas. adotando seus métodos, aprenderam com eles a se moverem e a lutarem na "selva" tropical.

Lá no Nordeste, quando o quilombo dos Palmares chegou num ponto de ameaça à soberania do Estado português e à ordem escravista e na capitania do Rio Grande (hoje Rio Grande do Norte) estoura uma rebelião indígena dos antigos aliados dos holandeses, chamar os "sampaulistas" foi uma alternativa que se mostrou mais eficiente para acabar com tal "desordem". Comprar esse serviço não era barato. Domingos Jorge Velho foi chamado para cuidar destes dois eventos em troca, é claro, de terras para virar um grande senhor de engenho. Este era, afinal, o sonho de todos os paulistas que viviam no meio do mato caçando índios: ser um grande senhor de engenho.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Roteiro de leitura - M. Chauí

Nesta última semana li uma parte do maravilhoso e bastante difícul livro da Marilena Chauí. Acredito que todos conhecem essa grande filósofa, seja porque ouviu seu nome na televisão ou porque durante a escola o professor comentou sua obra. Sua linguagem é densa e pesada e por isso, realizei um roteiro de leitura de um determinado capítulo do livro: "Crítica e Ideologia". Este capítulo, que segue uma corrente materialista, é interessantíssimo e, caso eu fosse transcrever todas as idéias e conclusões tiradas, o post seria imenso. Para facilitar então, colocarei aqui apenas alguns dos quais achei mais interessante dos tópicos do roteiro. Em algumas partes, há trechos transcritos e em outras trechos de minha própria autoria.

O que se entende por sociedade propriamente histórica?
Sociedade propriamente histórica é aquela que, diferente da sociedade histórica, problematiza o tempo, sua história. Através da ideologia, faz uso de datas próprias, instituições próprias e precondições específicas para não estar no tempo, mas ser o tempo. Em outras palavras, toda a sociedade é histórica porque é temporal, porém, a sociedade propriamente histórica tematiza sua temporalidade, transformando-a em objeto de reflexão. Como conseqüência desse processo, a ideologia ganha um sentido concreto e continuamente cria internamente sua diferença consigo mesma. Essa petrificação do tempo característica da sociedade propriamente histórica, por sua vez, só pode ser alcançada pelo uso da violência e da máscara de uma identidade fixa, manejada pela ideologia.
Há um terceiro tipo de sociedade, que não se encaixa muito bem nessa classificação. É a sociedade que oferece a si mesma uma explicação que transcende a própria sociedade e assim lhe garante intemporalidade. Vista sob nosso ponto de vista ela é sim histórica, mas para ela mesma não. Encontramos essa característica em sociedades orientais, cujo tempo é encarado como cíclico e a história não é registrada, mas contada oralmente.


Exlique o conceito de ideologia como discurso lacunar
O discurso ideológico é feito por lacunas, por espaços em brancos e é graças a isso que seu discurso faz sentido. Essa coerência é o fato de que se mantém com uma lógica coerência e que exerça poder sobre os sujeitos sociais e políticos. “É porque não diz tudo e não pode dizer tudo que o discurso ideológico é coerente e poderoso”. Se tentarmos preencher os espaços em branco, não transformaremos um discurso ideológico ruim em um discurso ideológico bom, destruiremos em verdade sua condição de ideologia.


Por que a ideologia se mantém?
Uma vez que a ideologia se mantém na recusa da realidade, cabe a pergunta de como e por que ela se mantém. Em outras palavras, é preciso entender como a vida social e política oferece meios para reforçar a ideologia.
1° motivo: caráter imediato da experiência a faz permanecer esmagda no desconhecimento da realidade concreta, isto é, do processo de constituição da sociedade e da política. Ou seja, o fazer, a prática, que é feita e logo acaba, não está envolvido com seus processos mais amplos de porque’s e conseqüências, caracterizando, se eu não estiver enganada, num processo de alienação de seus agentes.
2° motivo: a ideologia oferece um “bem-estar” aos indivíduos sociais e políticos retratando uma realidade falsa como idêntica, homogênea e harmoniosa, fornecendo aos sujeitos uma resposta aos desejo metafísico de identidade e ao temos metafísico da desagregação. É uma exigência metafísica dos sujeitos sociais e políticos. A ideologia propicia uma experiência de racionalidade organizada e de lugar “natural” de cada ser humano, e é isso que dá à ideologia força total. Aqui é a primeira vez que usam a metafísica como um argumento concreto.

domingo, 13 de setembro de 2009

Café com leite

Lembro-me do melhor copo de café com leite que tomei na vida. Quantos anos eu tinha? Seis. Sete. Talvez oito. Era uma manhã de final de semana. Sábado ou domingo. Naquela época todos os dias da semana eram iguais, pouco importava se era segunda ou sexta. O mesmo acontecia com os finais de semana.


Naquela manhã, ensolarada pelo que podia ser visto da janela, o leite urbano, tirado da caixinha, tinha sido esquentado no fogão (o microondas ainda não tinha chegado a minha casa para acelerar as coisas) e colocado, juntamente com o café feito na hora, num copo americano. O leite, porém, tinha sito fervido e, por isso, não era possível tomar o café com leite preparado pela minha mãe.


Ela, portanto, na pia para não sujar a toalha da mesa, fez uso de um truque muito antigo para esfriar leites muito quente: com a ajuda de um outro copo, trocava rapidamente o líquido amarronzado de recipiente. Acredito que todos conhecem essa técnica. Por fim, o copo americano que eu usaria, foi lavado e, no copo ainda molhado, foi-me entregue o café com leite mais perfeito que já tomei. Nem quente nem frio demais. Nem doce nem amargo demais. Simplesmente perfeito.


Estou com muitas saudades desse café com leite.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

7 saberes necessários à educação do futuro

Eu escrevi a composição abaixo como forma de resumo de um texto que li. Eu o achei interessante e completa uma segunda leitura que fiz anteriormente, na qual o objetivo maior da educação é não repetir Auschwitz, que foi o ponto máximo de barbárie humana. É claro que o autor usa o campo de concentração apenas como um exemplo, porque barbáries humanas são encontradas em várias outras partes do mundo com dizimações étnicas, guerras “sem sentido” e etc. A conclusão deste texto era que a civilização, para não repetir Auschwitz, só seria alcançada pela educação. A leitura abaixo, de um autor diferente, completou essa afirmação.

É de conhecimento de todos que a educação do Brasil está em crise, mas essa crise não é exclusiva brasileira e nem tão recente. Me questiono agora se este problema educacional geral é realmente a falta de educação civilizacional ou seria política, econômica e de conteúdos mais teóricos como o método de educação.


MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro.


Edgar Morin nos apresenta sete saberes que, segundo ele, são ignorados e subestimados pelo ensino e pelas escolas contemporâneas. É o que ele chama de “sete buracos negros da educação” e não se tratam especificamente de nenhum nível escolar, mas sim programas que deveriam ser colocados no centro da educação para formar bons cidadãos. A grande questão que envolve todos os saberes é o de civilizar o mundo. De uma forma ou de outra, todas as suas propostas podem ser convergidas para esse único ponto.


O primeiro grande saber é sobre o conhecimento. Segundo Edgar Morin, o conhecimento é enganador e ilusório. Para ver e conhecer a realidade é preciso explorar os erros, porque só assim ela é alcançável. Erros causados por diferenças sociais, culturais e étnicos, que fazem o “pensar diferente” como anormal e até como um desvio patológico e outros erros que são causados pela camuflagem de partes desvantajosas para os interessados. Assim, percebemos o mundo através de reconstruções e traduções da realidade, dependendo do ângulo e da perspectiva que vemos a realidade; e assim como toda tradução, ela é composta de erros. “Toda tradução é uma traição”.


O conhecimento pertinente é a contextualização do que vemos como conteúdo na escola na realidade em que vivemos. O meio que ele propõe para o ensino alcançar esse objetivo é a integração das partes. O ensino fragmentado, segundo o autor, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar. Portanto, é necessário ligar as partes, porque não é possível conhecer as partes sem conhecer o todo e vice-e-versa.


A identidade humana é outro ponto significativo. Nós fazemos parte de uma trindade indivíduo-sociedade-espécie, ou seja, nós somos indivíduos que fazemos parte de uma sociedade e também somos espécie. Para não acabar com esta é necessário se reproduzir e ter filhos que serão, como os pais, educados e moldados de acordo com a sociedade em que vive. Portanto, mostrar que o ser humano que é múltiplo enquanto é parte de uma unidade, é uma educação para civilizar o planeta em que vive. Para entender essa complexidade humana, o ensino da literatura e da poesia devem ser colocadas em primeiro plano, pois são elas que convergem para a identidade e para a condição humana.


Atualmente o individualismo tem ganhado um espaço cada vez maior socialmente e o ensino da compreensão humana tem sido trocada pela egocentrismo e o egoísmo: o “se dar bem”. Os seus grandes inimigos são a redução do outro, a visão unilateral, a falta de percepção sobre a complexidade humana e a indiferença. Se auto a avaliar e compreender a si mesmo é um primeiro passo. O cinema é outro recurso que ajuda a entender e a valorizar personagens anônimos da nossa sociedade, ensinando a superar a indiferença e ver os heróis invisíveis sociais sob um outro ângulo.


A incerteza é o quinto saber indicado por Edgar Morin. Saber que o inesperado aconteceu e acontecerá é um domínio necessário a ser mostrado, sobretudo na disciplina de História. Quase nada é como se espera ou deseja. Essa incerteza não apenas fomenta a coragem, mas também age como um meio de tomar consciência sobre a dimensão que decisões tomadas alcançam, além de aprender a lidar com situações inesperadas, saber agir diante do imprevisto com o pouco que se tem nas mãos.


A condição planetária atualmente mostra que a humanidade vive um percurso de destino comum. Diferenças étnicas, religiosas e culturais são superadas diante de ameaças nuclear e ecológica, crises ideológicas e econômicas que colocam todo o mundo em risco e perigo. Portanto, é difícil conhecer o nosso planeta dada a complexidade com que diversos fenômenos estão imbricados.


A antropo-ética, finalmente, é a “tomada de consciência social que leva à cidadania, para que o indivíduo possa exercer sua responsabilidade” que tem se expressado em organizações não-governamentais, superando os problemas da moral e da ética que diferem de acordo com a cultura e as origens dos indivíduos. Tudo isso acontece diante de uma regressão democrática implicada e agravada cada vez mais pelo poder tecnológico e econômico.


Edgar Morin nos faz essa exposição numa linguagem muito simples, repleto de exemplos concretos e bastante conhecidos. Seu objetivo é unir o que hoje se encontra fragmentado, causando a invisibilidade de problemas para muitos e que a visão total da realidade seja deficiente. Isso tudo porque o próprio planeta encontra-se unido e fragmentado ao mesmo tempo, um estado de caos, que só pode ser superado através da civilização. Esta, por sua vez, só será alcançada através de uma educação eficiente que leve em conta estes sete pontos acima e que hoje são ignorados.

sábado, 5 de setembro de 2009

Arquivos em sigilo no Brasil

O historiador precisa provar tudo o que fala. Ele faz isso por meio de suas fontes documentais que são desde artigos de jornais, processos jurídicos e contratos de qualquer espécie até obras de arte como poemas, músicas, pinturas e esculturas. As obras de arte, porém gera ambigüidade e, por isso, as fontes preferidas dos historiados são aquelas encontradas em arquivos públicos. O ponto contraditório nisso tudo é que o maior problema encontrado por esses pesquisadores se encontra justamente no acesso aos documentos protegidos pelos arquivos públicos. No Brasil principalmente, isso é significativo.


É comum entre todos os países existirem leis que protegem esses documentos. Alguns, por se tratarem de problemas individuais e particulares, e outros por serem de caráter público e não correr o risco de colocar o Estado em risco, se mantém em sigilo por um determinado número de anos. Trinta, quarenta, cinqüenta anos geralmente são colocados como tempo limite para este sigilo. No Brasil, no entanto, havia uma outra lei que permitia uma única renovação deste tempo sigiloso de 30 anos dependendo da importância do documento. Quem media essa importância? O próprio governo.


Pois bem, é uma grande aspiração de todos que os documentos do período da Ditadura Militar sejam abertos à pesquisa e que, ao contrário dos nossos vizinhos sul americanos que liberaram esses arquivos juntamente com a queda do regime, nós, brasileiros, continuamos com eles em sigilo até hoje. No final do mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi implantado um projeto de lei que permitia a renovação contínua de documentos em sigilo caso fosse julgada essa necessidade. Todos esperavam um governo mais democrático com a entrada de Lula na presidência e que esse projeto de lei não tivesse repercussão. Para o espanto de todos, o que era apenas um projeto virou lei.


Semana passada ouvi que era só esperar todo o pessoal envolvido na Ditadura morrer que os arquivos seriam abertos. Isso não é tão verdade. A Guerra do Paraguai, que teve seu fim há mais de 100 anos, quando o Brasil ainda era monarquia, ainda tem seus documentos guardados sem nunca ninguém ter tido acesso a eles. Por que esse medo do governo? Que descoberta os brasileiros poderiam ter com um acontecimento de 140 atrás que poderia colocar o governo em risco? Não se sabe. E enquanto isso os diretores e responsáveis pelos nossos arquivos públicos continuam desrespeitando as leis de acesso com a ajuda de novas leis que dão todo e qualquer tipo de crédito ao sigilo forçado e vergonhoso de documentos que poderiam nos ajudar a entender muito melhor a história (não tanto recente, em consideração a Guerra do Paraguai) do Brasil.