quinta-feira, 13 de março de 2014

A melhor escolha

Na virada do ano eu estava otimista. 2014 parecia ser um ano promissor e cheio de mudanças. Afinal, o primeiro semestre do ano seria o último da minha graduação e, com ele, todas as rupturas e recomeços que isso traz. Mas se o ano mal começou, se o Carnaval acabou agorinha e, em muitos aspectos, 2014 só começou agora, minha vida já deu uma super volta. Um looping radical que me trouxe para o mesmo lugar de antes.

Na verdade, seria cômico se não fosse trágico.

Sair do ensino básico para entrar na faculdade é quase uma continuação. Há muitas diferenças, é verdade. Mas em geral, escolhemos um curso que mais ou menos se aproxima às disciplinas que mais gostávamos no Ensino Médio, e para lá vamos. E, vamos reconhecer, que na clássica divisão que alguém inventou de Ciências Exatas, Biológicas e Humanas, a escolha torna-se muito mais fácil. Já é meio caminho andado dizer que matemática não me apraz, enquanto que história e literatura sim. Ou o contrário.

Enfim, as coisas mudam no final da graduação. Fazer escolhas torna-se uma condição imperativa e, a parte mais sacana que o Universo nos reserva, é que procuramos, muitas vezes em vão, a escolha certa. Não há a melhor escolha. Como no filme Mr. Nobody, todas as escolhas são possíveis e não há a certa, muito menos a melhor. Mesmo a narrativa que se segue no que poderíamos chamar de escolha menos ruim, ela continua sendo trágica e sem final feliz.

Vou terminar a graduação bem encaminhada na vida acadêmica: um currículo com pesquisa, estágio em uma instituição mais que reconhecida na área, orientação com uma grande professora, apresentações em grandes encontros e boas notas. Mesmo assim, procurando independência financeira - muito difícil - quase impossível - de ser alcançada exclusivamente com pesquisa - me aventurei no mundo corporativo.

Nessa aventura - de aproximadamente três semanas - muitos prós e contras. Entre eles, a percepção que eu tenho que jogar com o aqui e o agora. Quais as cartas que tenho em mãos no momento? Sem promessas de futuro, sem idealizações e expectativas (afinal, estas podem nunca deixar de serem expectativas), e, principalmente, sem viver como se não houvesse o amanhã, como lidar melhor com o momento do agora?

Mesmo Nemo, que podia ver o passado e o futuro e todas as implicações que todas as suas escolhas possíveis poderiam trazer, decidiu não escolher e fugir. Quem dirá eu que tenho dificuldades em planejar meu almoço para a semana.

Na verdade, seria trágico se não fosse cômico. No aqui e a agora, percebi que o melhor para mim não é a mudança, é continuar de onde eu estou. Mesmo que isso, no futuro, não se apresente como a melhor opção. Mas como Nemo bebê diz, uma vez que você mistura a polenta com o molho de tomate, nunca mais você poderá comê-los separadamente.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

E aquele pingado?

Era seu dia de folga e José andava pela Cásper Líbero em direção á Ipiranga. Por um momento pensou como é engraçada essa familiaridade que se tem com as ruas do centro de São Paulo a ponto de chamá-las somente pelo nome, dispensando a formalidade de rua, avenida, travessa. Era como se tivessem virado gente. Estava passando pela Luz, que um dia fora somente uma estação, e se dirigia á Santa Efigênia, que além de rua intercedia por nós.
Lá trabalhava no balcão da padaria mais antiga da rua há cinco anos. Ou seria quatro? Talvez seis? Não importava. Aquele cheiro azedo de urina na rua não ajudava nos cálculos matemáticos. Lembrou-se do pingado que fez para o candidato a prefeito que nas últimas eleições foi conversar com os comerciantes do bairro. Do balcão da padaria, preparando suco de laranja e cappuccino para as madames, José ouvia de tudo. Mas ouvia e não respondia. Não perguntava. Na verdade, fingia que não ouvia.
Ás vezes lá se reuniam grupos de estudantes que diziam estar fazendo trabalho de campo. Foi com um destes grupos que ouviu uma vez que o centro, no início do século, era chique. Quando foi isso? Mil novecentos e bolinha? É verdade que achava a Luz e a Estação Júlio Prestes muito bonitas e lhe dava uma sensação de estar em outro tempo, mas chique? Achou que aqueles jovens estavam imaginando demais. Estudar muito deixa as pessoas louquinhas mesmo, seus avós já diziam. O centro é de gente pobre e suja. Que dorme e mija na rua. E pensava isso quando chegava à esquina da Rua Aurora, conhecida pela prostituição. É, o centro é de gente abandonada. Sem lugar para morar ou trabalhar. Chique? De onde eles tiraram isso?
Vira e mexe também passavam por lá turistas. Quando vinham de outros estados, estavam com sacolas enormes de bugigangas compradas na 25 de março e arredores; quando vinham de outros países, pareciam peixes fora d’água. Não entendia o que tinha ali para turista ver. De dia fica menos feio, tudo bem. Mas o cheiro azedo não vai embora e, no sol de outono do meio dia, fica ainda pior.
Andando pela calçada, desviando do concreto quebrado e torto, na sua frente andavam dois meninos e um deles estava descalço. O mais velho abraçava o mais novo e não deviam ter mais que quatro e seis anos. Passou por um mendigo, deitado na porta de ferro de uma loja fechada e coberto até o rosto pelo cobertor. Fedia. E isso lhe chamou atenção. Lembrou-se do pingado e do candidato à eleição, de terno e gravata, e os homens que o acompanhava. Isso foi ano passado.
A cada dois anos, mais ou menos, aparece candidato lá na Padaria. José não gosta de atendê-los. Se fazem de simpáticos, mas falam difícil. Eles há muito tempo vêm com propostas de melhoria do bairro, dizendo que vão cuidar do lixo, tomar medidas para tirar de lá os crackeiros, melhorar as calçadas, trazer mais segurança e uma conversinha sem fim. Agora, na esquina do Bar do Léo, para não passar ao lado daquelas pessoas com chopp na mão comendo coxinha, atravessou a rua, onde tinha gente mendigando sentada em papelão no chão, suja e mal vestida.
Aquele candidato e seu pingado, pensa José, é aquele que venceu as eleições, num é? Mas que diferença faz? Tudo continua igual há tanto tempo... Ele dizia aos comerciantes da região que ali sentaram para conversar, que o comércio não ia ser prejudicado e o Projeto Nova Luz seria mais bem avaliado. Era esse o nome mesmo? As demolições, dizia o candidato, não iriam mais acontecer e que tinha gente importante e inteligente cuidando disso, mas que, principalmente, se ele fosse eleito, o direito dos comerciantes de continuar a trabalhar estaria garantido. O dono da Padaria apareceu, ofereceu um lanche de cortesia da casa, mas ele recusou, disse que estava ali para conversar também com representantes dos moradores do bairro para lhes dizer, que assim como o direito dos comerciantes estava garantido, suas moradias também lhes eram de direito.
José queria perguntar, mas não podia. Algo lhe preocupava muito. Era da Cidade Tiradentes e vivia de bicos. Até que um dia, conseguiu esse emprego para trabalhar no balcão da padaria, que ficava no centro. Mas o trabalho começava ás cinco da matina, para colocar os pãezinhos no forno e não havia trem nem ônibus que o fizesse chegar a tempo. Conseguiu um quartinho num prédio ocupado na Rua Mauá. Seu Nelson havia sido muito bom com ele. De lá, podia sair as 4h45 para chegar ao trabalho na hora, e passava por uma gente que parecia estar semi-morta, encostada nos muros e postes, deitada no meio-fio. Pagava muito pouco de condomínio e lá vivia bem. Se de lá saísse, não sabia para onde ir. Não teria condições de pagar um aluguel por ali e, se fosse mais longe, não conseguiria continuar trabalhando na padaria.
José queria perguntar, o que seria dessa gente que mora na Mauá? O que seria dele? Poderia continuar? Teria que sair? E agora? Se falasse, seria repreendido pelo patrão. Pergunta ou não? E agora? E agora, José? 
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Narrativa desenvolvida para avaliação da disciplina de Ensino e História: Teoria e Prática, em Julho de 2013

sábado, 6 de julho de 2013

Closed-door hotels; open-door residences

Empty old hotels. A debt of billions of reais in taxes. Cockroaches and pigeons living and reproducing in dirty abandoned rooms. This is the scenario when homeless people first arrive in a bare hotel in the center of São Paulo city. On the 8th of June, for studying reasons of one subject from college, a research field was organized to see how these residents arrange themselves in terms of water and energy supply, negotiations with the government, silence, cleaning and get to know, a little bit, their ideologies, purposes and routine.  
At 9am the group of students met in front of one the most famous museums in São Paulo city: the Pinacoteca. Besides the two occupied buildings we were going to visit, we also would try to analyze features of the city space delimited for the Projeto Nova Luz, which would demolish many buildings in a bigger urbanization program. Therefore, we walked throughout the center of the city and the first occupied building we visited is known as Ocupação Mauá, and stays right in front the train and metro Luz Station, at Mauá Street.
Mr. Nelson, or just, Seu Nelson, an old black man who received us, talked about how important it is for the 237 families who live there, to stay in a place where there are several services offerings and public transportation, even though they are, mostly, in 4 or 5 people in one small room without a private bathroom. Most of them don’t have a formal job, consequently, no regular income; nor are they homeowners.  To live in one of the abandoned Santos Dumont Hotel, you need to respect some rules: you can’t be noisy, exceed the five-minute shower is not tolerated, women must be respected, a professional occupation is required, as well as a certain limit of income. Drug traffic and use is also a serious cause of expulsion.
The second occupied building we visited was the Palace Hotel, abandoned since the 80’s. Its owner lives in Switzerland and has a debt in taxes for over thirty years, approximately. Nazareth, one of the residents who received us, is an artist who created an atelie and promotes soirees among the other residents, children and homeless, in which they read the poems they write themselves; besides, one room has several chairs and a projector, where they have movie sessions. Only 80 families live at the Ocupação São João, thus more organized and clean the building is, and, even though each room has its own toilet, the shower is for common use.
Both Nazareth and Seu Nelson coordinate the occupations and, although they have similar aims and fight for the same cause, they belong to different movements. Their intents though, are the same. In the center of São Paulo there are thousands of abandoned residences. These empty spaces, mostly, are old closed-door hotels, whose owners don’t pay the taxes and, at the same time, don’t intend to sell their property nor open new businesses, turning them into dead spaces. Simultaneously, thousands of people live in the outskirts, taking, sometimes, more than 3 hours to arrive to their work and, in other situations, either living under bridges or in slums without basic and sanitarian conditions.
These people are fighting for their right to housing, constitutionally guaranteed, at the same time there are potential residences downtown, next to their needs and work. Potential residences because, until Seu Nelson, Nazareth and their people arrive, they are just empty spaces, contributing to plague and conditions for the neighborhood and around degradation. When there is no one, prostitution and drug traffic take place and dominate the area. Unlike governmental measures, that prefer to build huge condominiums they call “popular housing” miles away from the nearest center, the occupying movements seek their place among and inside the urban area and its population. That’s why they try to combat the common sense that thinks they are invaders and beggars. They are, at least it’s the image they try to make of themselves, concerned citizens who look for their rights and justice, fighting against those who don’t contribute to the society by abandoning buildings and not paying taxes. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Immigration in Sao Paulo, Brazil

Brazil is a country of continental dimensions. Since its colonization in the 16th century, people from all over the world have arrived throughout Brazilian territory. If one does not focus on one specific immigration phenomenon, it is possible to spend hundreds of pages describing and analysing the arrival of Portuguese people, as well as Dutches, Japaneses, Chineses, Africans, Germans, Italians, Arabians, and others either in Rio Grande do Sul or Rio Grande do Norte. 

But it was in the end of the 19th century that the immigration in Sao Paulo changed forever the face of the Brazilian biggest city. The main deal, responsible for having enriched the city, was the coffee production and comercialization. Neverthless, the abolition, in 1888, forced the farmers to look for another kind of cheap labour and the immigrants was the solution. Since their homecountries were passing through a modernization process, these people were losing their lands and, consequently, the place they lived and worked. 

These immigrants, mostly Italians, Germans and Japaneses, were the protagonist of a much studied phenomenon in Brazilian history: the transition of slavery to wage labour. As every transitional moment, many difficulties needed to be overcome and, for long, these immigrants were seem and treated, many times, as slaves. In the next decades, immigrants continued to arrive in Sao Paulo, but as the coffee production and comercialization had declined, these people didn’t go to the countryside and remained in the capital. 

Therefore, staying together with their compatriots, the immigrants shaped the city’s neighborhoods, accent, eating habits, popular music, etc. Until today, Liberdade is a well-known japanese neighborhood, with tipical food, music and the place where Oriental festivities are celebrated. The same happens in Bixiga, where the factories’ Italian workers lived, turned to be a typically Italian neighborhood. What about the most famous shopping street trading in Sao Paulo? 25 de Março Street became what it is today because of the Arabians, for whom trade has always been an important work activity, settled in the area. 

More recently, however, the identity of the new comers has changed, as well as the citiy’s face. Koreans and Chineses are the main traders at 25 de Março. Bolivians and Peruvians are also seeking their room in the centre of the city. Unfortunately, little has changed the relation between immigration and compulsory labour. Not only did the immigrants confront the traces of unfree labour at the coffee plantations, but also today the new comers encounter some kind of slavery. Hidden in small rooms, with little food and water, poor immigrants with no perspective, are required to work (usually at textile factories) several hours a day in order to pay the debts they acquired coming to the new land.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A morte de Artemio Cruz - resenha


“Assim, diante da morte há duas atitudes: uma, para a frente, que a concebe como criação; outra, de regresso, que se expressa como fascínio pelo nada ou como nostalgia do limbo. (...), dois poetas mexicanos, José Gorostiza e Xavier Villaurrutia, encarnam a segunda destas diretrizes. Se para Gorostiza, a vida é ‘uma morte sem fim’, um contínuo abismar-se em direção ao nada, para Villautia, a vida é apenas ‘nostalgia da morte’.”[1]

Em A morte de Artemio Cruz, Carlos Fuentes constrói um personagem que, aos setenta e um anos de idade, encontra-se diante de seus últimos momentos de vida. Defronte da morte, Artemio Cruz refugia-se em seu passado e, através da memória, revive episódios de sua existência em que, diante do perigo ou de fortes emoções, sente-se cheio de vida. Por meio de uma narrativa não linear, com níveis de tempo, espaço e consciência superpostos, múltiplas vozes narrativas constroem o fluxo de consciência de um homem moribundo que, revivendo seu passado, procura um sentido para sua vida e, consequentemente, para sua morte. Mas Artemio Cruz é mais do que isso. Através de seu protagonista, Carlos Fuentes constrói uma visão desencantada da Revolução Mexicana, ao contrário do que se tinha feito nos anos posteriores ao movimento revolucionário, que construiu a Revolução como mito fundador da nacionalidade mexicana. Como é construída esta visão pessimista e desencantada do México pós-revolucionário e, também, como a Revolução em si fora um projeto sem grandes vínculos ideológicos, é o que tentaremos explorar ao longo do texto.
Filho bastardo de um senhor de terras sem escrúpulos, integrante de uma família conservadora e em decadência do fim do século XIX do México, Artemio Cruz é criado até os seus treze anos pelo seu tio materno, Lunero e, depois de matar acidentalmente seu tio paterno, foge da fazenda onde vivia. Durante sua juventude e impulsionado pelo seu professor Sebástian, Artemio Cruz participa da Revolução Mexicana. Ora lutando pelo exército viilista, ora lutando pelas forças de Carranza, nunca teve muita clareza de seu papel no movimento e nem o que o movimento revolucionário representava em si. Ao fim da Revolução, Artemio se une a família Bernal, renovando a antiga ordem oligárquica sustentada pelo governo de Porfirio Díaz, apropriando-se do discurso revolucionário de reforma agrária, para aumentar seu poder sobre outros e sobre suas terras.
A narrativa é construída em três temporalidades e narradores que se entrecruzam. A realidade mais imediata, aquela que circunda Artemio Cruz moribundo na cama, é narrada no presente e em primeira pessoa. Em outras palavras, o eu percebe a realidade física ao seu redor. Para objetos que se colocam a uma distância maior no tempo, ou seja, episódios e eventos da vida de Artemio Cruz que aconteceram no passado, e a partir dos quais podemos construir a trajetória de sua vida, a narrativa é em terceira pessoa. Em um terceiro momento, o protagonista torna-se objeto de observação e utiliza-se o futuro como tempo verbal. Aqui, quem toma a palavra é um narrador onisciente, ou a supraconsciência de Artemio Cruz, que funciona como um elemento que dá coerência a esta fragmentação de vozes e tempos e é capaz de assegurar aspectos da realidade do protagonista que escapariam de sua percepção consciente. Utilizando-se do tempo verbal no futuro, a supraconsciência procura fazer com que Artemio Cruz reflita sobre as suas decisões e reexamine seu passado, satisfazendo, ainda, uma ânsia do protagonista em prolongar sua vida como se fosse possível tomar outras decisões no futuro.
Diante de uma realidade complexa e múltipla, Carlos Fuentes inova na linguagem de seu romance. A confusão que os diversos níveis temporais, espaciais e de consciência superpostos causam na narrativa, se assemelham a confusão causada pela ausência de um programa ideológico no percurso da Revolução Mexicana e as consequências que esta lacuna trouxe ao México pós-revolucionário. Durante sua participação no movimento, Artemio Cruz se guiava pelas circunstâncias. Diante de uma batalha, seu ímpeto é de fugir do combate que está prestes a enfrentar; em outro momento, luta ao lado dos que antes eram seus inimigos e, ao ser pego, propõe uma batalha pessoal contra o general que o aprisionou. Não se sabe pelo que Cruz está lutando, nenhuma ideologia o guia e mudar de lado é uma questão de sobrevivência e circunstância. Além disso, quando cessa o movimento e Artemio se une aos Bernal, uma família tradicionalmente oligárquica, o discurso de reforma agrária encontra-se vazio de conteúdo e Artemio, agindo de maneira totalmente contrária á sua fala, utiliza-o para convencer trabalhadores e aumentar seu prestígio.  A falta de programa ideológico é simbólica no trecho:
 “- Caramba, capitão, se vamos perder de qualquer maneira. Sou honesto. A divisão está desintegrada. (...) Estamos cansados. São muitos anos lutando, desde que nos levantamos contra Dom Porfirio. Depois lutamos contra Madero, depois contra os colorados de Orozco, depois contra os infelizes de Huerta, depois contra vocês, os capangas de Carranza. São muitos anos. Estamos cansados. Nossa gente é como as lagartixas, vai tomando a cor da terra, enfia-se nos barracos de onde saíram, tornam a vestir-se de peões e tornam a esperar a hora de continuar brigando, mesmo que seja daqui a cem anos.”[2]
 A Morte de Artemio Cruz, no entanto, vai além. Nosso protagonista personifica um desencanto e pessimismo de Carlos Fuentes em relação à Revolução Mexicana. Artemio Cruz foi um revolucionário, sem ideal, que soube aproveitar o imediato momento pós-revolucionário, ainda em caos, com o discurso ideológico da Revolução ao mesmo tempo em que fazia uso de artifícios capciosos, tomando em suas mãos o poder local e restaurando uma ordem oligárquica anterior á Revolução sustentada por Porfirio Díaz. Neste sentido, de um modo um tanto determinista, Artemio Cruz herda e repete a moral de sua família, os Menchaca: através de sua ânsia pelo poder, aliado a sua imoralidade, Cruz expande suas terras, assume o cargo político de deputado, possui um jornal pelo qual manipula informações, age como intermediário para interesses estrangeiros de exploração no México, faz uso de meios desonestos para manter a lealdade com outros caudilhos, entre outros. É esta a cara deste novo México pós-revolucionário:
“Artemio Cruz. Assim se chamava, então, o novo mundo surgido da guerra civil; assim se chamavam os que chegavam para substituí-lo. Desventurado país – disse para si mesmo o velho enquanto andava, outra vez de maneira pausada, para a biblioteca e essa presença indesejada mas fascinante -, desventurado país que a cada geração tem que destruir os antigos possuidores e substituí-los por novos donos, tão rapaces e ambiciosos como os anteriores.”[3]
Artemio Cruz representa então este novo México, que reinventa a ordem oligárquica porfirista atualizando-a para o século XX. Ele é a Revolução apropriada pelo poder corrupto e desfigurada. Talvez seja por isso que há tantas referências á frutas ao longo dos episódios revividos por Artemio Cruz. Seja no pomar que plantou em frente a sua casa, ás frutas escolhidas por Regina em algum povoado, aos nomes das frutas que existem no México que seu filho Lorenzo conta para uma moça na Espanha, ao mamão que Lunero reparte ao meio enquanto janta com Cruz ainda menino... São várias as referências ao longo do livro. Assim como uma fruta, tanto a Revolução quanto Artemio foram um dia cheio de vida, de sentido, mas foram bichados pela corrupção (especialmente nos momentos finais de Artemio, em que a descrição naturalista de seu problema gastrointestinal causa uma percepção de podridão):
“Lunero acendeu depois o braseiro para esquentar o picadinho de peixe, sobra do dia anterior; na cesta de frutas procurou, piscando os olhos, as cascas mais pretas para consumi-las logo, antes que a corrupção total, irmã da ferocidade, as amolecesse e bichasse.”[4]
            Carlos Fuentes explora os momentos finais de um velho moribundo, aproximando a morte cada vez mais de seu personagem. A relação entre a morte e os mexicanos é um tema bastante explorado por Octávio Paz em seu texto “Todos os Santos, Dia de Finados”. Para Paz, diante da morte há duas atitudes: encará-la como criação ou como regresso, expressando-se, este último, por um sentimento nostálgico. Artemio Cruz passa todos seus últimos momentos revivendo episódios do passado sob um ponto de vista moral e considerando outras escolhas que poderiam ter sido feitas e mudado sua vida. É uma nostalgia de tudo o que foi e do que poderia ter sido. Além disso, ao falar da morte para o poeta Villaurrutia, a vida (encarada como um sentimento nostálgico da morte) é vista como um meio de transição: origina-se da morte, que tem nas entranhas maternas a sua cova, e volta a ela quando chega o seu fim. Por isso que o último momento que Artemio Cruz revive em sua memória, o mesmo que atesta a sua morte, é aquela de seu nascimento.  Cruz procura, em seus momentos mais próximos da morte, encontrar o que a vida temporal não lhe deu: o sentido de sua vida.
            Aproximando o protagonista ao que foi e ao que deixou para o México a Revolução, nota-se um sentimento de profunda nostalgia a este momento tão crucial para a história dos mexicanos. Hoje, olhando para trás, é possível ver, ainda que de maneira confusa (como a própria memória e o fluxo de consciência de Artemio Cruz) os episódios que marcaram o início do século XX mexicano. Se o México pós-revolucionário deixou uma grande nostalgia do que foi a Revolução, hoje procura-se o sentido que ela deixou não só para o México em si, mas também para a América Latina, e julga-se, com muita facilidade, o que deveria ter sido feito ou não para que a Revolução tomasse outro curso e deixasse outras marcas na História. Mas esquece-se que, no momento, para aqueles que viviam a Revolução, os sentimentos eram outros e as suas escolhas, como as de Artemio, dependiam muito mais do momento imediato no qual viviam.
            Duas atitudes são possíveis de serem tomadas diante da morte, ou do fim, da Revolução Mexicana: encará-la como criação, para frente. Como podemos ver num partido que se assume como continuidade da Revolução e se mantém no poder hegemonicamente por anos. Ou também como regresso, ou nostalgia, como faz Carlos Fuentes em A Morte de Artemio Cruz: revivendo, criticando e procurando um sentido, de uma maneira bastante poética e desencantada, do que foi a Revolução Mexicana e a política mexicana pós-revolucionária.

Na imagem, Zapata, líder do exército do sul, de Diego Rivera. 

[1] PAZ, Octavio. “Todos os Santos, Dia de Finados”. O labirinto da solidão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 58
[2] FUENTES, Carlos. A morte de Artemio Cruz. Rio de Janeiro: Record / Altaya, s/d. (Col. Mestres da Literatura Contemporânea, 72), p. 140
[3] Ibidem, p. 39
[4] Ibidem, p. 11

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Rachel Corrie

Nevertheless, no amount of reading, attendance at conferences, documentary viewing and word of mouth could have prepared me for the reality of the situation here. You just can’t imagine it unless you see it – and even then you are always well aware that your experience of it is not at all the reality: what with the difficulties the Israeli army would face if they shot an unarmed US citizen, and with the fact that I have money to buy water when the army destroys wells, and the fact, of course, that I have the option of leaving. Nobody in my family has been shot, driving in their car, by a rocket launcher from a tower at the end of a major street in my hometown. Rachel Corrie

Em 2003 Rachel Corrie foi atropelada por um trator israelense ao se colocar em frente a uma casa de família no território da Palestina que, como tantas outras, estava para ser destruída. O caso teve repercussão porque trata-se de uma cidadã norte-americana e não podemos esquecer quantos palestinos - adultos e crianças - foram mortos antes e depois dela e não saíram na imprensa. No entanto, se não for pela voz dos que têm vozes, quem falará pelos que não têm?

Rachel deixou um legado maravilhoso. Os emails e outros escritos que produziu no período que passou na Palestina ficou para nós e se transformaram em livro e peça de teatro. Os emails podem ser lidos no site da Rachel Corrie Foundation for Peace and Justice, que foi criada á sua homenagem após sua trágica morte. 

Poderia me arriscar a dizer que, pelo menos os emails que eu li, poderiam ser chamados de "diário de Anne Frank moderno"? Acho que sim. Mas as palavras de Rachel doem mais. São mais profundas. Jogam na nossa cara a outra face do ser humano. A face cruel e, ao mesmo tempo, imóvel. E, mesmo que tentássemos, ela nos deixa claro que nunca saberemos o que é este sofrimento pelo qual passa essas pessoas que sofrem as maiores injustiças e atos da frieza humana. O mundo é desigual e injusto e, não sei de  onde, ao longo de seus emails, ela tira forças e esperanças para continuar a lutar num lugar que, a cada dia, lhe apavora mais e mais. 

Se uma coisa que eu pretendo compreender melhor no futuro é este embate que acontece entre Israel e Palestina. Estes campos de concentração e torturas psicológicas que sofreram o povo judeu na Alemanha Nazista, num passado tão recente, e que se espelham agora num povo e numa terra que pouco ou nada tiveram a ver com isso. Mas essa realidade de agora, que também chamo de nazista, que pratica o Estado de Israel é pior. Pior porque tem a aprovação de todo mundo. Pior porque acontece sob os olhos de todos. Pior porque é uma guerra que já acontece há muito tempo e não tem previsão para acabar. 

O site The Rachel Corre Foundation: http://rachelcorriefoundation.org/

Just feel sick to my stomach a lot from being doted on all the time, very sweetly, by people who are facing doom. I know that from the United States, it all sounds like hyperbole. Honestly, a lot of the time the sheer kindness of the people here, coupled with the overwhelming evidence of the wilful destruction of their lives, makes it seem unreal to me. I really can’t believe that something like this can happen in the world without a bigger outcry about it. It really hurts me, again, like it has hurt me in the past, to witness how awful we can allow the world to be. Rachel Corrie

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Tipo ruim de pessoa

Acho que se tem um tipo ruim de pessoa é aquela que consegue fazer o mal, desestabilizar pessoas, famílias e ambientes de trabalho e ainda sair por cima como vítima de tudo isso.

Nesta minha última experiência (que já passou, graças a deus!), convivi com uma pessoa assim. É capaz de escolher alguém que se encontre só e ir apontando defeitos e, até mesmo, inventando outros. Até que desestabiliza a paz, traz discórdia, pensamentos e sentimentos ruins que poluem a energia do lugar atrapalhando, assim, até mesmo a convivência entre as outras pessoas. 

Mas essa pessoa também sabe muito falar de Deus! Aprendeu passagens da Bíblia (ou diz que sabe, mas na verdade não sabe) e adora jogar na cara das pessoas como elas não estão seguindo o Evangelho.

Minha dúvida, o que me incomoda lá no fundo, é saber quão intencional estas atitudes são. Será que faz tudo isso sabendo e esperando uma reação negativa da pessoa que está atacando, para ocasionar uma discussão, ou até uma briga? Faz isso pensando e querendo desestabilizar famílias e ambiente de trabalho? Tem consciência de que está inventando argumentos bíblicos para algo que a Bíblia diz o contrário? Quer mesmo afastar as pessoas? Tem a intenção de magoar?

Além de outras coisas, no entanto, é possível aprender uma coisa valiosa com essas pessoas. Muito mais do que você fala,o mais importante é como você fala. Falar um monte de invenção e mentira, mas com segurança e serenidade convence. Transparece sabedoria. Uma sabedoria vazia, é verdade, mas a primeira vista parece verdadeira. 

Ainda bem que para mim nunca pareceu verdadeiro que sou desestabilizada e mal resolvida.